FÉNIX

 

LOGOS Nº 8

MAIO 2014

 

 

 

Janaina Yhema

 
 

PARADOXALMENTE ASSIM: EU
Janaina Yhema


As estações passam, as flores mudam, as folhas se renovam,
Mas assim como o céu que é sempre azul,
Por muito tempo fiquei sentada na varanda olhando a vida passar.
Tudo parecia calmo e tranquilo.
Cresci e fui ficando inconformada com algo que não sabia explicar.
Comecei a me despir e ver que tudo ficara diferente.
Meu corpo mudara, meus desejos se transformaram e necessidade de me mostrar era latente.
Tudo era enlouquecedor!!
Os vestidos candy color já estavam esquecidos e o gosto pelo vermelho e preto materializava minha paixão.
Paixão pelo conhecimento, por homens e mulheres que nunca tive.
Agora sou outra e quero que o mundo me veja assim.
Assim: livre, sem amarras, sem tabus, cheia de sonhos e desejos reais.
A utopia se esvai e tudo pode acontecer!!
Sou dona de minhas escolhas.
Sou senhora de meu destino!!
Agora sou uma nova mulher: as estações têm as cores que eu quiser dar
E hoje quero as cores da paixão e sedução, porque quero que o mundo seja assim!!!

Janaina Yhema
Fortaleza - Ce - Brasil

 
 

 

Jandyra Adami

 
 

EU QUERIA VOLTAR NO TEMPO...
Jandyra Adami


Eu queria voltar no tempo.
Qualquer dia...qualquer hora.
Viver o que não vivi.
Ser mais feliz do que fui
Queria aproveitar os momentos.
Ter e dar alegria em abundância
Ser mais otimista e alegre.
Saber encarar meus 20 anos
com a felicidade e o charme que tinha,
para desfilar em todas as passarelas.
Vibrar mais com os aplausos...
Acreditar que era bonita e
aceitar os galanteios com prazer...
Queria ter meus 11 anos,
quando recebi Jesus pela primeira vez
em meu coraçãozinho tão puro.
Aproveitar bem a presença de meu pai,
antes de sua partida quando eu tinha só 10 anos.
Voltar à infância, naquela pureza de meu tempo.
Cantar, dançar, com meu pai ao piano.
Fazer tudo que fazia, com a família reunida.
Cabelos cacheados, olhos bem verdes...
Linda menina eu era...
Voltar para os braços da mamãe e de todos.
Ser aquele bebê bonito que todos amavam.
Alimentar-me com o leite materno,
mais puro e cheio de amor,
amor de mãe que é o maior que existe.
Queria depois, voltar ao útero materno,
lugar mais protegido que tem o ser humano.
E, finalmente,
queria ser o orgasmo de um casal apaixonado,
pois eu fui feita com muito amor...
O verdadeiro amor de duas pessoas
que viveram somente uma para a outra:
Meu pai e minha mãe...

Jandyra Adami
Santa-Rita - Brasil

 
 

 

Janete Sales Dany

 
 

CARTA SAUDOSA DE UMA MÃE NO ASILO PARA O FILHO AMADO!
Janete Sales Dany


Meu filho eu me lembro de quando você nasceu
A vida reluziu; a tal felicidade sorriu e apareceu
E os seus primeiros passos me deixaram orgulhosa
A minha vida ficou encantada como o abrir de rosas

As primeiras palavras eram o som mais lindo que ouvi
Lembro que disse mãe; naquela hora eu chorei, eu sorri...
Não me esqueço de todas as suas conquistas alcançadas
Estive com você no sofrimento e nas mais árduas jornadas

Lembro–me do primeiro emprego; em que eu torcia por você
Sua roupa eu passava a ferro com afinco; ainda era o meu bebê
E quando você ganhava elogios eu sorria; você tinha que ser feliz!
Eu sei que o amor que eu tenho por você tem uma profunda raiz

Fiquei feliz com a primeira namorada que você me apresentou
Meu coração se encheu de alegria quando o primeiro neto chegou
Eu me lembro de tudo meu filho; você sempre foi a minha riqueza
Fiz o impossível para o nosso amor se consolidar numa fortaleza

Os anos se passaram e eu aqui sentada olho o infinito da solidão
Relembrando os beijos e abraços que eu te dei de todo o coração
Eu bem sei que nunca esquecerei que nesta vida você é meu filho...
Mesmo que minhas lágrimas acusem que eu fui esquecida num asilo!

