Junho de 2016
Ano VI - Número XVI

 

 

 

 

CAUBY!CAUBY!
Por Ronaldo Werneck 
 

 

A recente morte de Cauby Peixoto me fez lembrar a canção que Caetano Veloso escreveu para ele, e que foi título do álbum gravado em 1980: “Lembro eu deitado na relva/ No frio da manhã/ Numa clareira da aldeia Tupy/ Entre mil pássaros só uma voz/ Uma voz, minha mãe/ Música doce/ Chamando meu nome/ Cauby! Cauby! “. Lembrei-me também de “Bastidores” a canção de Chico Buarque, aquela do “Cantei, cantei/ Nem sei como eu cantava assim/ Cantei, cantei/ Jamais cantei tão lindo assim” – um de seus carros-chefe. E, claro, “eu me lembro muito bem”, e sempre, de “Conceição”, a música de Dunga e Jair Amorim por ele imortalizada.
Em meu livro “Há Controvérsias 2” (Ed. Artepaubrasil, São Paulo, 2011), publiquei duas crônicas tendo como mote Cauby Peixoto, ou melhor, um dito ao acaso de minha irmã sobre ele. A tirada da Rosa acabou gerando os dois textos. Um deles, sobre pessoas que brilharam, que “arrasaram” em seu métier; outro, ao contrário, sobre o pessoal que “se ofuscou”, pisou na bola – literalmente aqueles que “desarrasaram”. Na segunda-feira, 25 de abril de 2012, véspera do lançamento do livro em São Paulo, li que Cauby iria cantar no Bar Brahma, onde às vezes vou quando estou em Sampa, ali naquela esquina famosa da Ipiranga com a Avenida São João. Resolvi assistir ao show e aproveitar para levar um livro pro Cauby, afinal ele era um dos personagens do dito cujo. Mas Cauby acabou não aparecendo e quem fez o show foi Elza Soares – que, aliás, e como sempre, “arrasou”.

 

Havia muito tempo que não o via, desde uma noite no Rio dos anos 1960 em que saímos de sua boate, o Drink, na Av. Princesa Isabel, e caminhamos – eu, Cauby e o baterista Afonso Vieira (que tocara com ele) madrugada afora até a porta de seu edifício no início da Rua Barata Ribeiro. Cauby morava nas proximidades de onde eu e Afonsinho nos “escondíamos”: no Edifício Richard, o famigerado “200”. Ele acabara de fazer magnífica performance, cantando standards do jazz numa jam-session no final da noite, e foi sobre isso que nós três ficamos conversando de pé ali, e noite adentro – Cole Porter, Gershwin e mais, muito mais – num tempo em que ainda se podia papear sem medo nas calçadas de Copacabana. Eu com o pescoço doendo de tanto olhar pra cima: o “professor” (como Cauby tratava as pessoas, qualquer pessoa) era alto, muito alto. De entortar qualquer pescoço.
Nunca mais o vi. Minto, passaram anos muitos anos quando num show do Marcos Valle naquela boate que ficava no subsolo do Hotel Méridien, depois que a Regine´s acabou (como era mesmo o nome? Acho que “Rio´s”, mas há controvérsias), percebi na mesa à minha frente, em meio ao lusco-fusco, o perfil da moça com muito chiquê, de longos cabelos ondulados, que tentei lembrar de onde conhecia. Súbito, ela se virou ligeiramente. Levei um susto: era o Cauby – ele que gostava de brocados, lamês & paetês e que sempre, dentro ou fora dos bastidores, “com muito brilho se vestiu”.
“Sim, eu me lembro muito bem” – assim começa uma das duas crônicas que escrevi sobre o Cauby. “O aniversário da Rosa estava acaba-não-acaba quando ela colocou para girar um disco com não sei quem cantando. Possivelmente a Elis, até hoje a preferida de minha irmã. A turminha começou a nomear seus cantores/cantoras preferidos, quando alguém tocou no nome do Cauby Peixoto. O pessoal caiu de pau no coitado do Cauby: ridículo, cafona, um repertório que vou te contar. Foi quando a Rosa mandou de lá: “É, pode ser, mas o Cauby arrasou na Conceição”. Nunca vou me esquecer daquele “Arrasou na Conceição”, uma tradução mais que perfeita da grandeza de qualquer um, artista ou não, mesmo quando ataca da “Conceição”, aquela que “vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem”.
A seguir, eu continuava elencando nas duas crônicas e por vários parágrafos uma série de “arrasos na Conceição”, de Ella Fitzgerald a Elis; de Cole Porter a Tom Jobim; de Jeanne Moreau a Giulieta Masina; de Truffaut a Fellini; de Nara cantando Lindoneia a Gal cantando Lily Braun; do show de Caetano para Fellini, em Rimini, ao mesmo Caetano de Força Estranha e do álbum Transa; do Vinicius do poema O Haver ao Maiakóvski de A Plenos Pulmões; do Lance de Dados de Mallarmé ao Barco Bêbado de Rimbaud; do João Cabral de Duas Águas ao Drummond de Elegia 1938; do Ungaretti de Mattina ao Keats de “A thing of beaty is a joy forever”. E também de “desarrasos na Conceição”: J. Edgard Hoover, o chefão do FBI, dando uma total “desarrasada na Conceição” ao falar sobre John Lennon: “Não há espaço nos EUA para algumas almas tímidas que pregam a paz a qualquer preço, nem para aqueles que entoam os slogans ´antes comunista que morto´ (better red/ than dead). Precisamos de homens e mulheres com capacidade para a indignação, para defender a causa da democracia”.
Mais tarde Hoover foi rebatido por Gore Vidal: “(...) Lennon era um inimigo nato das pessoas que governavam os EUA na época. Ele era tudo que eles odiavam. Eu diria que ele representava a vida, o que é admirável. E Nixon e Bush (e Hoover, acrescento) representavam a morte. E isso sim, é uma droga”. Em 1976, com Nixon já defenestrado do poder, Lennon ganha a causa e recebe o Green Card. Perguntado se tinha algum ressentimento, John arrasou geral na Conceição: “Não, acredito que o tempo se encarrega dos patifes”. Poderia acrescentar, hoje, que os senadores Lindeberg Farias e Vanessa Grazziotin andam arrasando na Conceição, em descompasso com Cunha & Temer, um só e tenebroso “desarraso”.
Termino esses “recuerdos de la Concepción” reproduzindo o parágrafo final de minha primeira crônica sobre Cauby in “Há Controvérsias 2”: “Madrugada dos anos 60: Copa-Leme. Antes de chegar em casa – vindo não sei de onde, nem sei como –, entro prum último drink na boate do mesmo nome, dos irmãos Araken, Moacir e do não menos Cauby Peixoto, o próprio. Fim de noite, fim de show, derradeiros bêbados em mesas separadas, garçons sonolentos, lusco-fusco. No palco, alguns dos músicos que restaram abrem uma derradeira jam-session: meu caro amigo Afonsinho na bateria (sua bateria, aquela “Conceição” que ele arrasava sempre), o jazzista Moacir no piano. Cauby acabara seu show, onde Conceição naturalmente fora a estrela. Copo na mão, cigarro na outra, volta ao palco e entra no embalo do improviso. Ataca de Cole Porter, sempre ele, um formidável I´ve Gotta You Under My Skin. Aquilo inoculou em minhas veias uma inesquecível sensação. Nunca mais ouvi nada tão intenso. Ali foi quando, sem o saber, Cauby realmente “arrasou na Conceição”.

