FÉNIX

 

 

Christinny Olivier

 

 

SAUDADE EM VERSOS TORTOS
Christinny Olivier


Ah... Essa minha saudade que não passa!
Penetra-me as veias tal qual heroína,
Hoje meus atos guia, quiça determina.
A saudade que vem, me cala e se expressa...
Em cada linha de meu semblante abatido.
Este aperto em meu peito... Saudade é teu nome!
Vulto que rodeia, sombra que me consome;
No rosto pálido os lábios descoloridos.
Falta-me a respiração... O grito abafado!
Que o ato de vez me liberte ou deprima,
A muito talvez, tenha me sufocado...
Na canção do silêncio, perdida e sem rima,
Liberto minh'alma e do pulso cortado...
Escorre a saudade, em minha última lágrima.

Christinny Olivier

 

 

 

Cibele Carvalho

 

 

A CASA ENTRE AS ÁRVORES
Cibele Carvalho


Cinco horas. O dia ainda não havia clareado e nós já estávamos saindo de casa.
Meu avô alugava um bangalô em Barão de Javari, distrito de Miguel Pereira, para passarmos os finais de semana. Viajávamos todos: avós, filhas, genros e netos, no trem que pegávamos na Central do Brasil.
Lembro que cruzávamos as ruas ainda escuras do bairro para chegar ao ponto do ônibus ou táxi que nos levaria até a estação do trem. Guardo desse trajeto uma estranha cena: uma casa com as portas abertas, onde um corpo estava sendo velado... Essa imagem nunca saiu da minha memória e sempre que vejo uma casa de portas abertas, tarde da noite, penso haver um velório...
A casa alugada ficava entre grandes eucaliptos e seu mobiliário era rústico, de madeira escura e almofadas de tecido estampado com flores. Depois do café da manhã, acompanhado de pão torrado na chama cujo cheiro não me sai da memória, os adultos sentavam nuns bancos feitos de troncos, localizados embaixo das frondosas árvores, enquanto as crianças brincavam por perto. A umidade do tempo fazia o delicioso aroma do eucalipto ficar mais acentuado. Pisávamos sobre um macio tapete de folhas em decomposição que cobria todo o terreno e catávamos umas pequenas sementes que chamávamos de carrapetas, porque pareciam piões, que ficavam espalhadas pelo chão.
Engraçado... tenho a impressão de que não sei tudo sobre aquela casa; faltam detalhes que o tempo levou ou que não reparei porque eu era pequena ainda, uns cinco anos, talvez. Mas as pessoas que poderiam esclarecê-los não estão mais presentes na minha vida, nesta vida... foram-se, como se foram as lembranças da casa.

Cibele Carvalho
RJ, 18/07/13

 

 

 

Claudio Poeta

 

 

FUSÃO
Claudio Poeta


A melhor ocupação para o tempo
Grande ou pequeno,
Qualquer que seja o enredo,
É sentir!
O grande argumento!
... A flor de prosseguir!

Basta selecionar,
Tentar evitar,
Os sentimentos negativos.
Todos tão abusivos.
Privilegiando assim,
Tudo para o que a alma
Possa dizer sim.
Tudo que nos leve
A estender a palma.
Tudo que nos queira leves.

Preservar particulares momentos,
Para saborear os eleitos batimentos,
Contribui enormemente para o equilíbrio.
Para a fluência sobre os escolhidos trilhos.
Aéreos ou terrestres.
Marítimos ou campestres.
Espaciais,
Siderais...!

A dor obriga-nos a focar
O que não pode mais ser cultivado.
Um caminho já conhecido
E ressequido.
Atrapalha-nos, em nosso dever de projetar.
Tenta nos manter diminuídos e acuados.
Obviamente,
Felizmente,
O oposto do que sonha pra nós a eternidade:
Nossa fusão com a luminosidade.

