FÉNIX

 

 

Fernando Spanghero

 

 

 SILÊNCIO
Fernando Spanghero


Se faz madrugada, estou na varanda.
Não fosse o constante baque da onda,
Seria tudo um silencio imenso.
Interessante como os silêncios tem tamanhos !
E, por mais que pareçam estranhos,
Trazendo consigo um vazio intenso,
A mansidão que os ronda,
É a calma que o tempo demanda

Ali, adiante, um pio quebra a calma.
Um pequeno roedor, sucumbe à rapina .
Haverá temor maior dentro d’alma,
Que ser caça, toda vida, como sina !
Logo, tudo volta à normalidade.
Mas, o silêncio já não é igual.
Foi-se apequenando, perdendo intensidade
E a chegada do dia pode ser o sinal.

Ocupando este grande vazio,
Preenchendo todo o espaço,
Invadindo cada pedaço,
O sol, ainda frio,
Traz consigo as vozes do dia.
E assim, de novo inicia,
A quebra do silencio gritante,
Enquanto madrugada, reinante !

Murmúrios, vozes, os sons mais diversos,
Trazendo em seu bojo, dispersos,
Vários gritos contidos, calados.
Por vezes até adormecidos.
São os silêncios lá dentro guardados,
De todos que são esquecidos.
É o silencio do bom quem se cala
É o silencio do oprimido, latente.
É o silencio da gente que fala,
E não diz aquilo que sente.
Pois, ao preferir não dizer
Há quem o faça como norma
Para assim manter a forma
De conseguir, prosseguindo viver.

Após o processo crescente,
Os sons então, se reduzem.
E, tão logo seja o sol poente,
Aos poucos, devagar, nos conduzem,
Ao imenso vazio que se repete
E enche à todos de agonia
Eis que a noite, ao chegar, nos promete,
Novamente com sua nostalgia
A mesma sensação conflitante
Que por cada instante
Nos faz sentir de verdade
Reféns da nossa liberdade.

E, a noite chegando mansa,
Nos traz de volta ao abrigo,
Enquanto tudo descansa
Os conflitos que traz consigo,
Repetem de forma constante
Os litígios cá dentro presente,
Que mesmo estando distante
Não saem de dentro da gente.

Fernando Spanghero
2010

 

 

 

Floriano Martins

 

 

RELATO DUVIDOSO DO QUE SE PASSOU CERTO DIA DO QUAL NINGUÉM RECORDA UMA SÓ PALAVRA
Floriano Martins


A história foi toda escrita ao contrário.
Só assim resultaria permanentemente desacreditada.
O tempo se arrasta como um símbolo perdido.
Um pássaro aplicado à linguagem tentando descobrir uma função para o excesso de aspas.
Púlpitos são comprados em brechós.
A memória jamais deixou de ser abundante e perversa, como uma escada largada na garagem.
Aos que não vivem sem um oráculo, consultem a escada, consultem os brechós.
Há uma longa distância a atravessar entre o que vemos e o que não conseguimos tocar.
Querem mesmo saber o que houve naquele dia?
Tudo parecia despertar deslizando na matéria de nossa percepção.
As dádivas da perda se associando às lágrimas como um dragão dominado pela assimilação demoníaca.
Como nunca, eu desejei ser o abismo do mundo.
O que vi foi a minha filha expirada em mim, a minha vida tomada como uma alusão volátil, um rio de sangue e mais nada.
A eternidade nunca faz parte da cena.
A vida mói o espírito, o princípio e até mesmo os anjos não adaptados.
Eu teria me desfeito em sangue por ela.
Deus algum saberá até onde eu fui.
Nem importará sabê-lo, pois não importa o mais implacável de todos os destinos.
A minha filha se foi dentro de mim, consagrada ao vazio como uma espécie perdida.
Os dias felizes são tangíveis.

Floriano Martins
Fortaleza-Brasil
www.revista.agulha.nom.br
http://agulhafloriano.wix.com/florianomartins

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

 

 