Ronaldo Werneck
Cataguases-MG - Brasil
http://ronaldowerneck.blogspot.pt/

Ronaldo Werneck nasceu em Cataguases-MG, morou por mais de 30 anos no Rio de Janeiro e voltou a viver na cidade natal desde o final do século passado. Jornalista e crítico, colaborou com vários jornais e revistas cariocas: Jornal do Brasil, Pasquim, Diário de Notícias, Última Hora, Revista Vozes, Revista Poesia Sempre e Revista História, ambas da Biblioteca Nacional. Editor de Suplementos Literários, ensaista, tradutor e crítico de literatura, cinema e artes plásticas, tem textos e artigos publicados em vários veículos da mídia. Desde os anos 1990, assina a coluna "Há Controvérsias", publicada em vários blogs e no Jornal O Liberal, de Cabo Verde. É membro do Pen Clube do Brasil.

 

 

O MUNDO ACABOU EM CARNE SECA
por Rozelene Furtado de Lima 

 Acabara de colocar as crianças para dormir e olhava-as com carinho. Teve quatro filhos e três maridos, mas não sabia com qual dos maridos tivera dois filhos.
O primeiro marido era alto moreno, magrinho e trabalhador. Calado, silencioso e muito organizado. Morrera de acidente de moto. Ficaram juntos dois anos.
O segundo era um estrangeiro, cabelo ruivo estatura média e falava com dificuldade o idioma dela. Depois de três anos de casa desapareceu. Ela esperou, esperou e nada.
O terceiro tinha um temperamento descontraído, muito bom humor. Trabalhava como gerente numa fábrica de bebidas. Viveram dois anos juntos e felizes. Num final de semana ele foi buscar a mãe para morar com eles. A mãe estava viúva e sozinha. Ele voltaria no máximo em um mês, só o tempo necessário para resolver todas as questões da mãe. Dessa vez quem saiu da casa com os filhos foi ela. Tinha quatro filhos e tivera três maridos e não sabia com quem teve dois filhos. Morar com sogra nunca! Ligou para o pai que vivia num país vizinho e pediu para buscá-la.
Era pequena, magra, cabelos negros e sempre presos numa longa e muito bem feita trança. Que é que era atraente naquela mulher que tinha quatro filhos e tivera três maridos e não sabia com qual deles teve dois filhos? O dedo indicador estava fininho de tanto chupar e quando estava ocupada com os afazeres domésticos, disfarçadamente tirava uma chupeta de dentro do porta seios, sem chupeta o serviço não rendia. Ela sorria com os olhos e com o dedo na boca. Parece que essa atitude fascinava os homens.

