FÉNIX

 

 

Alfredo dos Santos Mendes

 

 

MASCARADA
Alfredo dos Santos Mendes


Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.

Quadra de: António Aleixo
Glosada por: Alfredo Mendes

Andam nossos governantes,
Com cantilenas constantes,
Para ver se o povo dorme.
Há que nos pôr a dormir,
Não vamos nós descobrir,
Esta mascarada enorme!

Autêntico carnaval,
Em que a despesa final,
Em cima de nós desaba.
Mas é com esta folia,
E com muita fantasia,
Com que o mundo nos aldraba!

Dizem ter as soluções
P’ra que ordenados, pensões,
Tenham valor uniforme.
São cantigas de embalar,
Fazem o povo sonhar…
Dura enquanto o povo dorme!

O povo já ‘stá cansado!
Por ter sido espoliado,
Por gente que nos aldraba.
Tomem pois muita atenção,
Porque a vossa reinação,
Quando ele acordar, acaba.

Alfredo dos Santos Mendes
Lagos, 06/07/2013

 

 

 

Amilton Maciel Monteiro

 

 

AREIAS
Amilton Maciel Monteiro


Ó que saudades sinto quando a vejo
ao relembrar meus tempos de menino!
Ah, quem me dera dar ao meu destino
o que mais quero, meu maior desejo:

Voltar às plagas em que eu pequenino
já amava ouvir o canto sertanejo
de sabiás. E à noite ver lampejo
de pirilampos mil! E em sol a pino,

depois de cavalgar pelas campinas,
nadar em suas águas cristalinas;
jogar pião e, no pomar da tia,

tragar jabuticaba, ameixa e amora...
Pescar bem cedo, mal surgindo a aurora...
E, ao sono, agradecer, Ave Maria...

Amilton Maciel Monteiro

 

 

 

Ana Dias / Ana Ôdi

 

 

BICHOS R HOMENS
Ana Dias / Ana Ôdi


Há situações que nos remetem quase sempre para estabelecermos um paralelo entre os bichos e os homens. Lugares comuns, puros e simples. Nada têm de comum.
Na roda-viva das nossas emoções, não atentamos muitas vezes a pequenos indícios que torneariam muitas das nossas reacções imediatas, e muitas das situações que se geram, desnecessariamente.
Um animal responde ao apelo da natureza, mas reage, por instinto, mais racionalmente que o ser humano; o homem, sendo confrontado, reage como se estivesse sempre sobre um cacto cheio de espinhos; poderá reconsiderar, depois solicitar desculpas, até.
Contudo, os animais podem, por cópia do modelo humano mais próximo, absorver determinados comportamentos, mas ultrapassam sempre a capacidade humana de percepção de situações de crise, ou instabilidade.
Falando de homens e bichos, tomemo-los como items tipológicos. A variância não está excluída, obviamente. Mas não enveredemos por leques diversificados para o que se pretende defender.
Suponhamos que determinado indivíduo se sente mal, indisposto, ou com os seus medos à flor da pele. Outro qualquer humano, para além de não o “sentir”, ainda é capaz de acentuar todo esse mal-estar. Um animal pressente, “sente” e responde com ternura para atenuar, afastar, diluir tudo o que de ruim possa estar a acontecer ― e não tem, necessariamente, que ser um animal de estimação: é assim; esta transparência de alterações de comportamentos nos registos psico-somáticos do homem fluem, por osmose, para os animais.
Na cadeia vital, são considerados seres menores, não racionais.
Nos percursos que fazemos, costumamos dizer que quanto pior nos sentimos, quando mais precisamos de ajuda, mais nos “põem p’ra baixo”. Um animal requer e dá carinho, apoio, está presente ― o diapasão, por que pautamos a nossa vida de hábitos comuns, funciona e despoleta simbioses, veicula retemperos, sem necessidade de palavras.
Na sociedade hmana há que considerar duas etapas, que são fundamentais, e raramente funcionam a contento do fragilizado ― temos que falar do que nos sufoca, atordoa, magoa e faz sofrer; as respostas são, geralmente, “clichés” sem sentido, sem o “feed-back” desejado, ou uma palmadinha no ombro, um ósculo: circunstâncias ocas, vazias de sentido, e que, as mais das vezes, “nos põem p’ra baixo” como se de atitudes avessas se tratassem.
Somos os seres superiores deste círculo vital. Em quê?
No mundo global em que prescrevemos os nossos percursos e os registos das nossas atitudes, reacções, presunções, cada vez mais o homem se isola, envolto numa redoma ou concha, onde se sente protegido, mas quase sempre acompanhado de um ou mais animais de estimação.
Somos, cada vez mais, seres solitários, e a desagregação social vai-se aprofundando, recrudescendo a negação da sociabilização, o nosso carácter primordial e essencialmente gregário.
A solidão existe, cada vez mais patente e demonstrada pelas incapacidades e más realizações de cada um de nós.
Gritamos para o vácuo, e não temos retorno, não há eco. Só expectativas frustradas, infelizmente.

