FÉNIX

 

 

Diana Camargo

 

 

DESENCANTO
Diana Camargo


Desencantei-me das flores
Quando vi que tantos espinhos
Nos jardins espalhados
Sufocavam-lhes a beleza e as cores...

Desencantei-me das crianças
Quando vi que a violência
Impondo-lhes uma arma cruel
Apagava-lhes o sorriso e a inocência...

Desencantei-me dos jovens
Das lutas , das suas vivências
Quando vi que uma pedra
Esmagava-lhes a essência...

Desencantei-me do amor
Das juras e palavras mais doces...
Quando sinto que nada é eterno
E no tempo se perde o valor...

Enfim, estou na verdade
Pela vida, assim...
Não sei até quando
Desencantada de mim...

Diana Camargo
São Sepé - RS

 

 

 

Dimythryus

 

 

TRENS DE GUERREIROS
Dimythryus


Os braços dos relógios se cruzam,
E uma turba de castelos e ruínas
Sonhadoras disparam em busca
De seu ganha pão.
Os braços transformam-se
Em pernas que correm, fogem,
Somem junto à ansiedade
E a impaciência da turba.
Um raio prateado rasga a neblina.
É o trem, uma espécie de óvulo
Que em instantes será penetrado, Invadido,
Por espermas guerreiros troianos, Espartanos ,
Que suam em busca de seus devaneios.
Arrochados os guerreiros miseráveis,
Sentem suas vidas fugirem adentre
As gretas de seus dedos,
Sentem o ardor da vida real.
O trem, está réplica humana,
Vai e vem, fingindo não ver,
Olhando sem ver seu triste destino.

Dimythryus

 

 

 

Dioni F. Virtuoso

 

 

FANTASIAS...
Dioni F. Virtuoso


Vou despindo-me lentamente,
Ao som da música envolvente
E teus olhos, refletem o fogo ardente,
Das velas na gostosa penumbra...

Mergulho contigo no mundo do prazer,
Sensação vivida sem censuras.
Tuas mãos percorrendo meu ser
E, de tua boca, sussurros, loucuras...

Nossos corpos, enlouquecidos, cavalgam,
Vivendo essa história verdadeira.
Submersos na quente espuma, deliram.
Liberam fantasias em nossa banheira...

Dioni F. Virtuoso
Registro Nº:T3148318

 

 

 

Diva Helena da Silva Fontana

 

 

DESPEDIDA...
Diva Helena da Silva Fontana


Não é fácil decidir os caminhos dos lugares distantes,
Que separam as vidas;
Apagam as lembranças,
Acendendo a saudade.
E são amigos,
E são amores,
Que ficam no aceno,
Na lágrima que rola pelo rosto.
Você desce pelo rio,
As paisagens mudam...
Você vai sem partir,
E fica cada vez que vai mais longe.
Leva com você as pessoas,
Mas as pessoas continuam sem se mover.
Na monotonia do vento que sopra,
Mal se consegue ouvir os gritos de adeus.
É sempre assim, em todas as despedidas.
Não é fácil decidir os caminhos dos lugares distantes,
Mas quando você precisa partir,
Leva com você as lembranças,
Dos amigos, dos amores...
Então a dor da saudade é inevitável!

Diva Helena da Silva Fontana
Restinga Sêca - RS

 

 

 

Donzilia Martins

 

 