Janete Sales Dany
São Paulo - Brasil
http://danysempre.blogspot.com.br/

 
 

 

João Bosco Soares dos Santos

 
 

MINHA FORMIDÁVEL VIZINHA MARIA
João Bosco Soares dos Santos
 


Que beleza de pessoa! Jamais vi Maria zangada, em qualquer minuto de vida, durante os longos anos em que fomos vizinhos.
Se alguma vez sofreu ataques que a contrariassem, jamais deixou transparecer em seu rosto.
Sempre estava alegre, carregando seu sorriso sério e sincero, cativante e prestativo.
Simples, segura, sensata e objetiva ao ouvir, ao falar, ao gesticular e ao tomar qualquer decisão, ainda que parecesse ser complicada ou difícil. Extremamente paciente e magistralmente tolerante. Às vezes penso que essa minha maneira de aceitar os fatos e acontecimentos com a mais natural tranqüilidade, ainda que surpreendentes ou estranhos, foi, em parte, assimilada do modo comportamental de Maria. É também possível que parcelas de outras belezas espirituais e harmonias vivenciais que Maria provava possuí-las tenham passado para mim, direta ou indiretamente, em parcelas ou nuvens de lembranças, em face do nosso longo e agradável contacto diário, tecendo um excelente convivência como bons vizinhos. É que eu, como muitas pessoas amigas, tínhamos o costume de sentarmo-nos na ponta da alta calçada, construída em uma das frentes da minha adorada casa, passeio este que se salientava pela comprida rua principal, à sombra do generoso flamboyant, sempre cheio de verde, e a esparramar-se em dadivosa sombra.
O outro lado, ao sul, recebia todo o indiferente e inclemente sol das tardes e iniciava a curta e irregular rua do Garguelo.
Ali, naquele cativante lugar, trocávamos palavras, alegrias, sorrisos e recebíamos o suave vento, que, quase sempre em ares de brisas carinhosas, chegavam do Rio São Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite.
Nossas casas separava-nos apenas por um espaço de cerca de cento e trinta centímetros, a que chamávamos de beco, por onde passavam lavadeiras, carregadores, vento, luz, brisa e o ar. Convivíamos felizes. Muitas pessoas adoravam ficar ali sentadas, proseando, como dizíamos. Também dali, víamos, em nítidas visões reais, alguns comportamentos, atitudes e ações e ouvíamos conversas e falares, porque, na verdade, era uma posição privilegiada, de onde podíamos ver e ouvir grande parte dos acontecimentos comunitários. E Maria, sempre equilibrada, ponderada, comedida, tranqüila e prudente, em seus comentários, era um excelente exemplo de comportamento familiar e comunitário.
Maria costumava aglutinar e esparzir seus pensamentos, sonhos e idéias, colocando as mãos sobre a ponta do cabo da vassoura, com que varria a calçada e parte da rua situada em frente à sua casa, e, sobre as mãos, colocava o queixo. E assim permanecia, às vezes, por longos minutos, filosofando ou remoendo sobre a vida, imagino, vendo a longa rua e grande parte de tudo que se passava à sua frente, e no próprio povoado, mas sempre com os olhos e a mente a alcançar outras distâncias de tempos e espaços, ou talvez a querer repescar seus belos instantes vivenciais, escondidos nos recônditos dos baús das suas doces recordações, ou guardados em cenários e cenas inesquecíveis.
Gostava de conversar comigo, mas o meu vocabulário e o meu repertório de menino e de adolescente, por ser curto, vazio e seco, pouco ou quase nada adiatavam. É que sempre fui mais de observar de que comentar, relatar e dizer. E, em face da minha mudez monossilábica, Maria voltava a emudecer-se em sua voz de solitário silêncio, enquanto conversava com o tempo, que passava ou voltava, pelos seus universos visionários e imaginários, a catar pequenas alegrias ou esperanças de felicidades.
Maria tinha um belo, grande e manso gato cinza, chegando-se ao azul e ao preto, em face de algumas rajas mais fortes, daquelas duas cores. Era seu “xodó”: manso, grande e mimoso; era seu bom e sensível amigo e seu companheiro de conversa e de desabafo. Era muito bem tratado e dengado. Ao que parece, gostava muito de Maria, porque, sempre que possível, estava em seus braços a receber carinhos. E assim dormia e dormia; miava e miava, sonolentamente feliz.
A diferença de idade entre mim e Maria era superior a vinte anos. Mas nos entendíamos muito bem e especialmente como vizinhos, apesar de sempre estarmos em lados opostos, politicamente.