Ana Dias / Ana Ôdi
27/05/2013

 

 

 

Ana Isabel Rosa

 

 

O TEMPO
Ana Isabel Rosa



No Universo do Tempo
O Tempo leva Tempo a passar
Principalmente,
O Tempo que queremos deixar escapar…

O próprio Tempo…

É um aglomerado de arquivos
Que fixam-se,
Nos infindáveis filamentos
Da lembrança perdida…

Onde por vezes,
Somos sombras dentro do presente…
Quando o Tempo
Captura o Tempo a seu Tempo…

E neste andar desordenado
O Tempo escapa…

Será apenas imagem ilusória
Perdida nas margens transponíveis
De cada memória…

A vida
É demasiadamente curta
No Tempo que dura…

Mas, espalha uma verdade…

As alternativas não se esgotam
É preciso querer e acreditar
Que o amanhã será sempre um talvez
Para se tornar possibilidade…

Então,
É preciso saber descobrir a plenitude
De cada minuto que perdura…

Saber ser a soma completa
Nas horas que se abraça…

Saber agasalhar o segundo que falta
Enquanto o presente é entregue
A um Tempo que passa!…

Ana Isabel Rosa

 

 

 

Ana Paula Costa Brasil

 

 

CAMINHAR...
Ana Paula Costa Brasil


Acordar e... não te tocar.
Levantar e... não te ter.
Despertar e... não te sentir.
Abri os olhos e... não te olhar.
Pra que andar... se não tenho pra onde ir?
Pra que ir... se não tenho como chegar?
Tento caminhar... para algum lugar
mesmo não tendo como chegar;
mesmo não sabendo o que procurar,
saber o que devo fazer,
sem poder saber como fazer.
Para poder ir... para poder um dia
tentar chegar?!...
Caminhar... Para poder ir;
procurar onde fica o meu lugar e...
poder chegar,
para poder fazer.
Para acordar e... te tocar.
Levantar e... te ter.
Despertar e... te sentir.
Abrir os olhos e... te olhar...
e te amar...
e caminhar com teu olhar;
e andar com o teu sentir;
e voltar para te tocar!

Ana Paula Costa Brasil
Toronto - Canadá

 

 

 

Ana Wiesenberger

 

 

O AMOR É UM DUENDE BRINCALHÃO
Ana Wiesenberger


O amor é um duende brincalhão
E caprichoso
Que invade a ordem
Das nossas vidas
Vira do avesso todas as premissas
E transforma o tempo
Num fio torcido, singular
A fazer nascer estrelas e luar
Em pleno dia
Calor e frio ao mesmo tempo
Certeza e incerteza
Num só momento
Paz e alvoroço
No mesmo instante
Partida e chegada
Silêncio e explosão ensurdecedora
Nos nossos dias desatentos

O amor é luz
Mas também é trevas
É sorriso
Mas também é lágrima
É um nó que conforta
Mas também estrangula
É um princípio
Mas também é um fim

O amor é brisa doce
Mas também é tempestade fera
É clareira amena
Mas também é penhasco agreste
É alegria e desejo
Mas também dor e desilusão

Se não acontece
Deixa-nos sós no cinzento regular
Dos nossos quotidianos
Se vem e nos derruba
Deixa-nos lassos e ausentes
Como marionetas manietadas
Por mãos estranhas
Donas do nosso destino

O Amor não se explica
Sente-se

Ana Wiesenberger
19-02-2013

 

 

 

 

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