REVISTA

LITTERAMUNDO

Nº 1 - NOV 2014

Revista Digital do Movimento União Cultural

 

NICODEMOS SENA

 

A GRANDE ARTE AMAZÔNICA
Por NICODEMOS SENA


Muitos escrevem sobre a Amazônia, mas poucos a compreendem. Alberto Rangel, por exemplo, escreveu “Inferno Verde” (1912), um livro qualificado por Euclides da Cunha como “bárbaro, construído de verdades”. Mas Alberto Rangel titubeou na vertigem do deslumbramento, o mesmo deslumbramento que levou Gaspar de Carvajal (frade que acompanhou Francisco de Orellana, em 1542, na expedição que descobriu o rio Amazonas) a mencionar em seu relato as índias guerreiras, as lendárias “icamiabas” ou amazonas. O deslumbramento aproximou o discurso acomodado dos frades cronistas e a peroração crítica de Alberto Rangel, mas este trocou a melíflua exaltação da terra descrita como um “paraíso” pela ferina denúncia social. Na terra farta e a crescer na plenitude risonha da sua vida agitava-se, na verdade, um “inferno”, no qual o homem, miseravelmente, estava morrendo.
Indeciso entre o ensaio sociológico e o romance, com seu estilo carregado de adjetivos e descrições descoladas da narrativa, “Inferno Verde” é obra defeituosa, mas nenhum crítico ousou negar-lhe a força das denúncias. Crucificada numa seringueira, com seu sangue a escoar-se nas tigelinhas fincadas pelo amante vingativo, a cabocla Maibi é a imagem da própria Amazônia do ciclo da borracha, mutilada pelos golpes das machadinhas dos seringueiros e oferecida em pasto de uma indústria que a esgotava. Alberto Rangel pôs o dedo na chaga que a República não foi capaz de fechar: a exploração sem lei, a escravidão branca, não como exercício de simples crueldade, mas como o resultado dos “interesses do Capital”. Pela primeira vez, na ficção, fez-se crítica contundente ao latifúndio na Amazônia. O coronel Roberto, com seus jagunços e o falso título de propriedade comprado na cidade, é o apuiseiro social, o “polvo vegetal” (cipó que se enrola à árvore sacrificada, estendendo sobre ela seus milhares de tentáculos até devorá-la por inteiro). Já o posseiro Gabriel, que termina se enterrando vivo em seu quinhão em vez de entregar a terra ao coronel, é a pobre árvore engolida pela ambição.
Alberto Rangel enxerga, todavia, na Amazônia, apenas o remoto confim do reino da endemia do beribéri e impaludismo, terra de degredados, farta mas ocupada por miseráveis, onde vive um povo triste e reservado, exilado em sua própria pátria. Esse traço pessimista e lúgubre que atravessa o livro impede que o libelo ultrapasse o terreno da piedade. A visão impressionista impediu que Alberto Rangel enxergasse a verdadeira face, a face oculta, da Amazônia. Ele sentiu na pele as picadas dos espinhos, dos piuns e carapanãs, aspirou a fragrância da vegetação e o miasma pestilento dos pântanos, expôs-se à carícia dos ventos e à vergasta das tempestades, submeteu-se ao aguilhoar do sol a pino, mas não penetrou nos interstícios da cultura, acessíveis apenas aos que, vencido o deslumbramento inicial, fermentam a experiência no odre antigo da vivência, como fizeram o romancista português Ferreira de Castro e o poeta gaúcho Raul Bopp.
“A Selva” (1930) é um romance com carne e sangue de gente vivida, amassado no seringal. Com ele, Ferreira de Castro mostra a realidade mais profunda das terras do Grande Vale e a luta travada para tornar essa região chão de homens e de vida. “Cobra Norato” (1934), por sua vez, é o melhor poema amazônico e um dos dez melhores do Brasil. Para escrevê-lo, Raul Bopp mergulhou num sonho profundo por entre as raízes brasileiras, de onde emergiu trazendo “o Brasil nos dentes”, na linda expressão de Oswald de Andrade. Mais que simples “turistas aprendizes” deslumbrados com o exotismo natural da Amazônia, Ferreira de Castro e Raul Bopp penetraram no âmago mais obscuro da nossa gens primitiva e rude e encontraram o tempo interior dos fenômenos. Sem esquecer os paraenses pioneiros Inglês de Souza (“O Missionário”, 1891) e Abguar Bastos (“Terra de Icamiaba”, 1929), devemos reconhecer que os “forasteiros” Ferreira de Castro e Raul Bopp nos legaram a fórmula da grande arte com temática amazônica.

