FÉNIX

 

LOGOS Nº 5

Novembro 2013

 

 

Francisco Luís Fontinha

 

 

FICÁMOS ABRAÇADOS A SENTIR A MORTE DAS NOZES
Francisco Luís Fontinha

 

Nunca sei como começar, nunca sei porque me sento em frente a esta secretária, nunca sei porque escrevo estas palavras, às vezes, mortas, às vezes
Sem sentido?
Às vezes perco-me na escuridão do dia e acordo na neblina da noite, às vezes escondo-me nos rochedos do medo, outras vezes
Sem sentido?
As nozes caem como papelinhos de anjos mergulhadas no desespero de que as vê cair, e depois de inertes no chão ensanguentado de cascas e pequenas ervas daninhas, os olhos da papoila dançam canções de Domingo noite fora, tínhamos uma vara de aço, ouvíamos alguém na sombra a remexer os ramos escondidos nos alicerces da montanha, tínhamos frio, tínhamos o desejo de as comer, e ouvíamos de dentro da escuridão uma mão de cansaço parti-las com uma pedra ou com a dentadura postiça,
Sem sentido...
Às vezes?
Ficávamos abraçados a sentir a morte das nozes,
Nunca sei porque o faço, nunca sei porque o comecei a fazer, no passado, muitos anos antes de aqui e agora sentir o
Telintar das nozes?
Sem sentido, escrevo-te como se fosse a minha última vontade, e a minha ultima vontade é não ter vontade nenhuma, quero ser como fui, quero ser como nunca consegui ser, caminhar sem
Sentido?
Ouvimos-las descer o talude em direcção ao rio, em queda livre, elas parecem pássaros a despedirem-se dos voos nocturnos da paixão
Conheces alguém que tenha conseguido sobreviver ao impossível amor?
Os ratos,
As ratazanas doidas comem os macacos menos loucos, e eu, eu aqui a olhar o mar estampado nas prateleiras de uma longa e distante estante recheada de
Rochedos?
Vozes e nozes,
O mar, o mar vê-se e ouve-se e alimenta-se
De ti?
Não o creio, porque o teu corpo de cascalho tombou antes de elas caírem do céu, diziam-nos que as nozes tinham saborosas palavras que juntas
Poemas?
Rochedos?
Vozes e nozes,
O mar, o mar vê-se
Sente-se...
Sentido?
Prometi e não consigo cumprir, porque as nozes não o deixam, porque as vozes não mo deixam, porque não o consigo realizar, porque não sei
Como começar?
Era uma vez...
Não, não o quero, não o consigo fazer
Porque elas caem?
As ratazanas doidas comem os macacos menos loucos, e eu, eu aqui a olhar o mar estampado nas prateleiras de uma longa e distante estante recheada de
Rochedos?
Vozes e nozes,
O mar, o mar vê-se e ouve-se e alimenta-se e beija-me, o mar ama-me, o mar acaricia-me e deixa a minha pele desejada em palavras de caserna, da despensa ouvíamos as latas de conserva revoltadas porque hoje é Domingo, porque lá fora
Caem as nozes
E as vozes,
Fazes-me um bolo de chocolate com nozes e vozes e
Palavras?
Sim, sim,
Palavras inanimadas sobre a mesa da cozinha, e depois de fazermos amor, ouvimos-las...
Caírem sobre o talude da paixão,
Rolavam como serpentes sobre os lençóis húmidos que o teu corpo de solstício de Outono deixava ficar junto à janela onde a nogueira embriagada pela tempestade gritava uivos sons de
Palavras?
Sim, sim,
Não, não o consigo fazer, despedirem-me dos versos molhados, despedirem-me das pedras vestidas de branco e dançando no centro da noite de
Domingo? Tínhamos frio, tínhamos o desejo de as comer, e ouvíamos de dentro da escuridão uma mão de cansaço parti-las com uma pedra ou com a dentadura postiça,
Sem sentido...
Às vezes?
Que às vezes nada parece fazer sentido, depois do corpo adormecer e dos ossos magoados do miolo da noz...
As palavras ejaculam sílabas de arame.

 
Francisco Luís Fontinha
Alijó – Portugal
http://cachimbodeagua.blogs.sapo.ao/
 

 

 

Francisco Mellão Laraya

 

 

A MÃO
Francisco Mellão Laraya

 

Com minha mão escrevo um texto, que me celebro se deliciou em pensar, em todas as formas possíveis de extravasar meus sentimentos.
Ponho no papel o fruto do viver, muitas vezes, intensamente o meu sentir. Só o sentir não basta, tenho que transmitir também!
Na infância meus amigos eram os livros, e procuro fabricar amigos, como os que tiveram, e tenho, a todos!
Meus personagens fazem parte do meu mundo, se é real ou ilusório, que importância faz?
Tudo faz parte de mim!
Foi escrevendo que aprendi a me humanizar, e foi sendo mais eu que sou feliz!
Quando conto uma estória procuro transmitir um ensinamento, der uma razão, que para mim sempre é transmitir, e para os que me lêem é pensar e sentir!
Vou assim construindo uns castelos de sonhos!
Para quê?
Para um dia ali morar!

