FÉNIX

 

LOGOS Nº 6

Janeiro 2014

 

 

 

Ligia Tomarchio

 

O ERMITÃO
Ligia Tomarchio


Nesse dia o mar estava calmo. As ondas corriam lentas. Arrastavam algas e mariscos de suas profundezas até a praia. A areia brilhava sob o sol forte e o céu confundia-se com o azul do mar no horizonte...
Alguns navios lá estavam, como estátuas à deriva, balançando, balançando...
Poucas pessoas faziam seu passeio matinal na praia. Não era época de veraneio. Sem turistas. Apenas os costumeiros moradores da praia de Itararé.
E lá estava eu, do outro lado do mar e da avenida. No meu buraco. No alto do morro ainda úmido da chuva que castigara por toda a semana.
Levantei para descer o morro, a fim de encontrar alguma comida.
Há uma pequena trilha por onde posso descer. É íngreme. Para os que olham para o morro, devem se perguntar, como consigo subir ou descer. Acho até acreditarem que nunca desça, pois raramente alguém me vê embaixo.
Ouço muitos comentários a meu respeito, principalmente quanto a minha aparência. Mas não me importo. Sou e vivo assim, por opção e não me interessa o resto do mundo.
Não gosto de falar muito. Quando me chamam para perguntar algo, logo faço qualquer sinal para fazê-los desistir.
Já vivi muito... A escolha de morar nesse morro foi a melhor que pude fazer.
Nele tenho tudo de graça. A própria natureza é quem me abriga e me dá sustento.
Não vivo só. Tenho um cão companheiro. Alguns ratos passam sempre a procura dos restos de alimentos que guardo para essa finalidade. Pombos, passarinhos e corvos, também visitam minha morada. Nos entendemos bem, sem interferências...
Dizem que sou o “velho do saco”, aquele que rouba criancinhas. Ou, ainda, que sou louco. E que meu aspecto é repugnante. Porém, nada é verdade. Talvez, quanto a minha aparência tenham razão, pois nunca me vejo.
As crianças, muitas vezes, jogam pedras e outros objetos para o alto do morro, tentando me provocar. Não ligo. Dessa forma, logo desistem e se vão.
Alguns adultos acompanhados de seus filhos olham admirados e dizem às crianças para tomar cuidado ao passar sozinhas perto do morro. Explicam às pobres criaturas, que ali, no morro, vive um homem mau, que rouba crianças!
- Como os adultos perturbam as crianças com tantas bobagens! - Penso, contrariado.
- Ah! Lá vem o trem apitando...
Recordo-me de quando aqui cheguei. Tomei um trem em São Paulo. Não tinha dinheiro para continuar viagem, daí me atiraram aqui embaixo, onde agora, o trem está passando. Seu trilho separa o morro da calçada, que é cercada por um muro baixo, fácil de pular.
- Não vou descer agora. - penso - Ficou tarde. Muita gente na rua. Vou esperar.
Nesse momento, o apito do trem soava longe, quando percebi uma mulher e duas menininhas. Estavam na calçada, olhando para mim. Devem ter parado para ver o trem passar e acabaram por me descobrir. Levantei curioso para vê-las e até tentei chegar um pouco mais à vista das três.
Estas, vendo-me aproximar, deram um passo para trás receosas e continuaram a me observar.
E assim ficamos, os quatro, por uns momentos, hipnotizados.
Senti no olhar daquela mulher, uma grande tristeza. As meninas, já apresentavam uma certa admiração em seus olhos brilhantes e vivos.
