Agosto de 2016

Ano VI - Número XLII

 

 

 

NÃO SEI NADA DA VIDA
Rozelene Furtado de Lima 

 

 

 

 

 

Acordo feliz por levantar
Saio para cumprir as obrigações
Durmo agradecendo por deitar
Só conheço a caixa das ilusões
Cheguei por vias entrelaçadas
Vim sem o índice do livro da vida
Naveguei numa placenta plasmada
Com data de validade vencida
Nunca sei se fujo ou me escondo
Vivo fazendo minha fiel poesia
Versos quadrados e redondos
Fazendo-me de oferta ao próximo dia
Dizem que a escolha é pessoal
Meu espaço íntimo é o universo
Como escolher de forma individual
Se a voz da multidão é o inverso?
Não sei nada da vida
Afirmam que sou eu quem provoca
O amor o desamor, a sorte o azar
Vou deixar fluir o movimento da ciranda
Às vezes, vem uma vontade de parar
Parar o que? Se não sou eu quem comanda
Quando vejo uma noite de luar
Uma infinidade de estrelas a luzir
Sinto que faço parte do plano criador
Minha glória é ser feliz e aplaudir
Em harmonia com a paz e o amor
Até porque não sei nada da vida

 

UM JACARÉ DENTRO DE CASA
por Rozelene Furtado de Lima



Raul foi visitar o irmão na cidade. Ele ficara no interior. Nascera com um defeito em um dos pés - “pé equino”. O pai sentia vergonha de apresentar à comunidade um filho, considerado por ele como “incapaz”, e pediu a mulher que cuidasse do menino em casa. Construiu um cômodo separado para o menino ficar. E nunca mais fez amor com a mulher com receio de ter outro filho com problemas. A criança saiu uma única vez com os pais para
ser batizado. Foi criado com carinho pela mãe, mas sem diálogo e orientado no colo da mãe natureza Não foi à escola, não tinha contato com outras crianças, só um priminho brincava com ele quando raramente a tia ia visitá-los. O tempo passou, o menino cresceu se fez homem. O pai morreu e alguns anos depois a mãe faleceu. Quase ninguém conhecia Raul. Sabia que tinha um irmão que foi estudar, trabalhar e morar na cidade.
Ficando sozinho, decidiu sair de casa, fazia compras no mercadinho e aos domingos caminhava até a pracinha, observava as pessoas e regressava para sua solidão. Não sentia falta de nada. É impossível sentir falta de coisas que não se conhece ou de pessoas de que nunca se ouviu falar.
Queria ver o irmão. Sabia que ele morava na cidade e resolveu visitá-lo. O dono do mercadinho disse que quando fosse buscar mercadoria o levaria até a casa de Felício.
Pode-se imaginar a alegria de Raul quando chegou à casa do irmão. A cunhada recebeu-o na sala, ligou a televisão e foi preparar um lanche. Raul tinha características físicas muito parecidas com Felício. Quando voltou à sala com o lanche o cunhado tinha sumido.
Encontrado escondido atrás do sofá, disse assustado: - “um jacaré enorme saiu daquele aparelho e queria me comer, depois veio uma bicicleta que se eu não saio da frente ela me atropelava e apareceu uma mulher quase nua me chamando para me dar um carro, quando ela entrou no carro e veio vindo pra cima de mim eu me escondi”.
Com cinquenta anos, nunca tinha visto televisão! Não sabia ler, nem conhecia luz elétrica. Era um sem noção! A cunhada custou controlá-lo e explicava, mas ele não conseguia entender nada. Procurava as pessoas atrás da televisão. Perguntava como que eles podiam ter bichos ferozes dentro de casa. E Raul ria. Um riso espantado. Um riso inocente. Um riso rasgado. Um riso amedrontado. Um riso difícil de desenhar. A expressão da ingenuidade abraçada com a ignorância. Um Raul pelo avesso um raio de luaR perdido entre a escuridão da noite e o alvorecer, no vácuo da vida.
Ela pegou o telefone e ligou para o marido pedindo que ele viesse rápido, um irmão maluco dele estava lá. Quando Raul viu a cunhada gritando num aparelho, foi demais para ele! Saiu correndo porta afora. Alcançou a rua, e correu muito sem destino.
Raul desapareceu. Procuraram, pediram ajuda aos vizinhos, aos amigos. Dois dias depois o encontraram na delegacia, estava com as mãos inchadas e roxas, tinha apanhado nas mãos. Ele passou por uma joalheria, entrou e pegou um relógio. – “Havia tantos que peguei um para mim”. Quem poderia compreender as dificuldades de um ser que foi condenado à prisão mental e acorrentado ao ventre maternal?

“- Quero voltar para o meu mundo e ser feliz!!! - "Vocês moram no inferno e aposto que a hora que eu for dormir o Coisarruim vem me espetar com aquele garfão.” Lá no meu ranchinho o céu faz mudanças para avisar como será o dia amanhã, as estrelas espiam de longe não veem pra dentro de casa, os pássaros cantam sempre o mesmo canto felizes e soltos, o rio desliza alegre sempre em frente, as folhas caem sempre no tempo certo, as flores não trocam de perfume, o galo canta sempre na mesma em hora. E não tem diabos prendendo e batendo nas pessoas. Aqui vocês estão todos descontrolados e perdidos. Quero voltar!
A felicidade tem um filho bastardo que mantém escondido – a ignorância.~


Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis- Rio de Janeiro-Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

Bibliotecária, prof., contista, poeta, artista plástica. Coautora em mais de trezentas e cinquenta Antologias nacionais e internacionais. Publicações em diversos países. Quatro livros editados; Membro das Academias de Letras e Arte: Prêmios nacionais e internacionais em Literatura e Artes Plásticas. 1º lugar no concurso Sem Fronteiras pelo Mundo da Rede Mídia Jornal Sem Fronteiras-2016

 

 

Última poesia ( meu eterno adeus)
(Para Luana D'Oliveira)
Samuel da Costa 

Um dia perpasso
O teu ser infindo
Para perder-me por inteiro
Reencontrar em ti de novo
No teu majestoso e belo sorriso
O sentido da vida

Vou navegar...
Para além das estrelas!
Percorrer o universo multicor
Na imensidão do teu ser perfeito
Perder-me por completo
No teu corpo incorpóreo

No altar dos Deuses
Vou escrever a última poesia
Para negra Valquíria...
Sagra o céu do deus Marte
Reverenciar a musa sagrada
A deusa encantada
Que perturba o meu sono
Em horas extremas

Parto!
Mais uma obra...
Para depois ir à guerra

Parto!
Para um mar de desespero e dor
De solidão sem fim...
Penso na possibilidade...
De não voltar mais
Flutuar no vazio sidéreo
Perder-me em ti por completo
Por fim... 

 

 

 

 

Samuel da Costa
Itajaí - Brasil

 

 

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