 
Francisco Mellão Laraya
 
 

 

SEM FOTO

Francisco Rodrigues

 

 

SEMELHANTE AO REINO DE DEUS
Francisco Rodrigues

 

Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? É como um grão de mostarda que alguém pegou e semeou no seu jardim: cresceu, tornou-se um arbusto, e os pássaros do céu foram fazer ninhos nos seus ramos”. Jesus disse ainda: “Com que mais poderei comparar o Reino de Deus? É como o fermento que uma mulher pegou e escondeu em três porções de farinha, até tudo ficar fermentado”.
Jesus quer ensinar com essas parábolas como se constrói o Reino de Deus. Fala da semente de mostarda e do fermento como motor principal dessa ação. Com que então podemos comparar esses dois atores (semente de mostarda e fermento) com algo da nossa vida cotidiana? O que terá esse potencial de crescimento, saindo do pequeno/pouco para se tornar grande e envolvente? A árvore crescida abriga todos os pássaros; o pão fermentado alimenta tudo que é fome! Olhando ao redor muitas coisas podem se desenvolver do pequeno/pouco para o grande/muito, mas sem a característica do ser envolvente em todos/tudo. Somente uma força pode adquirir essa característica, do pequeno/pouco para o grande/muito com capacidade de envolvimento em todos/tudo: o Amor Incondicional.
Devemos ter o cuidado com a forma de amar que muitos não consideram distinção, ou consideram o amor incondicional de difícil ou impossível aplicação. Alguns consideram o amor materno como o mais puro que existe dentro da humanidade. Não percebem o extremo grau de egoísmo que ele permite, da mãe pelo seu próprio filho, do exclusivismo dos outros filhos de outras mães. Esse amor pode até desenvolver-se e crescer bastante, mas nunca incluirá o filho de outras mães, como ele existe com o seu próprio filho, pois se isso acontece, deixa de ser amor materno para ser amor incondicional. Da mesma forma acontece com todos os outros tipos de amores: paterno, fraterno, filial, romântico, etc... todos tem o potencial de crescimento, mas não de envolvimento global.
Sabendo agora ao que corresponde essa semente cabe a nós semear em nossos corações. Vamos perceber de imediato que o coração não é um terreno pronto para essa germinação e crescimento. O egoísmo presente dentro dele desde o nascimento corresponde a aridez que pode impedir a simples germinação. Mas se queremos seguir a lição do Mestre, devemos usar a razão e a vontade para dobrar a força do egoísmo intrínseco à natureza animal e deixar a semente do amor incondicional germinar. Pode ser até um ato forçado no início, lutamos contra nossos instintos, abraçamos adversários reais ou imaginários, perdoamos, compreendemos, toleramos, tudo isso de forma forçada pela vontade que está aliada aos ensinamentos do Cristo. Podemos até fazer o que não queremos, forçados pela força dos instintos egoístas como acontecia com o apóstolo Paulo, que “queria fazer o que achava certo, mas terminava por fazer o que considerava errado, pecado”. Tudo isso é o processo de germinação do Amor Incondicional.
Depois de germinado vem o processo do crescimento do Amor Incondicional com o seu potencial de envolvimento cada vez mais amplo, o que desperta reações as mais diversas ao redor, das pessoas que se beneficiavam de diversas formas com o exclusivismo das relações.
Muitos são os cristãos, mas pouquíssimos aqueles que compreendem essa parábola de Jesus com essa amplitude, e dentre os pouquíssimos que compreendem, raros são aqueles que enfrentam essa germinação e crescimento do Amor Incondicional dentro de si como forma de iniciar o Reino de Deus.
Mas o papel do cristão, daquele que reconhece Jesus como seu guia e mentor conforme a vontade divina, deve estudar Suas lições, compreender o sentido de Sua missão e procurar aplicar na vida cotidiana as nossas responsabilidades. Caso isso não aconteça, podemos cair na hipocrisia, o maior de todos os pecados.

 
Francisco Rodrigues
Coord. Disc. Medicina, Saúde e Espiritualidade – UFRN/CCS/DMC
 

 

 

Gabriele Loureiro Bruschi

 

 

SEM PISTAS NEM RASTROS
Gabriele Loureiro Bruschi

 
Eu não consigo enxergar.
Só sinto meu coração
bater.
Não consigo seguir
nenhum rastro.
O que eu sigo
é o que meu
coração sente.
Fico sem pistas,
mas nunca
desisto daquilo
que eu quero.
 
Gabriele Loureiro Bruschi
Porto Alegre - RS
 

 

 

Gal Braga (sh@nti)

 

 

METAMORFOSE
Gal Braga (sh@nti)

 
Sou um pouco de tudo...

discreta, transparente,
louca e santa
maliciosa e pura,
correta e sem compostura

Sou um pouco de tudo...

Trago em mim o fel,
como também a doçura
sensata e inconseqüente,
rebelde e obediente

Sou um pouco de tudo...
Realizada e carente,
meio fera, meio gente
metamorfose freqüente,
insana e coerente.

Sou um pouco de tudo...

Sei ser gentil e atirada,
fogosa e bem comportada
serviçal de corpo e alma
Domadora e dominada.

Sou um pouco de tudo...

Sou que nem onda do mar
ora calmo, ora agitado
vulcão dormindo ou ativado,
sou pureza, sou pecado.

Enfim, sou um pouco de tudo...
 
Gal Braga (sh@nti)
Salvador/Bahia
05/10/2008
 

 

 

 

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