Abril de 2016
Ano VI - Número XV

 

 

 

 

A CHAVE NO PONTO DE ÔNIBUS
por Rozelene Furtado de Lima 

 Chamava-se Olinda e detestava seu nome de batismo. Quantas brincadeiras irritantes faziam com o nome dela, quando tinha que falar seu nome ela dizia: - Pode me chamar de Lindinha. Certo dia a vizinha que chegava a casa com a filhinha de cinco anos, cumprimentou-a: - Tudo bem Lindinha? A menina olhou para ela e falou séria: - Mãe, ela não é linda, não seja falsa. Lindinha soltou uma gargalhada e respondeu à menina: - Você é uma menina muito linda!
Lindinha gostava mesmo era de caminhar ao entardecer e numa dessas caminhadas, parou num ponto de ônibus onde tinha um abrigo para amarrar o cadarço do tênis. E sabe-se lá porque olhou para cima e viu uma pequenina chave pendurada em um prego no madeiramento do telhado do abrigo. Continuou a caminhada, mas a chavinha mexeu com a imaginação dela e mexeria com a imaginação de qualquer um. No dia seguinte parou no mesmo lugar colocou o pé no banco do abrigo e disfarçadamente olhou para cima e a chavinha estava lá. E fez assim durante um bom tempo só para ver se a intrigante chave estava lá penduradinha. Ela não conseguia esquecer a tal chavinha. Começou a caminhar cada vez mais tarde e sentava-se no banco do ponto de ônibus como se estivesse a aguardar algum coletivo, mas em verdade o que ela queria mesmo era ver se alguém pegava aquela chave.
A curiosidade na maioria das vezes é uma ponte para o perigo.

 

Até que um dia, quando ela estava sentada, mais ou menos às vinte e duas horas, um homem alto, magro, barba e bigodes pretos e bem vestido surgiu de repente e ficou parado fora do abrigo. Ela começou a sentir uma sensação de incômodo, ele era sinistro e meio assustador. Quando ele fixou o olhar nela ela rapidamente fez sinal para um coletivo entrou e saltou no ponto seguinte. Ligou para o marido e pediu que viesse buscá-la. Quando ele chegou pediu que a levasse até aquele abrigo de coletivos porque achava que tinha deixado as chaves de casa por lá quando amarrou os cadarços. Chegando lá fingindo que tinha achado as chaves de casa, olhou para cima e a chavinha não estava lá, nem o tal homem sinistro. Não conseguiu dormir, levantou-se cedo e foi ao local das preocupações dela. E... a chavinha estava lá, alguém pegou e depois recolocou no mesmo lugar. Precisava encontrar um cúmplice, alguém que quisesse ajudá-la a desvendar aquele segredo. Ela fazia mil conjecturas sobre a chave do ponto de ônibus.
Como o porteiro estava na entrada do condomínio que ficava do outro lado do abrigo do ônibus, ela aproximou-se procurou conversa, perguntou se tinha alguma casa para venda. Ele falou que tinha uma que estava a venda há bastante tempo, quando a venda da casa ia ser efetuada, na última hora o comprador desistia da compra. A casa era boa, estava em bom estado e o preço estava abaixo do valor de mercado. Ela para dar curso à conversa fez-se de interessada na casa. Ele ficou de ligar para a imobiliária e marcar com ela. E assim foi feito. E ela sempre de olho na pequenina chave. Quando o corretor abriu a porta da casa ela sentiu a mesma sensação que tinha sentido ao ver o tal homem sinistro. Entraram na residência que era bem mobiliada e limpa, como se alguém estivesse morando ali. O corretor comentou que uma faxineira ia lá duas vezes por semana para fazer a limpeza, mas ninguém conhecia os donos, o salário da empregada era depositado religiosamente em conta, isto acontecia há cinco anos. Quando entraram na suíte de casal, Lindinha empalideceu, as pernas bambearam, os olhos arregalaram e o corretor correu em seu socorro segurando-a: Você está se sentindo mal? O porteiro pegou um copo com água, ela demorou a melhorar. Lindinha perguntou apontando para uma foto na parede:- Quem são eles? O porteiro abaixou a cabeça e ficou calado. O corretor balançou a cabeça e disse que não sabia e completou: - Vamos ver os outros cômodos. Depois de ver a casa ela ficou de falar com o marido e dar uma resposta e perguntou: - Em que dia vem a faxineira? As quartas e sextas-feiras respondeu o porteiro. E Lindinha insiste:- a que horas ela vem? Chega sempre às oito horas, mas nunca sai no meu turno, pois nunca a vi sair.
Tem pessoas que já nascem com as lentes dos olhos da alma e veem coisas que ninguém vê.
Na sexta-feira Lindinha sentou-se no banco do ponto de coletivos às sete horas e meia, às oito horas em ponto uma mulher jovem, magra, alta, longos cabelos loiros e amarrados, muito pálida, entrou no condomínio. Lindinha esperou aparecer o porteiro e perguntou se aquela mulher que entrou era a faxineira. – Não vi, mas deve ser a faxineira, ela tem chave e entra direto. Posso ir falar com ela? Perguntou Lindinha. Tem uma cláusula no contrato com a imobiliária que é nunca trazer algum comprador nos dias de limpeza. Respondeu o porteiro.
Lindinha conversou com o marido sobre a casa e pediu que ele fosse com ela ver a casa. Ele comentou que não tinha interesse de mudar e nunca tinham falado sobre isto. Ela argumentou que era para uma amiga que queria vir morar na cidade. Ele sabia que não adiantava discutir com ela, aceitou e foi ver a tal casa. Como ele era engenheiro, achou a casa em excelente estado de conservação e muito bem construída. Quando ela entrou novamente na suíte de casal olhou de perto a foto e reconheceu o casal, era o homem sinistro e a faxineira. Estava desvendado o caso da chavinha. Devia ser uma história de um amor impossível, pensando assim sentiu-se feliz com o fim da investigação. E Lindinha perguntou novamente ao corretor para saber se só ela sabia o caso da chave: - Quem é esse casal que está na foto? O corretor pensando que ela seria a nova moradora do condomínio e respondeu: - Eram os donos da casa e como não tinham herdeiros um amigo próximo pôs a casa à venda. Eram casados e passavam férias e feriados aqui e na última vez que vieram, quando voltavam para cidade onde moravam e trabalhavam sofreram um acidente terrível de carro e não sobreviveram.
Lindinha saiu imediatamente dizendo que não era o tipo de casa que estavam procurando e sem entender o porquê dela ter vistos os dois.
Passado algum tempo ela passou por lá, a chavinha e o prego não estavam mais no lugar e conversando com o porteiro ele contou que a casa tinha sido vendida e o mais interessante é que a faxineira nunca mais apareceu.

Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis- Rio de Janeiro-Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

Rozelene Furtado de Lima - Bibliotecária, prof., contista, poeta, artista plástica. Coautora em mais de trezentas e cinquenta Antologias nacionais e internacionais. Publicações em diversos países. Quatro livros editados; Membro de diversas Academias de Letras e Arte; Prêmios nacionais e internacionais em Literatura e Artes Plásticas. 1º lugar no concurso Sem Fronteiras pelo Mundo da Rede Mídia Jornal Sem Fronteiras-2016

 

 

 

“DEVEMOS VER COM OS OLHOS LIVRES”
Por Ruth Farah Nacif Lutterback 

 

Em noite clara, vemos no céu um número imenso de estrelas, cada qual mais cintilante com o seu brilho próprio. Lamentavelmente, nem todos conseguem apreciar o que a natureza nos oferece. Às vezes, convivemos com pessoas que só têm olhos para a inveja, o desamor, o desprezo, o fausto, o supérfluo...
Como é bom “ver com os olhos livres”, com a mente tranqüila, fllutuando vagarosamente qual um balão, levando a certeza de um amor profundo e paz no coração.Portanto, ver com os olhos livres é simplesmente amar Para quem não ama, tudo é solidão. Seu coração é indiferente, egoísta, não se delicia com os encantos da Natureza, o trinar das aves, o desabrochar das flores, a meiguice de uma criança...
Com os olhos livres, vemos em cada ser um irmão. O olhar sadio mantém o coração livre da opressão da consciência.Nas escolas, o professor consciente dessa capacidade poderá estruturar o “eu” de cada aluno. Aguçando a sua sensibilidade, ele também verá com olhos livres, amando o natural, o amigo, a música, a poesia.
O resultado desse esforço será um novo transmissor para uma vida mais bela, de respeito, exalando amor por todos os cantos do mundo, conseguindo atravessar a “ponte” entre o velho e o novo “eu”. Ver com os olhos livres é a garantia de bom astral, de espírito sadio, sem preconceitos de qualquer natureza

É superar as intempéries, surfando feliz pelas turbulências da vida, É o real desejo de ser “mais gente”, com capacidade de fazer triunfar o amor na formação de indivíduos, na construção social e, consequentemente, de um mundo mais rico e melhor para todos. Com os olhos livres, podemos ver o verdadeiro sentido da vida inclinando-nos para a virtude, o único e inexorável caminho para a felicidade. Levantemos a bandeira da libertação do egoísmo, das inimizades, do racismo, da imprudência. Assim estaremos abrindo as portas ao governo, à cultura, à civilização, ao desenvolvimento.
Não somos inferiores nem superiores. Nós somos apenas nós, que nos esforçamos em pensar grande, para afirmar como Oswald de Andrade: “DEVEMOS VER COM OS OLHOS LIVRES”!

Ruth Farah Nacif Lutterback
Cantagalo – Brasil

Ruth Farah Nacif Lutterback nasceu no dia 11 de abril de 1932 em Cantagalo/RJ.
Professora Primária Estadual aposentada. È Delegada da UBT de Cantagalo, organizando, anualmente, seus Jogos Florais. Chefe do Departamento Cultural da ASSEXCA, promove concurso de trovas para a JUVENTROVA.
Obteve cerca de duzentas premiações em prosa e verso no Brasil e no exterior, figurando em várias Antologias literárias, entre as quais "Devemos ver com os olhos livres" da ABL e FD. Deu nome à "Sala de Sonhos Ruth Farah Nacif Lutterback" _ Biblioteca Escolar. Participou do Colóquio Internacional "Caminhos da Memória", no Rio de Janeiro , a convite da UNESCO.