Passado o primeiro contato, consegui entender, através do pensamento - sim, porque consigo algumas vezes ler os pensamentos - o que as três queriam de mim.
Elas querem que eu conte minha vida. A mulher, que descobri ser repórter, deseja escrever uma matéria para o jornal sobre os velhos abandonados. E as crianças querem sentar no meu lado e escutar histórias fantásticas de um velho avô que já não existe nessa vida.
- Como gostaria de ajudá-las! Não posso, porque eu as assustaria com minhas histórias e a reportagem nem seria aceita pelo diretor do jornal.
Pensando assim, acenei para elas, que corresponderam e voltei para meu canto.
Quando sentei, meu cão, que não tem nome, disse-me:
- Está certo amigo. Não há necessidade de sair por aí contando sua vida. Mas quanto a sua aparência... Podia melhorar um pouco, não acha? Quem sabe se tomasse um banho de mar e trocasse suas roupas... Não chamaria tanto a atenção!
Fiz de conta que não ouvi.Única coisa que chamou minha atenção naquele momento, foram algumas lesmas instaladas, numa panelinha furada e cheia de folhas derrubadas pela chuva. Como eram lentas... Os corpos acinzentados, cobertos por uma gosma transparente, brilhavam ao sol, roubando o verde das folhas e o pouco de brilho da panela de metal. Devoravam vagarosas aquelas folhas. Deve ser o prato predileto delas... A uma dessas lesmas prestei mais atenção. Após comer um pedaço de folha, saiu da panelinha e, rastejando muito devagar, rumou solitária para o alto do morro.
Praticamente, passei todo o resto do dia a observar aqueles moluscos. Quando todas já haviam partido, o sol escondia-se atrás de mim. O céu avermelhado, completou a felicidade daquele dia... Perdido, assim, em deslumbramento e devoção ao crepúsculo, compreendi que as lesmas queriam me mostrar algo. Assim como aquelas três, a mulher e as meninas.
Não sei bem o quê. Minha sensibilidade nunca falha e, dessa vez, alguma mensagem deveria haver naquilo tudo...
Assim permaneci toda a noite, pensando, pensando... Até que adormeci.
Outro dia ensolarado se fez, quando despertei assustado. Tive um sonho triste. Não sei bem se foram lembranças ou um sonho, mas enfim, entendi a mensagem quase indecifrável do dia anterior.
Vi a mulher e as duas meninas indo à praia tomar sol e brincar na água salgada. Estavam acompanhadas de um homem, jovem como a mulher. Esse homem era eu, há muitos anos. A mulher e as crianças foram para o mar e eu, fiquei sentado na areia quente a observá-las. Naquele dia o mar da praia de Itararé estava bravo. Não me preocupei. Elas sabiam nadar, apenas alguns instantes de distração, fizeram com que as três sumissem entre as ondas ariscas. Todas foram encontradas, mais tarde , pela guarda costeira, mortas. Como sofri tal perda! Parecia até mesmo que eu as havia perdido para o mar...
Sonho ou não, aquelas três me trouxeram lembranças tristes. Continuarei a ser e
viver como sempre. Enclausurado em pensamentos e conversas com meu cão e o mar.
Com o mar, a relação é de mágoa, no entanto, me reservo o direito de ser o guardião dessas águas enganosas. Águas em que não entro, apenas observo sua beleza e reflexo.
Continuo minha vida de ermitão. Solitário por opção.
Perdido no esquecimento e passado distantes...

