FÉNIX

 

 

Izabella Muraro de Freitas

 

 

SOU POESIA
Izabella Muraro de Freitas


Sou letra, palavra, frase...
Sou rima, estrofe, verso...
Sou uma construção sem base...
Uma pessoa vivendo em seu universo...

Letra mal escrita...
Palavra em outra via...
Frase não dita...
Seria eu, realmente a poesia?

Sou letra, palavra, frase...
Sou rima, estrofe, verso...
Sou construção sem base...
Criadora de seu próprio universo...

Rima perdida...
Estrofe pulada...
Um verso da vida,
para a pessoa amada...

Apenas um ser que cria...
Seria eu, esta apaixonada,
simplesmente a poesia?

Izabella Muraro de Freitas
Porto Alegre - RS

 

 

 

J.F.Marques / Zéferro

 

 

CATADOR DE LIXO
J.F.Marques / Zéferro

“Aut insanit Home, aut Versus facit”


Não conheço quem mereça
Mais diploma de valor
Que o bravo catador
Que não me sai da cabeça
Para que a ele ofereça
O meu canto de elegia
Pra louvar a valentia
Dessa gente esquecida
Que escolheu não ser bandida
E moureja noite e dia

Por ser um trabalhador
É por todos desprezado
À miseria relegado
Curtindo sozinho a dor
De não ter nenhum valor
Para os “Direitos Humanos”
Essa corja de fulanos
Que aos bandidos badala
Para o honesto cala
Desprezado qual cabano

Dos restos ele depende
Pra sustentar a família
Na miserável vigília
De quem a honra defende
E o direito pretende
De também ser cidadão
Mas ninguém lhe dá a mão!
Como eu fico emocionado
Ao ver um homem curvado
Pra não se tornar ladrão!

A miséria que ele ganha
Da sua luta inglória
Deve ir para a história
Da pátria que arrebanha
Com a mais ferina sanha
O suor de quem moureja
E se esfalfa na peleja
Para ganhar seu salário
Enquanto o salafrário
Na mordomia viceja!

Ao bandido assassino
Não falta casa e comida
Custando sua guarida
O que falta pro menino
Que não merece o destino
De viver abandonado
Enquanto o seu pai, coitado,
Perambula pelas ruas
Catando com as mãos nuas
O restolho rejeitado

Acorda sociedade
Não se pode premiar
Quem vive de assassinar
Espalhando a maldade
Com rictus de crueldade
Enquanto o pobre coitado
Peleja desesperado
Pra ganhar com seu labor
A este sim o valor
Do honesto seja dado!

E para ti catador
Eu dedico o meu canto
Os meus olhos vertem pranto
Meu peito infla de amor
Pois seja lá quando for
Um dia terás justiça
Na tua sofrida liça
Pois tu és um homem reto
Teu exemplo é direto
Tua saga é castiça!

J.F.Marques / Zéferro

 

 

 

Jandyra Adami

 

 

UM ANJO APARECEU
Jandyra Adami


E aquele moço ia caminhando pela floresta a esmo,
sem rumo, como se quisesse fugir de algo ou de alguém.
De repente, tropeçou em alguma coisa que lhe chamou a atenção.
Era uma menininha, semi adormecida, que abriu os olhos
e, ainda assustada perguntou: -O senhor que vai me levar?
-Levar pra onde, minha querida?
- Para algum lugar onde eu possa morar, comer e dormir.
- Como assim garota?
- É que meu pai me deixou aqui, no meio da mata
e disse que, se eu tivesse sorte, um anjo viria me buscar...
Se não tivesse, ficaria aqui para sempre, até morrer
de fome ou um bicho me comer.
- Seu pai fez isto com você?
- Sim...Meu pai é muito bravo. Ele bebe, fica nervoso,
bate em todos lá em casa. Minha mãe, coitada,
doente, só faz chorar... Quando ela vai ajudar um filho
ele bate mais nela. O senhor é o anjo?
-Não minha bonequinha, eu não sou um anjo.
Talvez seja, não sei. Se Deus me colocou em seu caminho
pode ser que eu venha a ser o seu Anjo da Guarda.
-O que é Anjo da Guarda moço?
-É um...como dizer? Uma espécie de santo,
uns santos pequeninos, que têm enormes asas brancas
e moram no céu, junto a Deus...
Para cada pessoa Deus indica um Anjo da Guarda para que vigie,
tome conta, não deixe que nada de mal lhe aconteça.
-Mas então, onde está o meu Anjo da Guarda que me deixou
sozinha neste mato e que deixou meu pai ir embora sem me levar?
- As vezes, minha menina, um anjo lá do céu, finge que está dormindo
para dar oportunidade aos homens, aqui na terra, de fazerem o bem,
ajudar alguém. Como pode ver, seu Anjo da Guarda estava olhando por você
e me fez passar por este caminho que não é o meu, a fim de encontrá-la.
- Como é o seu nome? - Eu me chamo Nanda e o senhor?
- Meu nome é José Carlos, mas todos me chamam de Zezé, desde pequeno.
Sabe Nanda, eu estava muito triste e vim andar por aqui,
sem saber o que fazer ou mesmo se voltaria para casa.
Minha mulher está muito triste, brigou até com Deus.
-Puxa!! Brigar com Deus é pecado, não é?
-É um pecado muito feio. Mas ela está desesperada porque
acha que foi Deus quem levou a nossa filha embora, para o céu.
Nossa filha ficou doente e, em pouco tempo nos deixou...
Minha mulher está revoltada e briga comigo toda hora.
Hoje saí de casa, desesperado, sem saber o que fazer.
- E então o senhor me encontrou?
- Sim Nanda, Deus colocou você no meu caminho.
Agora vamos pra casa. Eu não serei mais seu Anjo da Guarda
Ele já deve estar sorrindo ao ver que eu a salvei do perigo.
e tomando conta de você ... Eu serei o seu novo papai.
Minha mulher vai voltar a ser feliz , não vai brigar mais comigo
nem com Deus... Você será o elo de ligação entre nós três
e terá em nós os seus papais de verdade: Papai do céu,
minha mulher e eu aqui na terra. Você terá outro nome,
para que esqueça tudo que passou: Regina, nossa rainha.
E assim José Carlos voltou para casa feliz da vida,
sorrindo como nunca pois encontrou em Nanda...hummmm!
Regina, uma nova razão para viver...

