FÉNIX

LOGOS Nº 3

Julho 2013

 

 
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Roberto Rodrigues de Menezes

 

 

LORELEI, A NINFA DAS ROCHAS
Roberto Rodrigues de Menezes

Sempre que o marido a chamava
pelo nome de sonho, ela tinha que
contar e recontar a lenda mágica!

 

No início do século vinte a baixada do Maciambu, em Palhoça, é uma região agreste, com pequena população que vive da pesca e da agricultura básica e familiar. Ali há um manguezal imenso, viveiro de vida marinha e silvestre, limitado ao norte pelo rio que leva o mesmo nome da baixada e ao sul pelo rio da Madre, cujo estuário divide hoje os municípios catarinenses de Palhoça e Paulo Lopes. Uma estradinha de terra sai da rodovia, ainda no alto do morro dos Cavalos para o sul, quando se pode ver as sinuosas curvas do rio Maciambu. Ali, na direção dos contrafortes dos montes, no inverso do mar, chega-se até o pequenino sertão do Maciambu, onde o rio desce as encostas com belas e cristalinas cachoeiras.
Naqueles tempos rudes surgiu na baixada um alemão da Renânia. Vinha só com sua bagagem e alugou pequeno quarto na casa de estilo açoriano do matuto Tomé, que ali vivia com a família de mulher e dois filhos. Como estava a casa próxima do rio, na bela vertente fazia o alemão as suas abluções, mantendo sempre a barba impecavelmente cortada e os louros e lisos cabelos penteados com esmero. Franz Binder falava até bem a língua portuguesa, entendendo-se de maneira simples e fácil com os nativos. Beirava os trinta anos, bem jovem ainda, alto, o corpo espadaúdo e sem barriga, o que fazia suspirar as mulheres da vila. Ele, no entanto, nunca se engraçou com nenhuma, nem mesmo moça solteira e bonita, o que era motivo para comentários na bodega, único ponto de encontro além da ermida da Passagem, uma vilazinha próxima, beirando a praia. Talvez fosse um padre ou soldado fugido das pestes e guerras da Europa, ou mesmo fizesse parte daquela turma que não se interessava pelo outro sexo. Mas até isso ele nunca demonstrou. Pagava em dia o quarto que alugara e transformara aos poucos, melhorando-o e levando para ali plantas exóticas, flores, conchas da praia, que catalogava com esmero e cuidado. Dera até reforma na casinha do Tomé, o que deixou o nativo feliz da vida, orgulhoso por passar a ter uma das melhores habitações do lugarejo. O alemão conseguira de um barco que aportara na praia todo material de pintura que encomendara na capital. Telas, tintas e pincéis propiciaram ao rapaz passar dias na beira do rio, pintando paisagens em volta. Por vezes saía sem o material de pintura e depois de muito caminhar na estradinha que margeava o rio Maciambu, acomodava-se em uma pedra da margem, numa das curvas da vertente, onde se quedava a cismar por horas. Ficava a contemplar o cair das águas de uma cachoeira em frente, sentado na sua rocha, só saindo dali quando o sol começava a descer para as bandas do morro. Voltava, ia até a bodega onde se alimentava e tomava cerveja trazida da capital. Conversava bastante, fazendo logo amizade com os nativos, quando se dispunha a contar histórias de sua terra distante. Todos ficavam a escutar Franz, pasmos com o seu linguajar pitoresco pelo sotaque, mas de boa qualidade pelos conhecimentos de que dispunha. Denotava ter cultura e conhecimento da história e geografia do mundo. Intitulava-se pintor, naturalista e navegador. Solteiro na Renânia e filho único de pais falecidos, egresso de um curso de humanidades, resolvera se jogar no mundo e o acaso fez com que viesse dar naquelas paragens. Vivera um pouco em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, mas não se acostumara com o clima por demais quente. Foi descendo para o sul, usando o mar como caminho, até aportar na bela e provinciana Florianópolis. E um dia lhe contaram sobre a beleza da baixada do Maciambu, suas matas, rios, praias, cachoeiras e