LigiaTomarchio
Brasil
 

 

 

Lorenzo Gomes Bacin

 

ALDRAVIAS
Lorenzo Gomes Bacin


crianças
viver
sem
medos
e
temores.

vida
família
amigos
animais
de
estimação.

chuva
consequências
de
mudanças
de
tempo.

Lorenzo Gomes Bacin
Brasil
 

 

 

Lucas Dias Miranda

 

ALDRAVIAS
Lucas Dias Miranda


uma
vida
vários
sentimentos
e
alegrias.

rotular
é
dividir
para
deixar
conquistar.

imprensa
mentirosa
visa
iludir
pessoas
alienadas.

Lucas Dias Miranda
Porto Alegre - RS
  - Brasil

 

 

Lúcio Reis

 

SUBINDO PELAS PAREDES!
Lúcio Reis


A sentença que encima a presente matéria, era expressão empregada nas décadas antes de 50 e até, possivelmente na década dos recentes anos 80 e, resumia a necessidade premente da realização do coito e, quando nada era possível para tal, diziam os mais velhos que fulano – normalmente só servia para o sexo masculino – estava subindo pelas paredes.
O subindo pelas paredes como lagartixa, por sua vez, não foi criada do nada mas sim, porque o moleque escalava parede, muro, ou o que fosse necessário para ter uma visão de alguma fêmea trocando de roupa, tomando banho pelada e que era um baita estimulo a libido e a pratica da covardia mais concreta daqueles anos, pois aí havia a famosa “gangue 5 x 1”, fazendo o “pobre coitado vomitar o que não engoliu” e esse proceder os entendidos dizem ser consequência do vouyer, e biologicamente a masturbação. Quem por viveu sabe do que falo, pois a outra alternativa eram as secretarias domésticas e, por isso, hoje muitas figuras de exponente social, tem prole que só aparece em função da projeção do fulano e que, o mau caracter não aceita, mesmo a despeito da comprovação pelo DNA.
Além do proceder anterior, no interior era e, quem sabe, ainda é, o “aliviar-se” com os animais domésticos, pois sem dúvida ninguém em sã consciência iria abusar de uma onça pintada para sua transa colorida e a isso os sexólogos adjetivam como zoofilia e que ainda hoje, pelo menos, como já vimos e creio que muitos também já o viram, há sites especializados no ramo, apesar de que são consideradas pessoas que fogem os parâmetros na normalidade e citadas como aberrações. E para exemplificar, o caso como consequência de um tabu inerente à uma época, há o narrar de um amigo que hoje, passa do 80 anos e conta que quando moleque tinha a incumbência de entregar peru na casa de pessoas amigas de sua família e no trajeto, em função de cidade de poucos habitantes e locais ermos, ele dava uma paradinha e as peruas tinham uma transa inesquecível. Lógico, ele conta no sentido de gozação e brincadeira. Quem sabe com um fundo de verdade!
Mas, os anos foram passando e o tabu que encobria o tema sexo, foi sendo retirado, as meninas deixaram para trás ou aboliram a lição “só depois que casar” como cantava o Rei do Brega, Reginal Rossi recém partido e a virgindade foi para a prateleira e hoje já é leiloada a nível mundial e portanto, figura no rol das mercadorias raras. E o pior, ou quem sabe o melhor, tem babaca ou conservador, - no meu entender – que se dispõe a pagar para ter mas, como dizia o saudoso amigo LO: “doido é doido” e, quem sabe a menina apenas usa esse marketing para se promover. Hoje tudo é possível e até o inusitado há!
Ainda como sinete, marca daqueles tempos e assim da minha geração e próximas, quando as bochechas, testas eram cheias de espinhas (acne) em função dos hormônios a todo vapor, lembro e muitos lembram do Carlos Zefiro, que hoje tem endereço eletrônico e, lá na década de 60 publicava em preto e branco seus “catecismos” com conteúdo de histórias por ele criadas e inventadas, quem sabe, com algum fundo de verdade e, ilustradas com os desenhos dele também e, secretamente circulavam, pois Carlos Zefeiro era o pseudônimo do criador, pois o tabu e a censura davam as revistinhas um grande valor, o valor do proibido, escondido, temperado pelo tabu até de possível prisão, apesar de que as mesmas, mesmo encerrando histórias de sexo explicito e pornográfico tinham conteúdo de um folhetim de um caso, assim ou a semelhança de Nelson Rodrigues e, o disfarce de “catecismo” veio com as hitórias que tinham como enredo padres, freiras, conventos e etc...
