FÉNIX

 

 

Maria João Brito de Sousa

 

 

O PLACEBO
Maria João Brito de Sousa
(Soneto em decassílabo heróico)



Morto o tempo do tempo de lutar
Se o gesto se me esgota em vãs rotinas,
Sobram-me horas amargas, pequeninas,
Que me impõem vagar sobre vagar

Teimando, muito embora, em não parar,
Se, a cada passo, enfrento guilhotinas,
Às noites torturadas por espertinas,
Seguem-se os dias em que “estou sem estar”

Porque um estranho cansaço vertical
Me vence, toma a rédea e rouba o sal
Das horas de criar seja o que for

Pr´a me lançar, vendada, ao lodaçal
Onde insisto em escrever - mas faço mal! –
Uns versos sem coragem nem valor…

Maria João Brito de Sousa
30.08.2013 – 13.41h

 

 

 

Maria José Zanini Tauil

 

 

BANDOLINS
Maria José Zanini Tauil


Choram os bandolins
no cair da noite
estrelas se entristecem
a lua espia
debruçada na janela ,
repleta de melancolia
enquanto os sinos dobram
a ave-maria...

Choram os bandolins
com soluços graves
ferindo a alma
com seus lamentos
melancólicas visões
melodias amargas
dedos nervosos
que percorrem cordas
rasgando a noite
em mil pedaços
de solidão

E até dos olhos
da bailarina
correm lágrimas
silentes lágrimas
que se juntam
solidárias
ao sentido choro
dos bandolins...

Maria José Zanini Tauil

 

 

 

Maria Lindgren

 

 

UM OLHAR, UMA ESPERANÇA
Maria Lindgren


Naquele dia, a catarata, sorrateira cortina que se fecha devagar e sempre para acabar com a clareza do que se olha, insiste em invadir meus dois olhos tão queridos. Prestimosos olhos de escrever, ler, enxergar paisagens..., nesta ordem.
O dia amanhece mais turvo do que nunca e eu penso na depressão de quem vai fazer muitos anos em março e contar outros tantos para trás, na mais absoluta tristeza.
Abro a janela de meu quarto, na esperança de clarear meu rosto ao espelho, com risco de acordar meu pobre marido em seu soninho da manhã. Qual o quê! Não percebo o aparelho nos dentes de cima. Escovo com vontade o aparelho e só então acordo para o fato de que não são os dentes ao vivo. Faço tudo outra vez, que chateação!
No café da manhã,. me toco que a torrada tem uma cor esquisita, assim como queijo branco e as demais iguarias de dieta, que ingiro com a parcimônia de que não quer deixar sobrar banha em assento nenhum.
Ligo o rádio: o botão é facílimo de ver e apertar. Nem penso em CD, operação bem mais complexa. Ao pegar o jornal, novo impacto: nem com óculos de ver perto enxergo muito além das manchetes e dos títulos. Faço um enorme esforço para me concentrar nas notícias e nos artigos. Parece que a inteligência atrofia com a perda da visão: difícil entender o conteúdo das leituras para quem vê nublado.
Penso nos cegos do mundo que, coitados, têm que ler em Braille, uma linguagem, para mim, absolutamente hermética. Uma trabalheira. Além da dificuldade de andar pela rua pedregosa do Rio de Janeiro, coisa que percebo melhor pós catarata deflagrada.
Procuro o oftamologista, mas o diagnóstico não me suaviza as intempéries da visão opaca. Pelo contrário, o medo da cirurgia me provoca torturante dor no pescoço e nas costas, deixando-me lesa e tesa por vários dias.
Enfim, empino o peito, às custas de muito perguntar aos operados de sucesso:
- Foi tudo bem?
- Não podia ser melhor. Não senti nada; estou enxergando que é uma beleza!
- Catarata é sopa – afirma o médico.
Com minha sogra na cabeça, senhora de idade que saiu saltitante da operação de poucos minutos, sinto-me de repente um bombeiro, prestes a pular, feliz, no fogaréu.
Dias depois, adentro a clínica oftalmológica de boa aparência e sou amavelmente recebida, com aquele frasório de quem fala com velho, cheia de –inhos e agrados.
- Pode ficar sentadinha aí, que quando chegar sua vez eu chamo, tá, querida?
Pego uma revista de frivolidades e tento ler as letras miúdas, para me certificar, mais uma vez, da necessidade da cutucação em meu olho, com acréscimo de implante de objeto estranho, sabe lá o que é isso?
Morro de frio, no ar condicionado que não respeita inverno de verdade, raro na cidade do Rio de Janeiro. Meu marido, então, congela. Agarro-me a seu corpo e lá ficamos duas boas horas qual enamorados de pouco, ouvindo o cantar estomacal, por fome do jejum imposto por médico ou por solidariedade.
Finalmente, a moça me pega pelo braço, como se eu fosse uma anciã, e me leva para o elevador, em passo miúdo e lento, até o segundo andar. Lá, passa a pasta para outra, uma mulher de meia-idade, com jeito de enfermeira, que me diz:
- Um minutinho e já lhe atendo.
Quinze minutos depois, perna bamba de fome, dor no pescoço de medo, ela me entrega um traje moderníssimo, de fazer inveja à Rio Fashion Week: uma calça largona e uma blusa enorme, ambas de tecido impermeável. Com a touquinha na cabeça, fico irresistível.
Estendo-me ao lado de uma das cinco senhoras, deitadas em espreguiçadeira, à meia-luz, também à espera. Todas sem sapato, com uma estranha imitação no pé, estiradas e de olhos fechados. Um único homem, por que será? Aos poucos, fecho os olhos também, mas sou interrompida por um colírio que quase me esfola de tanto arder. Abro a muito custo o olho lacrimoso e vejo que umas duas pacientes lá se foram com a enfermeira.
- Agora é fácil: são só três. Vai num instante. Ânimo, Maria!
É quando entram outras duas senhoras, deitam e passam a minha frente. Nem dá tempo de perguntar em que loja uma delas comprou uma bela bolsa de couro escuro e elas vão saindo. Pergunto as horas e percebo que estou há mais de quatro horas na mesma cadeira. Fico irritada e exclamo:
- Alguém tem que conversar comigo! A fome é muita, gente. Não aguento mais!
Percebo que é noite porque mudaram a assistente: noite e dia são escuras com luz artificial acesa na sala hermeticamente fechada. Pelo menos, bato um papinho legal com a nova atendente, mais jovem e faladeira, graças a Deus. Em segundos, exponho-lhe minha vida em detalhes e ela, a sua. Quase lhe proponho um chá bem quente com torradas, para disfarçar o frio do ar condicionado.
Finalmente, me conduzem trôpega a uma especie de ante-sala de vários compartimentos, separados por cortina, como fazem os hospitais norte-americanos. Nada de quarto particular.
Um senhor se aproxima. Pergunto-lhe meio p da vida:
- Por que sou a última, doutor? E ele: - A senhora teve hepatite em criança e é perigoso para as outras pacientes.
Fico boquiaberta com o poder de uma hepatite tratada com homeo patia, por minha mãe e seu médico de estimação.
O homem cata minha veia, certifica-se de que no braço não existe nada azul, além de um pequeno caroço sem cor, nas dobras. Coisa de muito tempo e de repetidas espetadelas. Ouço um Chi, tenho que pegar a da mão; arde um pouco.
A essa altura, só penso em lautos jantares, sem nenhuma salada verde, cheio de carne vermelha, se possível, de porco gordo, acompanhada de vinho, sobremesa ultradoce, de preferência Toucinho do Céu bem português, e vinho do Porto ou outro licor açucarado.
Conduzem-me pre-operatória a outro cubículo, onde paro de enxergar de vez. Sinto a cabeça presa de tal jeito que nem dá para repirar fundo, que mexe. De repente, começo a ver uma especie de luz esmaecida e móvel, no olho-vítima. Nenhuma dor ou aflição, tranquilizada que estou por calmante potente.
Múmia sem nenhum tipo de sentimento, a voz do cirurgião: - Pronto, acabou!
Em casa, olho tapado por quase dois dias, tento dormir do lado contrário, por azar, o lado de que mais gosto. Tenho pesadelos dos mais cabeludos por duas noites, o que, por certo, será matéria para a próxima sessão de análise. Vai é sair coisa dali.
Dia seguinte à cirurgia, enxergo o que não queria ver, no espelhão do banheiro: manchas de sangue pisado embaixo do olho operado. Fico muito louca da vida e nem valorizo o fiatlux maravilhoso das coisas à minha volta. Pura vaidade, inútil vaidade. Não há nada que esconda as tais manchas, nem maquiagem grossa. Levo dias e dias tentando não piorar minha situação crítica, sem me olhar demais. Rezo para que, até domingo, eu possa estar menos medonha e dar os parabéns à minha sogra, pelo aniversário e pelo êxito das operaçoes duplas de catarata.
Agora, resta-me esperar pela alta, fazer uma série de exercícios respiratórios, em academia de distensionar, muita psico e fisioterapia, e nova força para encarar mais uma, no olho direito.