A MINHA E.Q. M. (Experiência de Quase Morte)
Donzilia Martins


No seio da mulher há 4 meses que acontecera o milagre da vida.
Corria o ano de 1967. Casara em 29/6/067.
Após alguns meses de grande e puro amor, este se transformara em flor gerando um novo ser.
Era Abril. Mês do despertar da primavera, das flores, da alegria, dos dias de sol e ar puro, leve e doce a perfumar os campos.
A jovem mãe passara mal esses primeiros meses de gestação. Enjoava todo o alimento. Tinha uma forte e constante azia a queimar-lhe as entranhas. O seu estomago, mesmo vazio, rejeitava qualquer alimento ou suco que o forrasse.
Assim, fragilizada e débil, sentia-se fraca e doente. O que a animava era o pequeno ser que trazia no ventre.
Foi então que os futuros padrinhos da bebé, se lembraram dum pequeno festim para lhe erguer o ânimo. Podia ser que, sendo o ambiente diferente e petiscando algo gostoso, o corpo aceitasse e digerisse.
Havia perto, ao cimo das famosas curvas de Murça, no lugar do Pópulo um restaurante rústico, tipicamente transmontano, cuja especialidade e única, era cabrito assado numa grelha em cima das brasas, e batatas fritas num tarrelo de barro colocado numa trempe também no fogo do chão e, cardo verde. Aquele petisco era de comer e chorar por mais. O caldo verde com chouriço caseiro era uma delícia.
Com certeza que tão delicioso banquete o corpo não iria vomitar. O edifício, ao nível da estrada, constava apenas de uma sala pequena, quadrada, com uma porta de entrada, outra para a cozinha, outra para um único quarto e outra ainda para a casa de banho.
Assim, numa calma e fresca tarde, para servir de merenda e ceia, eles, os quatro, aí vão: Mulher, marido, e os futuros padrinho e madrinha.
O local aprazível situava-se à face da estrada nacional que ligava o litoral ao interior, mais propriamente Porto, Vila Real, Bragança. Em tempos era aqui que se cruzavam os caminhos de Santiago que ligavam Terras de Panoias a Braga. A poucas centenas de metros há o famoso soldado lusitano, no meio do terreiro da aldeia do Cadaval, símbolo da luta contra os romanos, a estrada e ponte romana, tantas vezes calcorreada pela mulher ao vir da escola da aldeia de Vale de Cunho onde lecionava, para Murça, sua terra natal e onde residia.
Na vila há também, a lembrar esses tempos pré-históricos, o monumento megalítico da tão famosa Porca De Murça no centro do jardim.
O “Ribeiro Do Pópulo” nome do restaurante, ficava pois na estrada principal.
À entrada uma esplanada coberta de videiras de uvas de mesa dava um tom de frescura, perfumando de moscatel o romântico local.
Dentro, como referido, uma única sala com quatro mesas quadradas de 4 lugares.
Da porta que se abria para a cozinha, com lareira de laje de pedra no chão, viam-se preparar os acepipes nas crepitantes brasas de castanheiro que por ali abundavam.
As outras duas portas, uma para um quarto e outra para a casa de banho, permaneciam fechadas.
Tudo simples, de paredes lisas, brancas, sobrado de madeira e uma única janela que refletia a luz e a sombra dos cachos de uvas pendurados, mas ainda verdes.