O  ENCONTRO – A CHUVA E O NU CORPO DELA
Francisco Luís Fontinha


Eu deixo a conversa fluir... como a água da chuva a cair sobre o teu nu corpo, saboreando as partículas de desejo que descem das nuvens..., ouvem-se as bolhas de sabão a cair nas tuas costas, ouvem-se as sílabas mergulhadas nos teus lábios coloridos, e aos poucos desces pelas minhas mãos como sandálias envenenadas por uma calçada íngreme, e ao fundo, o rio, o Tejo, ele que te espera, e te acaricia entre as medusas de olhos castanhos, sinto-te dentro de mim, e sei, sei que amanhã não estarás na minha cama...
Vamos juntos... enrolados como duas serpentes envenenadas pelo sémen do amanhecer... e lá fora uma maçã acaba de tombar sobre os teus seios, afago-os e mordo-os com os meus finos dedos, e sabes que penetrarei em ti como se fosses um livro de poemas dentro da algibeira do espelho encarnado que acorda antes de acordar o teu orgasmo, é tarde, o relógio da sala cansou-se de ouvir-nos em latidos estranhos que atravessam as paredes de gesso e ripa, o tecto olha-nos, e inveja-te, porque permanecerás eternamente nas suas mãos, como um candeeiro suspenso e que ilumina a noite derretida em pura seda como lençóis sobre o teu corpo de areia, é tarde, lá fora dormem os homens e as mulheres, nós, nós permanecemos eternamente acordados, e procuramos entre os estilhaços dos líquidos sobejantes e adormecidos sobre a cama a saudade, e os beijos,
É tarde, para ti, quase que dormes, olho-te como se fosse o tecto, e vista de cima, tu, pareces um jardim com flores em papel... que voam quando tocas no meu peito, e fincas os lábios ficando entre eles... uma pétala de orvalho,
Estás loucos, oiço-te,
Louco porque a poesia derrete-se como a manteiga sobre os teus seios, louco porque mergulhas na chuva diluída em pequenas lâminas de fogo, tu, tu ardes como um livro depois de lido, folheado, manuseado cuidadosamente, e o papel da tua pele cola-se-me como uma borboleta desesperada depois da tempestade, oiço-te
Estás louco,
Louco porque inventaram o amor, louco porque inventaram o desejo e os jardins junto ao Tejo, e louco, louco porque oiço os uivos teus beijos de encontro à prateleira onde moram os livros de António Lobo Antunes, e louco
Estás louco,
E loucos, loucos barcos em gaivotas saciando o cio nas noites que atravessam o Tejo, e do outro lado, os edifícios em esqueletos vadios, que correm e comem,
Meninos, meninas,
Debaixo da tenda do circo que aportou por aquelas bandas, o vento dá-lhes força nas velas e começam em corridas vagarosas como palhaços velhos, e de bengala, e sorrisos nos seus rostos
Meninos, meninas,
Procurando a fome nos vultos zumbis da avenida adormecida, debaixo da tenda do circo, e todos os sonhos realizáveis... O encontro – A chuva e o nu corpo dela.

Francisco Luís Fontinha
Alijó - Portugal
http://cachimbodeagua.blogs.sapo.ao/

 

 

 

Francisco Mellão Laraya

 

 

A FÁBULA DA ROSA
Francisco Mellão Laraya


Fazia cinco dias que havia dado uma rosa à Maura, e ela a colocara no solitário, em cima da mesa. O botão desabrochara, e nada melhor que falar em mudanças, esforços, sacrifícios, coisas que mudamos em nós por causa de alguém.
Com o desabrochar da rosa, as pétalas brilhavam, pois o sol refletia nelas, muitas vezes de forma translúcida, como o expor-se, o abrir-se para alguém, lógico que como a flor, isto não é sem esforços, sem uma vontade, uma iniciativa, um querer, enfim todo um ritual mágico que comanda o espetáculo de se expor, de serem mais plenamente a si mesmo, sem medos, temores, ilusões ou mesmo receios.
Ainda não era a hora de falar sobre tudo isto, afinal ela, a rosa, estava ali, dando um espetáculo para nós, que humildemente víamos o seu despir-se com toda a glória, utilizando os raios de sol como veste vestimenta, brilho, na maior simplicidade possível do mundo. E por ser tão simples e tão única, era bela, fascinante... Parecia que o falar, o comentar o espetáculo no meio deste, fazia com que parte do fascínio se perderia, como se cada minuto fosse precioso ao admirar o maravilhoso ato da rosa desabrochar.
E mais um dia havia ido!
E a rosa permanecia impune na sua grandiosidade irradiando a beleza dos seus atos.
Finalmente ela não estava lá, o sonho de vê-la mudar-se todo dia, e a realidade da beleza deste ato: se foram. Mas, guardávamos a lembrança de todo o ocorrido, como o relacionamento vivido entre um homem e uma mulher.
Estava na hora de pensar sobre isto, sobre os momentos que se foram, sobre a realidade do passado, sobre as lembranças desta realidade para traçarmos uma reta para o infinito. Era hora de dizer das nossas desavenças, de nossos acertos e erros, de ter bom senso a realidade presente, procurando lançar-nos para o infinito desconhecido do tempo, solidificando o relacionamento de dois.
Era hora de sermos nós mesmos, mais plenamente indivíduos que sempre fomos, procuramos e queremos ser. Tinha-se de respeitar o outro, para que os espinhos da rosa não machucassem demais àquele que a colhe no interior do outro.
Foi nesta hora que...
Cada estória termina de uma forma, pois a fábula é dinâmica e dialética, depende de dois, o escritor imagina, cria e procura dar a forma. Mas a forma que se cria é a essência de algo maior, que o escritor e os personagens desta estória.

Francisco Mellão Laraya

 

 

 

Gabriel Rocha da Silva

 

 

REPAGINANDO A VIDA
Gabriel Rocha da Silva


Às vezes, precisamos
repaginar a vida
para alcançarmos
paz interior e paz familiar.
O importante é percebermos
que temos que mudar.
Assim, evitaremos tristezas
e desencantos.
Paz: consciência
de nossas responsabilidades
e compromissos.

Gabriel Rocha da Silva
Porto Alegre - RS

 

 

 

Gabriela Fernandes de Freitas

 

 

MEU TEMPO DE CRIANÇA
Gabriela Fernandes de Freitas


Quando pequena eu era uma
menina impossível.
Lembro-me de quando subia
nos armários e pulava na escada.
Tenho saudade
do meu tempo de criança.

Hoje, as crianças estão mais ligadas
em eletrônicos que em brincadeiras
nas ruas ou nos jogos de tabuleiros.
Eu adorava correr, pular,
cantar e ir aos parques.

Gabriela Fernandes de Freitas
Porto Alegre - RS

 

 

 

 

Livro de Visitas