Jandyra Adami
  17-08-2.001

 

 

 

Janete Sales Dany

 

 

NASCI PARA VIVER!
Janete Sales Dany


Eu não nasci para ser um filete de água descendo nas rochas
Eu não nasci para ser uma folha seca no chão
Eu não nasci para ser uma flor morta num vaso
Eu nasci para florir os campos
E sentir a árvore da vida em mim
E ser água em abundância;
é assim que eu quero e eu vou ser
Nasci para amar, sorrir e florescer!

Janete Sales Dany

 

 

 

Jesusa Perez Estevez

 

 

O SEGREDO DE UMA ALMA
Jesusa Perez Estevez


Quando o sol ilumina a lua
A alma se acalenta,
O sol brilha,
A lua namora,
As estrelas cintilam,
Tudo é harmonia.
A energia do cosmo
Faz tudo acontecer.
As paixões se multiplicam
Energizando o planeta,
Dando mais brilho ao sol.
Na sombra da lua
A alma sonha!
O amor acontece
Enquanto a lua se abstém.
A paz chega
Nos corações que amam,
Queimando energia
Que somente o amor tem.
O sol se esconde...
A lua aparece...
A noite chega...
Mas somente a alma sabe
Aquilo que lhe convém.

Jesusa Perez Estevez
www.Jesusaperezestevez.com

 

 

 

João Bosco Soares dos Santos

 

 