 

 Era cuidadosa, caprichosa, dengosa e sedutora. Quando ouviu no rádio que o mundo ia acabar na sexta-feira ficou muito preocupada. Foi perguntar ao seu mentor espiritual se podia ser verdade que o final do mundo estava próximo, ao que ele explicou: - ninguém sabe ao certo que dia o mundo vai acabar, mas viva como se fosse acabar na sexta-feira, faça tudo que tenha para fazer, aproveite a semana para colocar a vida em dia, faça o que você mais gosta e assim estará preparada para o final do mundo sem precisar mais se preocupar. Berenice foi pelos caminhos pensando no que ouviu, e pensou... Pensou... E pensou e continuou pensando. Quando chegou a casa beijou os quatro filhos e olhou demoradamente para todos e sabia que dois eram filhos de um dos três maridos, mas com qual dos maridos tivera dois filhos? No dia seguinte (quarta-feira) pela manhã falou ao pai que queria ir à cidade fazer umas compras. O pai mandou o chofer levá-la e recomendou ao empregado que não desgrudasse dela, ela poderia ir embora e ele amava muito os netos e a filha. Quando ela regressou das compras foi logo para cozinha e avisou a cozinheira –“quem vai fazer o almoço amanhã sou eu”. Dito e feito. A preparação começou na noite de quarta-feira, colocou a carne de molho para dessalgar. Fez um caldeirão enorme de feijão com carne-seca para o almoço de quinta-feira. Todos acharam deliciosa a feijoada. Ela comeu muito, mas muito mesmo no almoço e precisou tomar um chá digestivo. No jantar ela comeu mais do que no almoço. Passou mal à noite, foi parar no hospital. Pela manhã voltou para casa, deitou-se e ansiosa aguardou o Fim do Mundo. E ele não veio! E a cada semana ela aparava as arestas e embelezava-se por dentro e por fora: - não acumulava mais nada, sorria sempre, cultivava as amizades e o bom humor, amava com intensidade e aprendeu a conviver com as adversidades sem se lamentar e principalmente aproveitar o tempo, pois só tinha até sexta-feira quando “O Final do Mundo iria chegar” . E dessa forma ela passava a semana ocupada realizando coisas boas. Tinha decidido que quando o Final do Mundo viesse ela estaria prontinha para viagem derradeira. Esperava pelo Final do Mundo como se ele fosse um pretendente que a levaria para sempre. Imaginava que ele amorosamente carregava-a nos braços por um longo caminho sem volta e ela deixava-se conduzir cheia de felicidade. Até o vício de chupar o dedinho e a chupeta ela abandonou receosa de quando chegasse ao céu fosse rejeitada na seleção para ser anjo. Anjo não poderia ter defeitos.
E toda semana era a mesma coisa –comia feijoada com carne seca –e comia mais e sempre mais. Até que numa dessas sextas-feiras foi levada ao pronto socorro às pressas.
Finalmente ele chegou!!! Ela acompanhou-o com um sorriso nos lábios de satisfação!!!
No dia anterior, quinta-feira, ela tinha completado noventa e sete anos.
Ninguém viveu mais feliz e comeu mais feijão com carne-seca do que Berenice, a mulher que teve quatro filhos e três maridos e não sabia com qual deles tivera dois filhos, que dividiu a vida em semanas, viveu cada semana como se fosse a última, refinou o gosto pelo bem viver preparando-se para a chegada do tão esperado Final do Mundo
 



SAUDADE DOPRIMEIRO AMOR
Rozelene Furtado de Lima

Saudade é um hiato no sentimento
Semelha à folha levada pelo vento
Que se desprende com vontade de voltar
Filha do tempo que vive em qualquer lugar
Tem gosto de água fresca da fonte que doa
Que mata a sede e ao mesmo tempo abençoa
Envolvente, está sempre chegando
Com cheiro de terra e chuva arrumando
O berço para a semente de vida eclodir
Carinhosa, sedutora e prazerosa de sentir
Com humor sem definição, vezes alegria
Outras de solitária e triste melodia
Desenhada em teia na rede da memória
É o amor fazendo à vida uma dedicatória
Amorfa como o conceito de confiança
Saudade não é qualquer lembrança
Saudade é sombra amiga na estrada
Está sempre bem acompanhada
De momentos felizes que não voltarão
De pessoas que partilharam com coração
Tenho muitas saudades para desperdiçar!
Quanto mais lembro mais quero lembrar
Saudade ruim mesmo é do que poderia ter sido
Tudo que você e eu poderíamos ter vivido
Dentro do peito trago tatuada em flor
A preciosa saudade do meu primeiro amor



Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil

Rozelene Furtado de Lima - Bibliotecária, prof., contista, poeta, artista plástica. Coautora em mais de trezentas e cinquenta Antologias nacionais e internacionais. Publicações em diversos países. Quatro livros editados; Membro das Academias de Letras e Arte: Prêmios nacionais e internacionais em Literatura e Artes Plásticas. 1º lugar no concurso Sem Fronteiras pelo Mundo da Rede Mídia Jornal Sem Fronteiras-2016

 

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