Como parte dessa evolução e mudanças de costumes, passaram também a aportar nas rodas dos moleques as revistinhas dinamarquesas, coloridas e que somente mostravam mulheres totalmente despidas, sem nenhum legenda e que tinham o poder de stimular mais ainda a meninada reprimida em seus naturais e humanos anseios sexuais e hormonais e, estas publicações aqui chegavam através dos navios que aportavam em nosso cais.
A nível nacional, todos lembram o sucesso de Norma Benguel – toda nudez será castigada – com seu nu frotal na praia e que a proibição para menores de18 anos provoca a estudantada falsificar a carteira estudantil para poder ter ingresso e acesso no cinema à assisitir a fita proibida.
Para incrementar as mudanças que paulatinamente vinham sendo implantadas, as casas da 7ª arte, passaram a exibir uma série de filmes “Mundo Cão” e que traziam espetáculos de strip tease, além de cenas de sexo e outros informes considerados tabus e proibidos para menores de 21 anos.
E, a cada estocada o mito sexo foi sendo derrubado e, é bom a lembrança a nível de cinema internacional a francesa belíssima Brigite Bardot e que também frequentou a mente de muito adolescente, fez de muitos deles seus amantes na imaginação e que hoje dizemos virtuais.
E assim os grilhões que prendiam as mulheres foram sendo decepados, rompidos um a um, elas foram sendo liberadas e se tornando livres, muitas aproveitaram para fazer da vagina sua fonte de renda, posto que as zonas de meretrício foram decretando falência, perdendo o brilho e o auge da propcura, apesar de que ainda há em escala que não mais representa o glamour e o auge de ontem, pois as pensões foram para locais mais discretos, contrataram profissionais jovens, bonitas e que exploram comercialmente a transa e a cada passo o sexo foi se vulgarizando, o encanto de se ver apenas um palmo de coxa acima do joelho foi sendo apagado, o erotismo foi cedendo lugar ao explicito, pois a mulher até deixou, de um modo geral, de usar a calcinha ou o fio dental só cobre o estrito necessário e chegamos aqui e sabe-se lá a onde iremos e se vamos parar.
A consequência para nós é que, como nossa educação há muito é precária e as devidas orientações familiares sequer existem e o poder estúpido e inconsequente dita: relaxa e goza; e portanto o mostrar e orientar não são aplicadas devida e na hora correta e então o resultado é que veio o menor abandonado independente do ser masculino ou feminino, pois sexo livre e sem uso de contraceptivo, tem mesmo como consequência um novo ser e este, será criado e não educado, quando é, pois muitos nem passam da fase infantil e, vai formar no rol do menor abandonado, cair nas rodas de crake e hoje a menina adolescente de 12 anos, conduz uma criança na mão esquerda, uma no colo sustentando com a mão direita e uma no útero e, possivelmente cada um tem um pai e que, nem ela sabe quem é, e os conduz como troféu. Trófeu da irresponsabilidade do poder público e da inconsequente precariedade que o estado conduziu a família nacional.
E dessa “maravilhosa” situação o político tira proveito e se mantem no poder e o cidadão será apenas a catapulta via urna que o projeta para meter a mão no erário.
E antes que alguém apressadamente me passe pela cara que o estado não tem obrigação de educar ninguém mas sim, a família, é necessário que registre que implícito está nas entre linhas que a instituição família, há muito foi jogada na sarjeta da inconsequência política que norteia o estado brasileiro e isso, sem dúvida é tema para outra crônica.
O que vale, no meu concluir é que sexo é bom e muito bom, necessário o casal, 4 paredes, responsabilidade e diverso disso são variações para os gostos e pessoais opções, que respeito!

Lúcio Reis
Belém do Pará - Brasil
http://lucionunesreis.blogspot.com.br
 

 

 

Luís Abisague

 

É PARA TI
Luís Abisague


Quis escrever poemas para ti,
Poemas fortes, com pensar profundo,...
Capazes de mostrar o que senti
Daqui, lugar distante, do meu mundo…
Quis expressá-lo em forma mais singela
Como se fosse um hino de louvor
Olhando pelos vidros da janela
Levado em linda confissão de amor
Quis revelar meus sonhos e segredos
E lutas bem difíceis que já tive,
Falar das minhas dúvidas e medos,
Projectos, cujo fim ainda não sei…
Das lágrimas sem fim que não contive,
Dos sonhos mil que não concretizei.

Extraído do livro: A Póvoa Feiticeira
Luís Abisague
Reino Unido
 

 

 

 

 

 

Livro de Visitas