montes. Talvez lá pudesse mitigar a saudade que sentia da bela Alemanha e seu rio Reno, de tantas histórias e tradições, navegável que era na maioria do seu curso, caminho líquido do desenvolvimento da Europa do norte. Vendera todos os bens na sua terra, pois após a morte dos pais não tencionava continuar lá vivendo. Sabia de conterrâneos que tinham vindo para o Brasil fazer a vida. Era o que também desejava fazer. Guardara o dinheiro obtido com a venda do patrimônio dos pais num pequeno banco na capital catarinense. E até lá seguia de barco algumas vezes, para retirar algo do que lhe rendia o investimento e continuar a vida. Assim logrou passar um ano na baixada.
E foi justamente num desses dias em que ficava com suas cismas na pedra do rio a mirar a cachoeira, que por ali passou Rosa, moça do lugar. Ela concluíra o curso de magistério na capital e retornara à vila para substituir dona Engrácia, já idosa, na escolinha isolada do lugar, que contava com as três primeiras séries do ensino básico. Era mulher nova e bonita, de tez branca, cabelos lisos e negros como a noite sem lua, corpo forte e torneado na pujança de seus vinte anos. Entreolharam-se, ele demonstrou interesse, pois não vira ainda na vila rapariga tão bela. Um tanto tímida, Rosa parou para cumprimentá-lo, enquanto o homem lhe mostrava a cachoeira em frente.
– Fê como é bonito!...
Ele disse isso com calma, quase sorrindo no seu português carregado, e ela acedeu com a cabeça, puxando da boca um sorriso doce. Neste momento Franz reparou melhor nela e pela primeira vez ficou em dúvida.
– O cachoerra é lindo, mas você...
Apresentou-se:
– Sou Franz Binder.
– Rosa, prazer... – ciciou ela um tanto vermelha.
Gostara do rubor da moça, que se despediu rápida e sumiu na curva. Vestia um vestido simples e justo que lhe realçava as formas bonitas, sandálias trançadas nos pés mimosos. O cabelo solto e longo ondulava ao sabor da brisa, o que deixou ainda mais maravilhado o alemão. Rosa morava bem perto, um pouco mais abaixo daquele ponto, e ele ficou sabendo que passava sempre, ao ir para a sua pedra, em frente à casa da moça, filha de Anselmo de Moura, açoriano que tinha rancho e canoa na praia, além de pequenas plantações de subsistência.
Quando rumava para o seu mirante no rio, Franz usava sempre uma mesma roupa. Camisa branca com lenço cinza imitando gravata, jaqueta vermelho-escura bem justa, que terminava na cintura, calças pretas que iam até os joelhos. Daí para baixo dois grandes meiões brancos e sapatos de fivela completavam a indumentária, muito estranha para os do local. Na cabeça, para se proteger do sol, tinha um chapéu de feltro com pequenas abas laterais, da cor da jaqueta. Era a mesma roupa que usara muitas vezes ao percorrer um rochedo numa das curvas do rio Reno, perto de onde moravam seus pais, na busca ansiada de Lorelei, mulher bela e misteriosa, sereia talvez, que aparecia à noite naquela rocha, tendo como veste somente os cabelos louros e longos, que lhe caíam até os pés. A ninfa do rio, com uma lira nas mãos delicadas, cantava maravilhosas canções, que deixavam em êxtase os marinheiros e navegantes. Não raro aconteciam naufrágios e mortes provocados pelo canto, que deixava loucos os nautas do rio. Franz procurara por ela, extasiado também pela história misteriosa e envolvente. Nunca, porém, alguém que a contemplara vivera para contar. Talvez a procurasse agora na cachoeira do rio Maciambu, tão longe da sua Renânia.
À noite lhe vieram os sonhos e Rosa sempre neles presente. Procurara tanto e somente viera achar a sua ninfa num canto agreste do mundo. E era real, não mito nem lenda. Mas ela, será que lhe devotaria o mesmo pensar?
A moça chega a casa. Não lhe sai do pensamento aquele galego estranho e bonito, de roupa ainda mais estranha, mas mesmo assim bonita também. Conta aos pais sobre o encontro. Anselmo de Moura, que já conhece o alemão de nome, fica preocupado. Percebe a filha um tanto entusiasmada. Será o moço bom partido? Não terá algum segredo? Não vai querer levar a filha para um mundo longe?