Claudio Poeta

Membro de:
Academia Niteroiense de Belas Artes Letras e Ciências
Cadeira 47 - Oswald de Andrade
Academia Nacional de Letras do Portal do Poeta Brasileiro
Cadeira 17 - Claudio Poeta
Academia de Letras de Goiás
Prêmio Literarte de Cultura 2013
Prêmio Destaque Poético 2013 - pela Academia de Artes e Letras de Fortaleza

 

 

 

Claudio Roberto Livonius Feijó

 

 

ESTA NOITE
Claudio Roberto Livonius Feijó


Quem deixou a porta aberta?
Quem me deixou para fora?
Eu estou dobrado,
não quebrado.
De joelhos estou esperando
que alguém entre na minha vida.
Todas as palavras que eu disse;
todos os textos que eu fiz...
Só estou esperando
que alguém me segure nesta noite.

Claudio Roberto Livonius Feijó
Porto Alegre - RS

 

 

 

Cleidiner Ventura

 

 

SONHOS
Cleidiner Ventura


De
dia
ardo.

De
tarde,
parto

para um
porto qualquer,

no cais,
no
caos,
no
fim do mundo!

A
noite
lua
chega.

Lua cheia
. de graça
. de luz.

Não ardo,
não tardo
nem parto.

Espreito
a
lua
somente,

sorrateiramente
pelas frestas
de minh'alma,

tão acanhada
tão vazia.

Tão tarde
faz-se a noite.

Lua cheia,
lua clara
Santa Sara,

em que mar
perderam-se
meus sonhos,

tão pequenos,
tão meus,
tão necessários!?

Cleidiner Ventura
http://cleidinerpoemas.com.br

 

 

 

Clóvis Campêlo

 

 

CHUVAS DE AGOSTO
Clóvis Campêlo


Para nós, recifenses, inverno é sempre sinônimo de chuva. E o Recife, cidade já tão privilegiada no seu convívio com as águas, torna-se ainda mais úmida. Particularmente, nunca gostei desse tempo de chuva, embora o saiba necessário. É tudo frio e úmido ao deitar e tudo frio e úmido ao levantar.
A quem diga que nós, recifenses, na realidade, não sabemos o que seja o frio. Podem ter razão. Mas, para nós, acostumados a uma temperatura média de 26º graus, tudo o que não seja calor será frio. E o frio é a negação do azul intenso da qual a cidade se reveste no verão. É a negação dos nossos verdes mares e da nossa morenidade curtida sob o sol da alta estação. Sob a chuva, no inverno, o Recife perde as suas cores e a sua alegria. Torna-se cinzenta, plúmbea, depressiva.
E eu, que nunca me deixei seduzir pelo sentimento do mundo e me sinto como um coqueiro encravado nas areias mornas da cidade, necessito do sol, do sal, do azul do céu para oxigenar as células e elaborar a fotossíntese da vida. O inverno chuvoso do Recife me deprime.
Este ano, as chuvas começaram cedo, em abril, e ainda não pararam. No calendário da minha infância, vivida na praia do Pina, agosto sempre foi o mês do ventos. Era em agosto que a chuvas começavam a declinar, levadas pelos ventos intensos do mês. Era o período de empinar papagaios e pipas nas areias ainda úmidas da praia, aguardando a chegada do verão em setembro. Naquele tempo, agosto era o mês da transição, que ainda sofria com o desbotamento invernoso. Agosto ia se colorindo aos poucos.
E quando setembro chegava, retornavam a alegria, todas as cores, todas as vozes, todos os movimentos. Restaurava-se definitivamente o verão, o calor. Setembro nos trazia a praia e a vida de volta.
Hoje, agosto ainda é chuva e falta de cores. Dizem que isso se deve ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, ao fenômeno do El Niño. Podem ter razão. Afinal, tudo muda ao longo do tempo e que sou eu para duvidar da sabedoria dos homens da ciência.
Dou-me ao direito, porém, como criança que fui, de discordar desse menino levado que teima em jogar para os céus as águas salgadas do oceano e fazer com que as chuvas se prolonguem além do necessário.
Não sabe ele que setembro se aproxima e que nós, recifenses, ansiamos pelo retorno do verão com a sua alegria, suas cores, vozes, movimentos?
Não sabe que ele que precisamos do sol, do sal e do azul do céu para elaborarmos a fotossíntese da vida?
Que venha setembro, restaurando a rotina do verão e trazendo o sol de volta!
O povo tropical do Recife agradece!

Clóvis Campêlo

http://cloviscampelo.blogspot.pt/

 

 

 

 

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