O AMOR PELAS ARTES CONSOLA A PINTURA DOS ESCRITOS RIDICULOS E ENVENENADOS DE SEUS INIMIGOS

Louis Lagrenée (1725 – 1805, Francês)

 

MEMORANDO DE FOGO
(Poesia Livre II)

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PREFÁCIO
SOBRE A POESIA DE CARMO VASCONCELOS

Por Domingos Lobo


Falarei da poesia de Carmo Vasconcelos globalmente e não só deste “Memorando de Fogo”. Conheço a sua obra e tive o prazer de apresentar o seu livro “Geometrias Intemporais” aquando do seu lançamento no ano 2000, livro com o qual a autora se estreia na difícil função de escrever – para mais tratando-se de poesia, a arte suprema desse labor.
A poesia de Carmo Vasconcelos reconduz-nos a um tempo em que as palavras eram primordiais, carregadas de símbolos, transmissoras de sentimentos, emoções e saberes em aristotélica harmonia. Saberes que de longe nos vêm, urdidos como a lã, o linho, aos quais basta acrescentar a memória, os sentidos e o vivido para se tornarem obras estimáveis e credoras do nosso apreço.
A poesia tem tempo? Ou seja, há um tempo para além do qual a poesia se desvirtua, perde actualidade, acutilância, sentido? A poesia deve estar sintonizada com o seu tempo, com o seu tempo factual? As estéticas de grupo ou de modismo, as concepções ideológicas que serviram de esteio a muita da poesia portuguesa do século XX, poderão, ainda hoje, condicionar a criatividade, num tempo em que todos os caminhos são possíveis, todas as opções legítimas? Os teóricos de Cadernos de Poesia (1940/51), defendiam, numa tentativa de criar espaços entre presencistas e neo-realistas, que a poesia é só uma, porque afinal não há outra, acrescentando que a expressão poética, com todos os seus ingredientes, recursos, apelos aos sentidos, resulta de um compromisso: um compromisso firmado entre um ser humano e o seu tempo, entre uma personalidade e uma sua consciência sensível do mundo.
O poeta, enquanto criador literário de absolutos, no dizer de Teodorov, tem um compromisso, também ele absoluto, com o seu tempo, com a forma sensitiva com que exprime esse tempo, com a consciência que dele tem e se revela no acto de escrever. Porque a poesia é, em abstracto, um olhar sensível sobre a vida e o vivido: nas paixões, nas dores, nas utopias (e não há vida que resista sem utopias), na ânsia de definir o indefinível. A poesia é, assim, um acto de permanente transgressão. Porque o poeta, o olhar do poeta, é incómodo, vai mais longe esse olhar do que o do comum dos seus contemporâneos – o poeta perscruta o indizível, diz o indizível e ao fazê-lo cria o conflito. O acto poético é sempre um permanente estágio de rebeldias: na forma, nas imagens, nos signos – é essa rebeldia que o transfigura, que o transfere para o futuro.
Assim, a poesia de Carmo Vasconcelos, não se constrói sobre um tempo definido, está aí, atenta, convergindo com o seu/nosso tempo, a dizer-nos que a poesia é um processo vivo, dinâmico, em constante mutação e que há uma só poesia na diversidade das vozes que a constroem, que a pluralidade é um valor em si determinante – é esse ecletismo que torna a arte contemporânea um espaço de experiências sempre renováveis, sedutoras e aliciantes.
O trabalho dos criadores é um trabalho, na sua essência, contra a corrente, fora do consumismo, antecipador do futuro (Fernando Dacosta, Visão, 31 de Agosto de 2000). É por isso que os poetas raramente são exultados em vida, raro têm o reconhecimento da maioria dos seus contemporâneos (as excepções só complicam a regra), porque os poetas, estando embora com o seu tempo, vão à frente dele, são arautos do devir, antecipam o futuro (F.D., idem) – e isso é imperdoável.
E porque eu disse que falaria desta autora globalmente - a poesia de Carmo Vasconcelos é uma poesia sem tempo, feita de muitas influências que fizeram o melhor do nosso tempo. Lembrando Botto no ritmo, na sintaxe, Gomes Leal em poemas de registo social, mas, curiosamente, é uma poesia que apesar de beber em algumas fontes longínquas, nos está perto, comunga connosco o nosso sentir de hoje, as nossas interrogações mais profundas e perenes. A autora constrói uma poética dos sentidos, do corpo, com inusitada desenvoltura, criando uma estrutura linguística que nos conduz ao reencontro com o cerne da poesia, esse, sim, intemporal. A poesia que tem a beleza, o amor como construção de plenitude, do amor como um absoluto. Carmo Vasconcelos consegue também a coragem de nos mostrar a poesia como acto de denúncia, de desmontagem de convenções sociais, indo contra a corrente, reconduzindo o amor à sua dimensão natural, não apenas do corpo e dos sentidos, mas visando mais longe e mais fundo. Há nela um gosto pelas palavras incomuns ao universo poético feminino, imprevisíveis numa poética que se constrói sobre planuras: sapos, silvas, vampiros, morcegos, geometria, equação, convergência. Mas também pelos vocábulos que fazem uma certa lírica do círculo, a lembrar Gedeão, na métrica, no ritmo.
A poesia tem um tempo, é evidente, e cada tempo tem a sua forma, a sua expressão, a sua definição, mas a essência do acto poético talvez resida, no dizer de David Mourão Ferreira, na beleza. A beleza enquanto condição essencial da poesia. A beleza (ainda Mourão Ferreira) ainda continua a ser um critério substantivo. Quase todos os outros critérios são adjectivos. E a beleza está presente na poesia de Carmo Vasconcelos.

DOMINGOS LOBO
(Ficcionista, poeta, ensaísta)

 

(POEMA DE ABERTURA)


MEMORANDO DE FOGO
Carmo Vasconcelos


Sobre a película gasta e difusa
deste filme saturado
das legendas absurdas da existência,
gravo, dia- a- dia,
com dedos acesos de sangue,
um memorando de fogo:

“Que de mim nunca se apaguem...
A ousadia de comediar o drama,
a coragem de manipular carências,
a audácia de exorcizar memórias,
a volúpia de reexperimentar o amor,
a sedução de reinventar poemas!”

Carmo Vasconcelos

 

ÍNDICE

(clique em "pág. X")

Pág 2 Pág 3 Pág 4 Pág 5
A CRIA A VIAGEM CHEGASTE DESDOBRAMENTO
A NOITE ALGEMAS DE OIRO

CIRURGIA URGENTE

DIAMANTE

A PEÇA

ANTES DE TI CLARIDADES

ESFINGE TATUADA

A PEDRA BASTA …

DAS MARGENS…

FERI-ME
A SENHA CEGUEIRA

DE REPENTE

HOJE

Pág 6 Pág 7 Pág 8 Pág 9
LIBERTAÇÃO O MEU SILÊNCIO OCASO

SOMENTE UM POEMA…

LONGE DE AZUL

O PESCADOR DE PÉROLAS

OFERENDA

TERRA QUEIMADA

MARIONETAS O REGRESSO PARTISTE DE MIM TOCASTE-ME

MOMENTO

O RETRATO PERPLEXIDADE TRÉGUAS!
O LIMITE O SINAL

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 

 

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