NICODEMOS SENA

O AUTOR:
Nicodemos Sena é desde 1º/outubro/2014, CONSELHEIRO CULTURAL INTERNACIONAL DO MOVIMENTO UNIÃO CULTURAL (sua segunda função junto ao Movimento). Romancista paraense (Santarém,1958), radicado em Taubaté-SP, autor de “A espera do nunca mais”, Prêmio Lima Barreto-Brasil 500 anos (Rio de Janeiro, 2000). Presidente da Associação Cultural LetraSelvagem; Diretor da UBE – União Brasileira de Escritores/SP e Conselheiro-Geral do Núcleo do Vale do Paraiba da UBE/SP; Diretor Cultural do Clube dos 21 Irmãos-Amigos de Taubaté.

 

 

 

ALESSANDRO BERTHOLLI

 

EU SOU DIONÍSIO...
Por ALESSANDRO BERTHOLLI


Olá amigos do Movimento União Cultural, do Clube dos 21 Irmãos Amigos de Taubaté e demais leitores. Como Conselheiro Cultural Internacional do Movimento União Cultural e Assessor de Teatro do Clube dos 21, eu, que sou ator e produtor teatral, inicio uma sequência de matérias a respeito da história do teatro e posteriormente uma série de entrevistas com atores, atrizes, produtores, autores e demais profissionais integrados as artes cênicas. Tudo com o intuito de deixar vocês a par dos “bastidores” e conhecerem um pouco mais deste fantástico universo das artes cênicas. Então vamos lá, desejo a todos uma boa leitura.


EU SOU DIONÍSIO...


O teatro teve sua origem no século VI a.C., na Grécia, surgindo das festas dionisíacas realizadas em homenagem ao deus Dionísio, deus do vinho e da fertilidade naquela época, posteriormente também passou a ser o deus do teatro. Essas festas, que eram rituais sagrados, procissões e recitais que duravam dias seguidos, aconteciam uma vez por ano na primavera, períodos em que se fazia a colheita do vinho naquela região. O teatro grego que hoje conhecemos surgiu, segundo historiadores, de um acontecimento inusitado. Quando um participante desse ritual sagrado resolve vestir uma máscara humana, ornada com cachos de uvas, sobe em seu tablado em praça pública e diz: “Eu sou Dionísio!”. Todos ficam espantados com a coragem desde ser humano colocar-se no lugar de um deus, ou melhor, fingir ser um deus, coisa que até então não havia acontecido, pois um deus era para ser louvado, era um ser intocável. Este homem chamava-se Téspis, considerado o primeiro ator da história do teatro ocidental. Ele arriscou transformar o sagrado em profano, a verdade em faz-de-conta, o ritual em teatro, pela primeira vez, diante de outros, mostrou que poderíamos representar o outro. Este acontecimento é o marco inicial da ação dramática.
Em 1991, quando iniciei o curso de artes cênicas no extinto " Barracão do D.E.C.” que era um anexo do departamento de Educação e Cultura, situado a praça 08 de Maio em Taubaté, onde tínhamos o cursos, oficinas, apresentações de teatro, música, dança, exposição de artes plásticas, dentro outras manifestações artísticas, ao tomarmos ciência da história de Téspis, o meu colega de palco e amigo até a presente data, Anibal dos Santos, com seu senso de humor único, disse ao nosso professor: “ Este tal de Téspis devia estar muito bêbado, por isso que quem faz teatro é só louco mesmo...” E o nosso professor achou a colocação dele descabida e desrespeitosa, além de um belo puxão de orelha, um longo sermão e menos um ponto na nota de avaliação final, Anibal foi ganhou de nós o apelido de “Anibal, o terrível”. São histórias pitorescas assim que aconteceram e acontecem que pretendo dividir juntamente com a informação precisa com todos vocês, saudações e até a próxima semana.