Lugar idílico para os dois jovens casais. Os primeiros, casados há pouco mais de 8 meses, viviam ainda o sonho dum verdadeiro e puro amor agora em fruto, concebido por alturas do natal; os segundos, ela anã, ele um homem elegante, desejando ela que o batizado da bebé fosse um elo de ligação entre eles.
Servida a opípara refeição, todos se banqueteavam em alegre convívio. O futuro compadre incitava a veia humorista do futuro pai para que contasse anedotas vividas, ora no percurso dos estudos, enquanto estudante e de que era vezeiro em cenas delirantes, ora passadas no longínquo Timor donde regressara há cerca de um ano duma comissão de serviço de quase 3 anos.
A jovem mãe comia e ria entusiasmada, quase esquecida dos mortíferos 4 meses que passara com tanto enjoo e tão pouco alimento porque o seu corpo o rejeitava.
O cabrito tostadinho na brasa e o cheiro apetitoso, mais parecia o manjar dos deuses, o maná que Deus enviara do paraíso para saciá-la.
Na panela de ferro de três pés fervia o caldo verde, verdinho, sem tampa, com a chouriça caseira a boiar. As batatas, estaladiças, fritas no pote de barro, tudo regado a bom maduro caseiro, alegrava o grupo dos quatro, dando vida a qualquer corpo moribundo.
Foi assim, no meio desta alegria pura e esfusiante, que algo de trágico aconteceu.
No meio da gargalhada da mãe que soava livre e doce, uma indisposição lhe subiu do ventre ao peito, prostrando-a.
Sentiu-se desmaiar. Lembra apenas os braços másculos do marido a segurá-la antes de cair ao chão. Tudo o mais foi evasão e sonho.
Sentiu-se subir, leve, muito leve, mais leve que uma pluma soprada pela brisa, devagarinho, muito devagarinho!
Parou. Lá em cima, a cerca de cem metros de altura, era o Paraíso!
O azul, suave e cristalino, vestia luz e véus transparentes de rendados brancos, ténues, vaporosos que se diluíam na claridade das asas de anjos sem rosto, muito leves a boiarem por ali. Indescritível beleza! Só paz, ternura, doçura, bem-estar. Cor sem cor mas que tinha o mais belo tom do céu. Nem vozes, nem músicas, nem escuro, nem tuneis, nem dor, nem tristeza. Apenas uma candura, uma beleza intraduzível, uma luminosidade sem contornos, num espaço vazio, solto, livre, puro, mágico, perfumado, doce, ameno, num movimento de tranquilidade de seres transparentes com ténues asas esvoaçantes. Era a paz.
A serenidade vestia pureza, beleza, sedução, num encanto tal, que apetecia ficar ali, pairando para sempre. Milagre do belo, da arte, da poesia, da luz, da leveza, da transparência, do amor, da paz. Quanto quisera ficar ali eternamente.
Porém tudo o que é demasiado belo e doce é efémero neste mundo.
Sentiu que aquele lugar tão cristalizante e belo, demasiado maravilhoso, não era o seu.
Assim, lentamente, como havia subido, foi descendo, descendo, como quem regressa ao seio do coração.
Pareceu-lhe sentir um leve baque.
Abriu os olhos! Sorriu. Sabe que sorriu. Estranho!
Mais estranho ainda aquele desmaio, aquele sonho, aquele mundo tão mágico e belo, toda aquela beleza, aquele encantamento! Aquele azul meio rosado! Aquela Paz!
- “Tiveste um desmaio enorme, custaste a voltar a ti” – disseram-lhe.
Ela acreditou, serenando.
Pálida, muito pálida ainda, levantou-se do leito onde jazia e para onde fora levada.
Tinha sido a coisa mais linda da sua vida! Uma experiencia inarrável.
Como desejava ficar lá para sempre. Foi tão breve o tempo!