Um dia, numa tarde de outono sertanejo, eu já com mais de 22 anos, trouxe um disco - um elepê - do instrumentista Poly, comprado em Petrolina, onde estudava, e o coloquei na radiola. Era assim que se chamavam os primeiros toca-discos comerciados. Após ouvir todas as faixas do grande disco de vinil com doze faixas de músicas diversas, repeti, algumas vezes, bem alto e a bom som, a música que me pareceu mais bela: “En la fronteira del México”. Encerrei, desliguei o som e voltei para sentar-me no meu trecho de calçada preferido, que era um agradável e alto banco.
Quando saí pelo portão, deparei-me com o mais belo e, surpreendentemente, o mais triste e intraduzível dos sorrisos de Maria. E seus olhos negros navegavam entre as mais brilhantes e copiosas lágrimas, talvez as mais doces e, ao mesmo tempo, as mais doridas. Olhamo-nos, sem nada dizermos um ao outro, mas vi que seus olhos rebrilharam com mais intensidade, fitando e acompanhando os horizontes e as poucas nuvens, e, ao depois, voltando-se na busca dos meus. Fiquei sem nada entender.
A tarde descia levada pelo sol que queria dormir mais uma noite. Entrei em minha casa, e, por acaso, encontrando-me com uma de minhas irmãs, contei-lhe o ocorrido. E ela me respondeu, fazendo-me entender:
- Maria viveu um intenso, bom e longo amor, que nasceu e foi embalado com carícias e afetos, ao som dessa nostálgica música tantas vezes repetida; essa mesma música que você quase não parava de tocá-la. E o adorado parceiro desse seu amor quase lenda, a trocou por outra, com quem se casou e teve filhos e netos, longe daqui.
Longos anos depois, já viúvo, esse senhor já velho e único amor de Maria, veio, pessoalmente, até ela pedir-lhe perdão, pelo brusco rompimento daquele lindo, bom, mas não concretizado amor, que, forçosa e amargamente, instalou-se eternamente no sopé do altar das sós lembranças de Maria. E ela, com a sua costumeira e humilde complacência, de imediato recebeu-o e perdoou-o, e ainda presenteou-o com o mais doce de seus sorrisos, para ela o bastante para eternizar aquele confortante e rejuvenescedor instante, essa só ligeirinha felicidade de voltar a tê-lo e a ouvi-lo bem pertinho, olhos nos olhos, cheiro no cheiro, depois de eternos e inesquecíveis 60 anos de separação.
Para ele, que não considerou ser apenas um dever cumprindo ou uma simples descarrego de consciência, que o atormentou e impiedosamente o atormentava, e de modo doloroso, desde tantos e tantos anos, foi a última oportunidade de voltar a beijá-la; e jamais poderia perdê-la, custasse o que custasse.
E o fez repente, energizado e fermentado pela emoção, pediu-lhe licença e ofertou-lhe este tão doce e desejado beijo na testa, sem esperar qualquer resposta.
Foi, paradoxalmente, o mais amoroso e cruel beijo-adeus, salpicado de soluços e de desesperanças; um adeus de real despedida; e para sempre, pra lá de último, em meio a tanta alegria-dor, e na mais triste das tristezas e quase sendo morte.
E foi, com certeza, e simultaneamente, um dos mais terríveis e encantados momentos e talvez o mais belo dos minutos daquelas duas vidas: o de pedir e o de receber, com deliciosa e feliz cumplicidade, o mais desejado e ansiado perdão pedido e atendido.
A única testemunha presente não pôde perceber se as lágrimas da emoção desceram por aqueles pares de olhos porque se esconderam, sorrateiras nas almas dela e dele; apenas vira rebrilhos de longevos e velozes pedaços de deslumbres, navegando pelos mares daqueles dois pares de olhos, que energizavam o afetuoso sorriso, a naufragar-se nas adocicadas lágrimas de uma realentada e deslumbrada Maria, abarrotada de felicidade e, ao mesmo tempo, de uma quase explosiva e longuérrima emoção tão carregada de dor, saudade e tristeza, que parecia estar a dar uma volta em torno do nosso planeta.
Ele, poucos dias depois desse último encontro, transportou-se para o universo dos espíritos, deixando filhos e netos. Maria, ainda hoje, continua sozinha, com uma irmã, vivendo da só lembrança daquele seu lindo, envolvente, único, grande, eterno e inesquecível amor e sem seu gato de estimação, e registrando para a sociedade o seu exemplar e bondoso modo de viver sozinha, sem mágoas, sem se considerar sofredora e sem jamais ferir nem perturbar qualquer ser humano.
A bem da vida, Maria sempre foi, é e será um fascinante e especial exemplo de beleza humana; um formidável modelo de paciência e equilíbrio santos. E Deus, com absoluta certeza, sempre a protegerá aqui e continuará a protegê-la, quando transmudar-se para o outro momento de vida.

Do livro: MINHA ALDEIA VOLUME I

João Bosco Soares dos Santos
Salvador - Brasil

 
 
 

 

 

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