Na semana seguinte, vestido com a mesma roupa, Franz segue até a rocha. Antes de chegar, passa por Rosa na estrada. Toma coragem e lhe diz, já que estão sós.
– Fou até a pedra. Famos?
Ela continua rápida, sem dar resposta. Está próxima da casa dos pais. Franz a contempla por instantes e retoma seu caminho. Acha-a ainda mais bela. O verde da mata em volta do rio lhe parece estar de renovada cor e o Maciambu mostra suas águas maravilhosamente cristalinas. Por certo o céu se tornou mais azul, tingindo com perfeição os contornos dos montes.
Chega à sua pedra e não contempla a cachoeira como sempre fizera. A ninfa açoriana avulta em seu sonho, toma-lhe todos os espaços. Parece mesmo estar apaixonado. Quem sabe uma casa, uma esposa dedicada, filhos, talvez.
Uma hora se passa e nada da Rosa. Ele volta os olhos de vez em quando para a curva da estrada, na beira do rio. Retorna à cachoeira, que já não esconde a sereia das águas.
Um murmúrio de brisa acontece, ele novamente se volta e a vê, agora bem perto de si.
– Que bom fieste, – diz com um sorriso.
– Não devia, – cicia ela com os olhos baixos.
O alemão lhe toma as mãos geladas de susto e a faz sentar-se ao seu lado. A moça acede. Está com um vestido azul, da cor do manto da Virgem, justo até a cintura e rodado para baixo. A covinha dos seios bonitos se avoluma e parece querer sair do seu abrigo. Os cabelos longos, penteados com esmero, descem soltos até quase a cintura. Franz está mudo de espanto e felicidade. E por longo tempo conta à bela mulher a história de Lorelei, a ninfa do rio Reno de sua infância, que ele tanto procurara e amara em segredo. Chegou a se alistar na Marinha de seu país, para talvez vê-la de um barco de guerra. Mas não dera certo.
Rosa escuta encantada. Que lenda bonita para ser narrada a seus aluninhos. Por um longo momento eles ficam ali, enlevados, a escutar o barulho das águas que descem e se chocam com o cristal hialino da vertente. É quando ele desfaz o silêncio de encanto com uma pergunta;
– Posso te chamar Lorelei?
Rosa sorri, faz um sinal positivo com a cabeça. Suas mãos se procuram e se tocam. Ele chega a sentir a quentura perfumada da respiração dela. Quando Rosa volta a si do enleio, despede-se rápida do já amado galego e foge. Franz, tomado por um contentamento inaudito, deixa-a ir, sabedor que já tem assento no coraçãozinho da sua Lorelei.
E o tempo foi dando voltas na baixada, passando os dois enamorados a se encontrar no mirante da cachoeira do rio Maciambu. Franz contou a ela sobre a sua família alemã, os pais sepultados na Renânia, sua obsessão pela ninfa Lorelei, até resolver tentar vida nova no Brasil, como já tinham feito tantos patrícios, vindos na sua ingente maioria para o sul do Brasil. Rosa lhe falou da família, de seus sonhos de professorinha, um dia casar e ter filhos, como toda moça prendada. E nesses encontros começaram a compreender que a vida já não seria mais possível senão a dois. Cautelosa, a bela açoriana ainda não permitira ao ditoso germânico a ventura do primeiro beijo.
A noite desce calma, vinda das faldas dos montes. Rosa corrige cadernos sob a luz mortiça de um lampião, quando ouve alguém bater palmas em frente a casa. O pai na cozinha, tomando um aparadinho de café, vai até o terreiro e vê o alemão, vestido com sua roupa característica.
– Permite entrrar e falar senhor – pede Franz ao embasbacado Anselmo. Este dá o seu sim com um gesto e entram na sala, onde Rosa, muda de espanto e alegria, vê entrar o seu amado.
– Boa note, Lorelei – fala ele sorrindo e tirando o chapéu de feltro.
– Boa noite, Franz – responde ela suavemente, com o coração aos pulos.
Anselmo pede que a mulher venha com café para servir ao visitante. Já refeito, pergunta ao moço:
– Lore... o quê?...
– Lorelei, pai – atalha Rosa, – é uma lenda da terra do Franz. Uma ninfa do rio Reno, de rara beleza, que ele muito procurou.
– E fui acharrr chustamente aqui – disse ele, olhando para Rosa com expressão de amor.
O homem olha para o rapaz, depois para a filha. Ela se dá conta, feliz, que o jovem carregava nos erres, mas ao falar Lorelei não o fazia. Como devia ser especial para ele este nome.
– Lorelei é uma sereia de um rio alemão, papai, uma história bonita que Franz me contou naquela pedra da beira do rio, que ele sempre visita e todos comentam. Amanhã eu lhe conto mais.
– Herr Anselmo – reinicia o moço, – fim até sua casa pedir que aprrove comprromisso minha com seu filha. Como esposa. Tenho condições constrruir bom casa, comprrar terrenos, ter pesca e lavorra. Nós dois sócios.
– Esposa?... Mas não é muito cedo? O senhor a conhece bem? E tu, filha, o que tens a dizer?...
Ela perde de vez a timidez:
– Aceita, pai, que eu também gosto do moço.
A mãe de Rosa vem com o café. Escutara tudo e se maravilhara com a roupa e o garbo do rapaz. Conduz o marido de volta à cozinha, o que permite que os dois enamorados se abracem.
– Meu Lorelei!
– Minha marinheiro, responde ela brincando, a sorrir feliz.
Seus lábios se unem num longo e profundo beijo de amor, tantas vezes desejado e tentado pelo alemão. Ela também, em seu íntimo, ansiara por aquele momento mágico. Abraçam-se ainda mais, maravilhados com tanta ventura. Franz sabe que não precisará mais na vida procurar a ninfa Lorelei. Achara-a finalmente, não numa curva do rio Reno, mas em outra curva distante do rio Maciambu, na baixada, para os lados do sul do mundo. Ele presenteia a moça com um belo anel de rubi que trouxera da Alemanha, joia da família.
Vão até a cozinha, finalmente, e acompanham os pais da moça num cafezinho forte. Rosa, não cabendo em si de felicidade, mostra aos pais o cintilante anel em seu dedo. Seu Anselmo abre um licor de rum e eles brindam ao amor e ao futuro.
O moço, enfim, se despede. A noiva o acompanha até o portão da cerca, que o rapaz abre liberando a tramela. Beijam-se outra vez, agora com mais ardor e volúpia, os corpos colados projetando, à luz da lua, uma sombra somente. Franz a quer tanto, que decide apressar tudo o que puder para tê-la finalmente sua.
Alguns meses depois, a capela da Enseada de Brito, distrito a que pertence o Maciambu, se enche de flores para dar passagem ao matrimônio do galego e sua bela noiva. Franz mandara fazer casa nas terras que comprara ao lado do terreno do sogro. Irão negociar com pesca e agricultura.
E dizem os descendentes dos nativos da baixada do Maciambu que nunca se viu, naquele lugar, casal tão unido. Franz se dedicava à pesca e à lavoura, administrando o trabalho de vários empregados. Ela continuou a dar as suas aulas para as crianças da vila. O único e adorável problema é que o galego nunca a chamou pelo nome de batismo. Seria para sempre a sua Lorelei.
Rosa não se importava. Gostava até de ser comparada à ninfa encantada do rio Reno. No fim das contas, Lorelei era ela própria e estava convencida disso. Mas, sempre que o marido a chamava pelo nome de sonho, e se alguém ouvisse, ela tinha que contar e recontar a lenda mágica. Enquanto isso, apesar do trabalho com o sogro, o galego ainda continuava a pintar belas aquarelas, sempre interessado em plantas e flores, que tornavam sua casa mais bonita e invejada.
No cartório e na igrejinha da Enseada, Franz desistiu que a esposa tirasse o nome Rosa da certidão de casamento, por compreender que tal desejo poderia magoar a amada e os pais. Mas, como o cartorário da Enseada de Brito era aparentado com o seu Anselmo e o padre muito amigo, passou ela a se chamar Rosa Lorelei de Moura Binder.
E construíram sua vida felizes como poucos, tendo filhos e netos na baixada do Maciambu.