Muito tempo depois passou. O episódio ficou-lhe vincado na alma, mas ia-se diluindo.
No seu coração ficara bem nítido aquele momento, aquele desmaio, aquele corte entre o tempo e o espaço dum corpo sem peso, imaterial, subindo, aquela paz.
Muitas vezes desejara adormecer e subir de novo àquele lugar onde fora tão feliz, pairar, olhar as silhuetas etéreas dos anjos brancos, para encher o seu peito de luz e beber a paz, reabastecer a força, a energia, a coragem que tantas vezes lhe falta, fortalecer o seu espirito para sentir a serenidade quando a vida lhe magoa, para tentar dentre aqueles seres de luzes brancas e transparentes reconhecer e visualizar alguns rostos queridos, em especial o da que na terra a acarinhou no colo tantas vezes.
Quem sabe se agora, que vive no céu, esse rosto lhe sorrisse, lhe desse de novo colo, a afagasse como uma flor, com um simples olhar. Ficaria contente por saber da jornada, do caminho percorrido, do sonho das duas, alcançado.
Mas não. Nunca mais se repetiu aquele encanto, aquela doce magia, que a transportara à beleza do infinito.
Raros são os momentos de poesia que se repetem na vida.

Muitos mais anos se passaram.
Amante dos livros e da leitura, um dia leu nas “Seleções”casos idênticos, típicos, “Experiencias de Quase Morte”.
Foi aí que despertou do virtual para o real. Afinal ela subira porque a sua alma se despegara do seu corpo por instantes. Foram momentos soltos, libertos da prisão corpórea. A alma, espirito, havia subido a caminho do seu lugar donde um dia veio para viver num corpo e lhe dar o sopro da vida.
Ali, fez uma paragem, pensando ter chegado a hora do fim.
Todavia, pairando, o Criador deve-lhe ter dito que ainda não era o tempo de entrar e ficar no céu; que a cruz ainda mal havia começado, era preciso carrega-la até ao fim; que entre procissões, festas, alegrias, dores, cansaços, encantos e desencantos, teria ainda de fazer um longo caminho, de construir espaços, lugares, pontes, erguer nos ombros a cruz e a palma, até chegar ao calvário onde todas as coisas acontecem.
Que o perfume será vermelho de flor e não de sangue; Que os cravos serão luz e vida pelas flores semeadas por ela na terra.
Então, ordenou-lhe que descesse, vivesse, criasse, encantasse, amasse, florisse, cantasse e chorasse mares de ternura em prantos que são sol e vida e, sobretudo, recordasse aquele mundo imaginário mas tão real onde foi tão feliz.
Assim está fazendo agora.
No seu 1º livro de poesia editado em 1991 conta e canta em verso, essa estória linda, essa vivência, que a transportou para além da vida a que deu o título:
“Um dia subi ao céu” e termina assim:
“Que bom foi ter este sonho
Tão doce, que Deus me deu.
Quando chegar a minha hora
Peço-Te: Seja assim a minha subida p’ro céu.”

Sente-se privilegiada por Deus lhe ter dado a honra de lhe mostrar o outro lado de lá com toda aquela beleza, serenidade e paz.
Essa experiencia de Quase morte fez dela uma Mulher diferente: mais humana, mais lutadora, mais persistente, uma pessoa melhor. Por isso lhe canta cada dia:

“OBRIGADA SENHOR”
Obrigada Senhor pela vida, pelo caminho, pela subida, pela luta, pela paz, pela alegria, pelo amor, pelas sementes lançadas à minha terra, pelas dores, pela agonia, pelos encantos e desencantos deste dia, pela vida, por esta paz que me cerca aqui, pelas estrelas, pelo luar, pelos barcos que da minha janela vejo cintilar, pelos montes onde nasci, e por este jardim azul da minha praia do mar.

Póvoa de Varzim, 6 de Agosto de 2013.
Donzilia Martins

 

 

 

Dyrce Pinto Machado

 

 

SAUDADE, AMOR E PAZ
Dyrce Pinto Machado


Num recanto desta praça,
sobre um canteiro verdinho,
singelas flores, com graça,
protegem este cantinho.
O manacá trás nas cores
roxo, branco e lilás,
o sentimento das flores,
AMOR, SAUDADE E PAZ.

De mãos dadas, de mansinho,
trocando os seus segredos,
os manacás com carinho,
abraçam os arvoredos.
Com sainhas vaporosas
e seus matizes naturais,
dançarinas graciosas
das caixinhas musicais.

Com carinho e amizade,
deu à praça o seu Autor,
muito AMOR, PAZ E SAUDADE
matizadas em cada flor.
Se o homem cuidar da terra,
com todo amor e proteção,
nos campos, em vez de guerra,
manacás florescerão.

Homem, vento, passarinhos,
semeadores iguais,
espalhem pelos caminhos,
sementes de manacás.
E nos canteiros floridos,
veremos numa só flor,
três sentimentos unidos:
SAUDADE, PAZ E AMOR!

Dyrce Pinto Machado

 

 

 

 

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