MEU RIO SÃO FRANCISCO
João Bosco Soares dos Santos
Do livro CANTARES


Antes, o meu rio melodiava, quando, por sobre as solidárias pedras de seu ventre,
libertas águas faziam sussurros, vozes e cantos, em todas as cantigas de minha terra.
Às vezes, em gargalhadas de águas felizes.
Outras, em ligeiros ais, de raríssimas contrariedades.
Quando o serpentear de suas águas aceleravam-se
em pequenas seqüências de cachoeiras,
eu imaginava qualquer formidável beleza que quisesse,
em qualquer momento,
no meu fantástico universo infantil de deliciosos encantos sonháveis.
Ainda hoje, suas águas caminhantes acordam-me
em dulcíssimas saudades-criança,
musicadas por seus passos de andarilho anos-luz.
O meu Rio São Francisco cantava-me, em fantasia,
toda e qualquer música ou história que eu imaginasse,
em qualquer tom, ritmo, cor, nota, oitava ou harmonia.
Assim era a vida-sonho no tempo de criança.
Às vezes, propositadamente,
procurava ficar acordado noites e madrugadas insones,
para que, sozinho, em imaginações fantásticas,
pudesse ampliar as minhas alegrias
do jeito que eu as quisesse.
Hoje, rio triste, suas águas amarram-se em dezenas de barragens
obrigadas a impulsionar indiferentes hidroelétricas, restando-lhes, apenas,
a repetida e irritante liberdade de movimentar-se em ondas,
como se fora doloridas explosões de intermináveis e acumuladas revoltas.
Pobres águas... restos de águas perturbadas e desorganizadas!
Perseguido e maltratado rio, passeando em ligeiro rumo ao desespero,
ao mundo da quase-morte.
Arrebentado rio, crescentemente invadido por indesejáveis assoreamentos e poluições!
Enfraquecidas e atormentadas águas!
Onde estão aqueles seus livres, puros e cristalinos marulhares?
Já desfaleceram em suas destroçadas esperanças?
Vê-se, meu querido rio, que já não pode amar seu leito, suas pedras e seu caminho,
naquele íntimo e afetuoso abraço convivencial,
porque o progresso, impiedoso, frio e insensível ao amor-emoção,
força seu fim e exige sua ruína vivencial,
para que sua vida-rio transmude-se, exclusivamente, em geradora-de-capital,
esquecendo-se que o essencial é ser fonte perene de muitas e muitas vidas.
Encarcerado rio,
como é aflitivo sentir-se impedido de acariciar, libertariamente,
seus ribeirinhos, suas margens e suas ribanceiras!
Dilacerado rio, esvaindo-se em suas entranhas,
contendo, a todo custo, seus sonhos, sentimentos, emoções e paixões!
Maltratado rio,
condenado a conter-se e a esquecer,
em todos os ângulos, linhas, prismas e quereres,
seus afetuosos diálogos seculares com os amigos ribeirinhos!
Ditoso rio,
aquela sua recíproca prestatividade,
na mais cúmplice e milenar simbiosidade com os viventes amigos,
está sendo silenciada e rompida, em doses fatais.
Aquela magistralmente deliciosa amizade homem-rio,
desarticula-se, desfia-se m quase esquálida morte,
em face do imperial e ágil poder-progresso,
destronando e arrancado o homem da sua aldeia-vida,
da sua vida-sentimento-rio.
Amigo rio,
suas alquebradas barrancas, já tão pobres de árvores, raízes e sombras,
são quase esparsos multiquebrados e desfiados restos, pertinhos do fim.
Os peixes e outros entes naturais de suas águas estão sendo expatriados
e milhares, impedidos de correrem rio-acima, em seus inatos ritos e ímpetos
de crescer e multiplicar-se.
Quando criança, nos saltitantes amanheceres,
antes que o sol sorrisse, abrindo-se em alegríssimas manhãs sertanejas,
costumava acelerar meu acordar,
colocando visão, emoção e alma
muito à frente das minhas pernas e corpo,
para, depressinha, ver o horizonte azul-ainda-negro
a rosear-se pelo sopro do sol, em delicada busca do amanhecer.
Gostava de receber nos olhos-face a brisa matinal.
Depois, abria os olhos para observar o suave vento
a arrepiar os cabelos das águas.
Ao anoitecer, horizonte, nuvens e águas azuis
douravam-se aos poucos, em aplausos ao sol,
prestes a repousar por sob a terra.
Azuis também eram as brincantes gaivotas, que, em bandos,
singravam ventos, espaços e tempos do quase-noite, em alegrias e cantares.
Felizes gaivotas que se foram como se foram nossas infâncias,
deixando conosco, em nossos olhos e lembranças,
apenas aqueles distantes retratos,
que hoje nos assomam em pedacinhos de grandes e sentidas saudades,
arrastadas e envelhecidas pelo tempo-espaço,
a findar-se, como nossas vidas.
Meu rio,
como foram fantásticos os intermináveis banhos, a qualquer hora
do dia, da noite e da madrugada!
Que doçura de prazer-viver!
As travessias a nado... as ilhotas...as pescarias... os piqueniques...
Meu rio,
onde estão as mantrinxâs, os mandins-chorões, os pacus,
as trololôs, os dourados, as curimatãs, os piaus, os pirás e os caris?
Os jacarés? As tracajás e os demais primitivos viventes de suas águas?
Suas últimas ariranhas desceram para a extinção,
carregadas pelas cheias das gigantescas e desreguladas enchentes,
que também levaram-nos as esperanças.
E os insensíveis arrasaram suas matas ciliares, alimentadoras de seus aqüíferos,
e estão, irresponsavelmente, provocando a morte de suas nascentes.
Hoje, estranhos e indiferentes seres atormentam o seu ventre
com outros nadares e costumes,
danificando e exterminando o seu nativo ventre-universo-vida.
Meu rio amigo-criança!
Nossos formidáveis instantes de liberdades convergentes
estão a esvaecer-se nos tristes momentos e espaços passados,
que hoje nos liga só por desvanecidos tempos moribundeantes.
A idade arrasta-me para o seu lado negro
e oprime-me sob seu descontrolado peso-tempo,
tão fatalmente exterminador,
enquanto você, meu rio-amigo-criança,
vai sendo estrangulado, impiedosamente, pelas pororocas do progresso
e pela nauseante insensatez predatória dos desalmados e desamantes.
É a chegante separação desapiedada e sem retorno, que prepara o golpe fatal e final.

Adeus, meu rio amigo!
Qual de nós se findará primeiro?
Eu, pela fatalidade implacável do espaço-tempo-anos
ou você, pela tresloucada e devastadora imprudência de alguns tipos humanos ?

João Bosco Soares dos Santos

 

 

 

 

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