Roberto Rodrigues de Menezes

 

 

 

Robinson Silva Alves (HIATOS)

 

 

OLHOS DO POETA
Robinson Silva Alves (HIATOS)

 
Os olhos de poeta
choram lágrimas de dor,
do sonhado e inesquecível amor
lágrimas que viram versos
versos de um sonhador

Os olhos do poeta
choram neste mundo cão
lágrimas da morte
dos que sofrem opressão

Os olhos do poeta,
olhos de libertação,
transformam em poesia
os gritos de revolução

enfrenta com palavras
tiros de canhão

derruba amarras
grilhões da omissão

Os olhos do poeta,
são olhos de menino arredio
enfrenta com versos
diversos desafios

chora.
liberta.
enfrenta.
esta vida incerta.

olhos da poesia.
Os olhos de um poeta.

Robinson Silva Alves
 

 

 

Rodrigo Octavio Pereira de Andrade

 

 

SINTRA DE PORTUGAL
Rodrigo Octavio Pereira de Andrade

 
Ó cidade portuguesa,
Diante da pequena
E simpática Quinta da Regaleira,
Que revela toda a sua beleza.

Pequena Sintra majestosa,
De jardins, de castanheiras-da-índia,
Diante das fontes de grande beleza,
Para as estátuas dos deuses de pedra.

Ó Quinta da Regaleira,
Você se torna nome de um sonho,
Perante ao patamar dos deuses da renascença,
Até a torre dos guardiões do escuro.

Cruzes templárias despertam curiosidade,
Diante de um mistério desconhecido,
Perante a Ordem de Cristo em sua realeza tênue
Aos diversos sentidos relacionados ao seu esoterismo.

Ó Quinta da Regaleira,
Perante ao seu altar-mor de sua capela
A coroação de Madalena,
Diante de uma arte plena.

A águia com seios,
Mostra a fugacidade palaciana,
Diante da utopia dos homens
Perante a sua perseverança.

Ó Sintra de Portugal,
Pequena cidade,
Que diante dos olhos o coral
Dos deuses para a realidade.

Se torna romântica a melodia
Das vozes que ecoam,
Dentro de um olhar impresso na fantasia
De uma poesia paisagem.

Rodrigo Octavio Pereira de Andrade
23/04/00
 

 

 

Rosa Pena

 

 

HAPPY MAN
Rosa Pena

 

Ele veio do Recife com vinte anos. Chegou ao Rio de Janeiro em 1946. Não veio como retirante, mas sim atrás de Linda, minha tia. Tinham se conhecido quando meu avô havia ido a Pernambuco rever seus maiores amigos, os que optaram na emigração do Líbano para o Brasil em ficar por lá, tal o encanto com o litoral nordestino. Linda havia só flertado com ele, não existia "ficar", no bar Savoy bem no centro de Recife, um lugar muito badalado pela intelectualidade. Apenas troca de olhares e alguns sorrisos enrustidos.
Era um menino alegre. Tinha o dom de desenhar e virou o caricaturista do bar. Tinha o maior trânsito com alguns que se transformaram em notáveis, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Capiba, frequentadores do local. Ainda estão guardadas estas caricaturas, que hoje dimensiono o imenso valor cultural.
Chegou à aldeia carioca trazendo apenas o desenho do rosto dela. Vovô não aprovou o casamento por diversos motivos. Ele não era da colônia libanesa, fato relevante na cabeça dele, não era estudante, nem comerciante. Era um "nada", concepção social da época, visto que ser desenhista na década de quarenta era próximo a parasita. Vítor, porém, era um rapaz apaixonado e persistente. Acho que sempre esteve à frente do seu tempo.
Quando comecei a me entender como gente, eu sabia que tinha um tio diferente e muito legal. Que ria sempre, gamadérrimo na mulher, paciente conosco na adolescência e que passava horas numa prancheta desenhando. Além de caricaturas e outros desenhos, ele fazia plantas de apartamentos, que os arquitetos formados assinavam por ele. Não era rico nem famoso, muito menos submisso ao "padrão" de homem bem estabelecido. Ganhava o suficiente para manter a pequena família (mulher e uma filha) sem luxo, mas sem sufoco. Seu supérfluo era dar flores para titia. Nossos presentes de aniversário sempre foram nossas caricaturas ou charge dos evidentes circulantes.
Quando indagado "o que ele era", respondia de forma convincente:
- Um homem feliz.
Foi meu companheiro na compra do primeiro LP dos Beatles. Foi meu ouvinte quando tomei meu primeiro chifre, me apoiou com muitos sorrisos quando afirmei que namorava o Steve McQuenn. Aguentou meu casamento com o Tchê Guevara, meus ciúmes doentios da mulher do George Harrison, minhas cartas sem retorno pro Al Pacino. Assisti ao choro dele ouvindo Pavarotti e descobri como é bom chorar de felicidade.
O grupo Chicago lançou Happy Man, no ano das bodas de prata deles. Ele não fez festa, apenas mandou tocar esta música bem debaixo da janela dela e afirmou que ele era o happy. Serenata maluca, afirmaram muitos. Serenata que eu adoraria ter tido, talvez por eu ser tão maluca quanto ela.
Queria ter sido apenas uma "happy woman"!
Linda partiu em 2000. Não consigo saber se ela avaliou o amor maravilhoso que ganhou deste homem contente.
Ele está com um mal (talvez Alzheimer), num diagnóstico ainda não diagnosticado. Esqueceu que ela se foi. Lembra da letra inteira de happy man e ainda canta baixinho, desenhando o rosto dela numa tela.

