FÉNIX

 

LOGOS Nº 8

MAIO 2014

 

 

 

Filipa Vera Jardim

 
 

MEMÓRIA EM VIAGEM
Filipa Vera Jardim


As portas do comboio abriram-se. Não sei exactamente como nem porquê. Muito menos para onde. Entrei. Limitei-me a entrar.
Segui o corredor. Sempre a direito, sem vacilar. Nem os balanços, me fizeram vacilar.
Passei as portas todas. De um para outro vagão, desertos de coisa alguma. Estanquei na última, já a debruçar-se pelo horizonte.
E sentei-me. De frente para o passado, que rodava num entusiasmo frenético, um balanço, um balanço…
Sem querer saber, adormeci.
O sonho não o vivi . Ou não me lembro, não sei.
Quando acordei, encarei de frente o mesmo cenário. E foi então que percebi. A viagem estava ali à minha frente.
Feita de passos dados, de sorrisos sorridos, de gentes que nunca voltam.
Sentada ao meu lado, aconchegada entre o vidro dessa última janela, na derradeira carruagem, viajava de branco…
Perguntei-lhe o nome.
Disse-me chamar-se memória...de apelido: travessia

Filipa Vera Jardim
Lisboa - Portugal

 
 

 

Flávio Kothe

 
 

DA PALMA DA MÃO
Flávio Kothe


Pureza há de brotar das mãos mais sujas
seus sulcos têm a terra e têm o adubo.
Água há de prover a divina Providência
com suor do teu rosto e muita paciência.

Por que ainda andar nas ruas dessa vila
se não para escrever algumas linhas
como se nelas tivesses possíveis vias
como se aqui te lessem como tu os lias?

Que teus olhos nos olhos possam olhar
que num espelho ainda possas te mirar:
até quando nessa terra ainda irás ficar?

Teu sonho não hás de ver nesse morro
nele não verás as sementes do outono:
da pátria espera tu apenas abandono.

In "Poemas do Exílio"

Flávio Kothe
Brasilia - Brasil

 
 

 

Francisco Brito de Carvalho

 
 

FILHOS DA RUA
Francisco Brito de Carvalho


vi um menino dormindo
nas esquinas da solidão
acamado no papelão protetor
e agasalhado entre suas pernas
que fazia a função de cobertor
mas, era apenas um menino qualquer
desses que nos deparamos na lida
todos os dias em todos os lugares
e todas as horas nas grandes urbes
estava deitado para a vida
e dormia de bruços para as dores
nos seus pés nus calejados
a marca do asfalto da insatisfação
o ponteiro das horas de sol tórrido
na Daniel de La Touche sem ação
indiferente à capital do mar
o menino sem nome dormia moído
um profundo sono sem esboçar
nenhuma reação ante os ruídos
de todos e tudo ao seu destemor
sem pão sem água sem riso
ele descansava sua vida sem amor!

Francisco Brito de Carvalho
São Luís - Maranhão - Brasil

 
 

 

Francisco Luís Fontinha

 
 