ALESSANDRO BERTHOLLI

O AUTOR:
Teatrólogo, ator, Mestre de Cerimônias, é desde 1º/novembro/2014, CONSELHEIRO CULTURAL INTERNACIONAL DO MOVIMENTO UNIÃO CULTURAL (sua segunda função junto ao Movimento). Assessor de Teatro do Clube dos 21 Irmãos-Amigos de Taubaté.

 

 

 

JOVITA CAPITÃO

 

 PODERÃO AS LETRAS SALVAR O MUNDO?
Por JOVITA CAPITÃO


Ai as letras! Eu perco a cabeça com elas. Quantas vezes brincam comigo às escondidas e ando atrás delas a ver se consigo escrever! Ai as letras! Suspiro sem dó à procura do “d” e do “o” que, numa dança entre linhas escondem os seus corpos redondos. Ai as letras! Se elas soubessem o que vai na minha cabeça, fluiriam melhor. Não é que elas não fluam, mas há uma coisa nelas que me chateia. São livres, soltas, pachorrentas. Acham que têm todo o tempo do mundo para a brincar comigo. Eu, é que não tenho o tempo delas. Para mim, o tempo escasseia, como escasseia a comida para alguém que tem fome. O tempo escasseia como a paz, que tanta falta nos faz. Tememos sempre aquele dia, que um dia nos leva daqui para um lugar desconhecido. Esse dia, que pode ser em qualquer dia, é o nosso desconforto. Quem me dera ser eterna como as letras e perpetuar os meus pensamentos! Ai as letras! São elas que me fazem sonhar e achar que o tempo ainda é longo! Quando escrevo, viajo por mundos diferentes e distantes. Chego a pensar, que viajo no tempo, mas num outro tipo de tempo. Como se abrisse uma brecha e encontrasse uma marca, uma diferenciação, um ferro de queimar. E queima. Oh, se queima! Queima quem escreve e quem lê. Quem lê muda a sua forma de pensar, molda-se àquilo que aprende, a tudo aquilo que é novo. Mas quem escreve, fica condenado a perpetuar as palavras na sua mente como fortes tochas que jamais se apagam. Assim é a escrita para mim. Ela ilumina o meu caminho e descubro infindáveis sinergias a todo o momento. Ai as letras! Eu acredito que posso ser como elas. Livre, solta, pachorrenta. Gostava de poder sonhar, escrever, criar, amar… para sempre. Quem não gostaria? Haverá alguém que não gostasse de ser eterno como as letras? Desconheço. Mas do desconhecido, posso fazer o conhecido. Desbravando terrenos arenosos, transformando-os em belas frases, textos, romances… É assim, que as letras funcionam. Nem elas sabem o poder que têm. Agora por isso, lembrei-me de uma questão: Poderão elas a salvar o mundo? Quem sabe? Nunca saberemos, pois não somos eternos. Mas as letras! Ai as letras! Elas o são, certamente!

JOVITA CAPITÃO

A AUTORA:
Jovita Capitão, nasceu em Lisboa/Portugal a 14/setembro/1985, e é desde 1º/novembro/2014, CONSELHEIRA CULTURAL INTERNACIONAL DO MOVIMENTO UNIÃO CULTURAL (sua terceira função junto ao Movimento). Iniciou a sua caminhada literária aos 9 anos de idade e nunca mais parou. Escreve poesia e prosa nas suas mais variadas vertentes. Já participou em duas colectâneas de poesia, fez alguns trabalhos como freelancer para websites e blogues e mantém desde 2011 um blogue de cunho cultural e literário onde expõe mundial e publicamente a sua escrita.
Blogue oficial: http://rainhadasinsonias.blogspot.pt/