PS: Happy man/ Homem Feliz / Conjunto CHICAGO - 1974

Rosa Pena
www.rosapena.com

 

 

 

Rosangela Aparecida de Carvalho

 

 

VESTIDO DE AZUL
Rosangela Aparecida de Carvalho

 
Vesti a cor de seus olhos azuis ao dia
trajei com muita alegria
e fui esperar por ti.
Misto de amor e euforia
gosto sutil de magia
ansioso parado ali
a te esperar.
De repente vi que o céu
o azul escondia
e eu ainda estava ali.
O dia logo entardeceria
e meu coração baixinho murmuraria
palavras que em mim doía.
Quando por fim anoiteceria
percebi que, com o fim do dia
tu não estavas ali.
Assim meu coração escureceria
e eu só parado ali.

Rosangela Aparecida de Carvalho
São Joaquim da Barra - Brasil
 

 

 

Rosélia M G Martins

 

 

ONDE ESTÁS DEUS ?
Rosélia M G Martins

 
Onde estás DEUS da terra
Do mar da serra do ar
Da vida e da morte
Dos sonhos e das esperanças
Das alegrias e da harmonia
Onde estás DEUS que não consigo te enchergar
Os homens vivem para a guerra
E só pensam em matar
Onde estás DEUS
Que não me vens consolar
Não me dás a tua fé
Para eu não soçobrar
Onde estás DEUS
Do amor da esperança
Orvalhando os campos
Para dar beleza , vida cor para amar
Onde estás DEUS
Que não ouves as minhas preces
As minhas súplicas o meu desesperar
Que fizeste da vida nesta terra
Onde só há gente a vegetar
E outros tão pecadores
Vivem num mundo maior
Onde está aquele DEUS
Que em pequena
Me ensinaram a amar
A socorrer os necessitados
Amparar os abandonados
A fortalecer o corpo e a alma
Para construir um mundo melhor
Onde pairam as crianças alegres e felizes
Encanto das famílias, pais filhos , netos, avós
Que nos ensinavam contos de encantar
Onde está DEUS que não nos vens acudir
Não nos ajudas na dor
Não limpas as lágrimas do nosso carpir
E nos deixas viver sem amor
DEUS da vida humana da fauna da flora
Dos ventos do céu do universo
Porque não ajudas o Homem a perdoar
A lutar pele vida e vencer
Encorajar nas tristezas
E os encorajas a sentir o verbo AMAR?
DEUS da vida e da morte
Ensina o bom caminho
Para alcançar o destino da sorte
DEUS onde estás
Que não ouves o meu lamento
A minha dor a minha mágoa
Vê que dos meus olhos escorre água
Por ver este mundo ruir
Desfalecer desencantado
Sem fé no porvir

Vem oh DEUS da eternidade
Dar vida e esperança
No caminho da saudade
Vem oh DEUS do infinito
Semear a paz e a bonança
Para viver no mundo da verdade.

Obrigado Deus meu
DEUS da humanidade
Dá-nos a tua bênção do céu
Para vivermos com humildade

Rosélia M G Martins
PSA, 20 Fev 2009 19,35h
 

 

 

Rozelene Furtado de Lima

 

 

GOSTARIA DE SABER
Rozelene Furtado de Lima

 
Quantas vezes vi a lua nascer
Inúmeras vezes que vi o sol adormecer
Um colar de vezes que semeei flores em quantidade
Vezes demais que ofertei flores por amizade
Tantas vezes que salguei minhas lágrimas no mar
Poucas vezes que vi a madrugada chorar
Milhões de vezes que deitada na areia eu sonhei
Cansadas vezes que de tanto andar meus pés calejei
Outras vezes que corri com pés descalços por prazer
Tristes vezes que vi pássaros em gaiolas a sofrer
Lindas vezes que fiquei encantada ao vê-los soltos a gorjear
Nunca fiz a soma para avaliar
Quanta coisa que ainda não fiz e não calculei
Tantas coisas que ainda não sei
Não sei se tem anjos que acendem o luar
Se o sabiá tira as penas para se banhar
Se o sol tem cama para descansar
E se tem uma fêmea para amar
Nem sei se as estrelas atendem desejos
Também não sei quantos beijos
Ainda esperam na tua boca para me beijar

Rozelene Furtado de Lima
 
 

 

 

 

Livro de Visitas