UM CÍRCULO COM OLHOS VERDES
Francisco Luís Fontinha


Nunca vi o mar,
A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu passava as tardes a olhar o mar, e eu passava as tardes a ouvir o mar que no canto esquerdo da alcofa batia contra as rochas imaginárias e quando a maré acordava e eu adormecia, o som melancólico e poético do mar entrava em mim e encharcava-me de luzes e de estrelas de papel,
- Porquê mãe,
De luzes e de estrelas de papel saltitando na areia finíssima da ilha do Mussulo, o meu filho pequeníssimo fitando o oceano invisível dentro da alcofa, o meu filho agarrado aos braços da mãe a olhar-me enquanto eu sentado numa cadeira de praia recordava as mangueiras no fim de tarde quando a Bedford amarela se imobilizava depois de caminhar de musseque em musseque, eu chegava a casa, eu chegava a casa e ele deitado a brincar com o mar,
- É tão pequenino Segredava ele para a enfermeira na primeira visita que me fez quando eu misturado com outros pequeninos e de etiqueta no pé para não me ausentar e perder nas ruas de Luanda,
E hoje pergunto-me,
- Nunca vi o mar,
E hoje pergunto-me, A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo desenhava o mar no teto da alcofa, um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e hoje pergunto-me a razão de uma etiqueta suspensa no pé minúsculo, ele de olhos abertos e agarrado aos meus braços fingia que olhava o mar mas eu sabia que não, hoje sei que ela desenhava o mar na alcofa para que eu mais tarde, muitos anos passados, percorra as ruas de Luanda em busca do mar,
- Porquê mãe,
E nunca vi o mar, Um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer, e eu, e eu passava as tardes a olhar o mar, e eu passava as tardes a ouvir o mar que no canto esquerdo da alcofa batia contra as rochas imaginárias e quando a maré acordava e eu adormecia, o som melancólico e poético do mar entrava em mim e encharcava-me de luzes e de estrelas de papel,
- A Bedford amarela para não se perder nas ruas de Luanda, uma etiqueta suspensa no pé minúsculo, eu sentado numa cadeira de praia a ouvir a sombra das mangueiras que batia contra os domingos entre conversas e meia dúzia de Cucas,
As palmeiras murchavam e desciam até à marginal, e ele agarrado ao meu pescoço sonhava com triciclos e papagaios de papel dançando no céu, e adormeci com ele ao meu colo, e ele caiu e quando aterrou no pavimento ouvi-lhe as primeiras palavras,
- Mãe O mar é tão lindo,
Os domingos entre conversas e meia dúzia de Cucas, será que alguém vai ler esta porcaria,
- Pergunto-me Porquê mãe,
Será que alguém vai ler esta porcaria quando as mangueiras desciam até ao capim e as pombas sobre um triciclo de madeira,
- Voavam,
A Bedford amarela estacionada junto ao portão do quintal e ao longe o avô Domingos de braços abertos e me abraçava e me pegava ao colo, eu pendurado no seu pescoço com um olho a ver o mar no teto da alcofa e com o outro a contar os carros em direção ao Grafanil, Catete, Bairro Madame Berman,
Um cavalo branco saltitava e pegava em mim e me levava a ver o mar,
- Mãe O mar é tão lindo,
A minha mãe sonâmbula nas noites de cacimbo e eu tombei e quando aterrei no pavimento,
- Mãe O mar é tão lindo,
Ele sentado numa cadeira de praia a imaginar domingos e conversas entre meia dúzia de Cucas,
- Tão pequenino ele,
Um círculo com olhos verdes e sorrisos e cheiros que aprendi a distinguir antes de adormecer…

(texto de ficção)
Para o avô Domingos

In Conte Connosco 2

Francisco Luís Fontinha
Alijó - Portugal

 
 

 

Francisco Mellão Laraya

 
 

A REALIDADE E O SONHO
Francisco Mellão Laraya


Temos noção da realidade pelos cinco sentidos, e que sentido tem isto?
A realidade é o transcorrer da nossa existência!
E quando sonhamos, pensamos e sentimos isto não é real também?
A realidade interna de um mundo que desabrocha ao sentirmos transfere toda uma carga de emoção, de energia, para a nova visão do quotidiano. Uma disposição ímpar toma conta de nós, vivemos o momento de uma intensidade tal, que muitas vezes não damos conta da totalidade do que aconteceu.
Apenas temos a conclusão que algo havia e que foi bom. O simples ato de segurar a mão, tão banalizado no quotidiano, tem proporções nunca antes vistas.
O abraço passa de um mero cumprimento, a ter um quê de aceitação, nasce dele uma volúpia, um querer, um se entregar sem medo, que comumente não tem esta conotação.
E quando chegamos a casa, e pensamos sobre o momento vivido, acreditamos ser um sonho! O sonho de um sentimento que extrapola a razão...
E eu pergunto a mim sempre: Este relacionamento com ela é um sonho?
Se o for que perdure pela vida inteira!
Eu acredito em sonhos, e a grandeza do ser humano é: transformar os sonhos em realidade!

Francisco Mellão Laraya
São Paulo - Brasil

 
 
 

 

 

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