Maria Lindgren

 

 

 

Maria Petronilho

 

 

TUDO O MAIS... É ESTRADA
Maria Petronilho

sou elo, pendo no nada
como cadeia quebrada

hoje queria ser areia
por onde a água perpassa
sem deixar nenhuma marca

mas carne, demoro ainda
apesar desta certeza:
sou um laço da cadeia
e não me pertence nada
deram-me vida; dei vida
apenas me resta
estrada.

Maria Petronilho
www.maria-petronilho.net

 

 

 

María Sánchez Fernández

 

 

UN MADRIGAL AL OLIVO
María Sánchez Fernández


¡Cómo danzan los rayos de la luna
ceñidos a las ramas del olivo!
Y ríen entre verdes de aceituna.
Y miran a un lucero muy altivo
que envidia la fortuna
de ser del olivar su fiel cautivo.

La danza ya ha cesado.
Los rayos de la luna se han dormido,
y en un lecho encantado
de ramajes de plata hace su nido
un jilguero, que canta enajenado
porque el amor lo ha herido.

¡Ay jilguero que cantas desamores
bajo el manto del alba ya nacida!
No sientas más temores,
que en esta amanecida
las ramas del olivo ríen flores
y sosiegan al alma malherida.

¡Ay risa plateada,
mis versos se han perdido en tu enramada!

María Sánchez Fernández
Úbeda _ Espanha
Del libro “Pintar palabras” 2001

 

 

 

Maria Thereza Neves

 

 

DEIXE-ME ACORDAR
Maria Thereza Neves

recordar, sonhar,voar
naquele canto noturno
mesmo que entoe um lamento triste...

canto os encantos no meu canto
lembranças do luar de prata
daquele ceu de estrelas...

sou apenas um poema rabiscado
guardando ainda a última melodia ...

Maria Thereza Neves
25/08/2013

 

 

 

 

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