Abril de 2017

Ano VII - Número XLVl

 

 

Adélia Ege

 
 

ONDE MORA A FELICIDADE
Adélia Ege

A felicidade mora onde o
coração encontra aconchego
Onde a alma descança
Onde os olhos brilham de emoção
Onde o vento é suave como
pétalas de rosa encantada
Onde os olhos veem além do que é
Onde pisamos descalços com passos
leves como se de repente fossemos voar
Onde nossos corações batem suave
sem precisar acelerar
Onde nós nos perdemos e não queremos
nos achar
Onde nós pousamos mesmo que tenhamos
opção de outro lugar
É lá!

Creusa Adélia Ege - Brasil
em Alemanha


Creusa Adélia Ege, brasileira, enfermeira formada pela UNITAU em Taubaté S.P
Mora e exerce a profissao in Deutschland - Mora in Grafenau

 
 

 

Ademar Inácio da Silva (dema)

 
 

BRINCANDO DE "DUM-DUM"
Ademar Inácio da Silva (dema)

(Às crianças-estilhaços que se tornaram anjos na terra de leite e mel.)

Brincando de “dum-dum” eu morri,
não atirei em ninguém,
outros morreram também.
Ah, sim, eu era palestino,
como tantos outros meninos
que partiram como parti.

Abdallah, Abdallah!
Onde Meca estará?
Encostado a nós,
nascera o filho de Jeová.
Cadê a justiça de Amós?
( _ Olha por nós!)

Só areia sangrenta,
nada de montanhas azuis,
nossas casas ruídas, Jesus,
morte sem graça, nojenta,
tal como a sua na cruz.
Por que, por que, por quê?
Que fizemos para a merecer?
Tu te foste pendurado,
nós outros, soterrados.

Da terra de leite e mel,
por certo, nosso maná
foram as bombas de Israel.
Hamas, Hamas, Hamas,
por que ódio tão cruel?
Assim, a quem salvarás?

Eli, Eli, Eli,
Lamá Sabactâni!

Sou anjo nascido de chacina,
estilhaço de bombas assassinas,
que se achando distante da Kaaba,
ora espia essas almas diabas
expulsando mais almas meninas.

Ademar Inácio da Silva
Uberlândia – MG - Brasil
http://www.demasilva.com.br/
http://www.dema-neverlateland.blogspot.com


Ademar Inácio da Silva (dema) - Uberlândia, MG, Brasil. Graduado em Filosofia, Estudos Sociais e Direito. Publicou “Devaneios”, “Sabor de Pecado e outras essências”, “Solidão e outras tristezas” e “Conjecturas Poéticas”. Participação em antologias diversas.

 

 

Adriana Pavani

 
 

VIDA EM DESASSOSSEGO
Adriana Pavani,IWA

Violência e paixão.
Caos e medo.
O branco e o preto.
Desassossego...
Poesia e euforia.
Alegria e tirania.
O passo e a correria.
Desassossego...
Sol se pondo.
Hora passando.
Levantar cedo.
Desassossego...
Tempestade e calmaria.
Sentir a leveza que alivia.
Sonhar uma utopia...
É a vida...
Em desassossego!

Adriana Pavani,IWA
Barra Bonita - SP - Brasil


Adriana Aparecida de Oliveira Pavani, nascida em São Paulo/SP. Atualmente mora em Barra Bonita, interior do Estado. Tem participação em vários concursos literários e antologias (desde 2005 a 2016). Em 2010 publicou seu primeiro livro “Do caos à poesia”, pela editora Pragmatha. Em 2015, o segundo livro “Os Girassóis voltaram a sorrir” em parceria com Edições Costelas Felinas. É membro da IWA (International Wrighters Association) desde 2014.

 

 

Adriana Quezado

 
 

AMORE EM POESIA
Adriana Quezado

Italianos cansados,
Um país sem pão,
Sem labor,
Sem nada para sonhar.
O dinheiro sumira,
As doenças apareciam.
As mortes chegavam logo depois.
Sofrimento.
Angústia da situação.
Fugir da miséria era preciso.
No primeiro navio, embarcaram para o Brasil.
Era um "país de encantos mil" e povo acolhedor,
Uma esperança de uma vida melhor.
Com dinheiro ou sem dinheiro,
Havia força pra lutar.
O destino resolver-se-ia.
Não só de luta se vivia.
A bordo, o amore aconteceu.
Dois italianos se conheceram.
E apresentaram-se ao amore.
Amore de um coração só.
Mas se perderam na confusão do desembarque.
O amore gritou alto.
Falou, chorou.
Os corações se ouviram,
Atraídos como imã.
Na nova luta do dia-a-dia, construíram-se,
Fizeram história.
Ao se encontrarem, famílias se plantaram.
A colheita foi grande,
Grande de tudo.
Dignificaram o novo país com sua cultura, sua força e sua coragem.

Adriana Quezado
Fortaleza - Ceara - Brasil
http://www.recantodasletras.com.br/autores/adrianaquezado
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5580800

 

 

Alberto Cohen

 
 

A MENINA DA COPA DE SETENTA
Por Alberto Cohen


Seriam assim, então, todos os dias daqui por diante... Uma infinidade de nadas disfarçados de pequenos afazeres. O poder esvaíra-se de suas mãos tão rapidamente quanto demorado fora o deferimento da aposentadoria. Sentia falta das pessoas querendo soluções para seus casos. Lembrava que, na época, elas o aborreciam.
Após fazer a barba com o esmero dos que têm o tempo por passar, tomou café, acendeu um cigarro (precisava parar) e procurou no jornal diário as notícias que eram, ainda, do seu mundo embora não mais fizesse parte dele.
Inesperadamente, um nome no obituário: Angélica! O sobrenome o mesmo! Não era possível que fosse ela, tão jovem e cheia de vida! Devagar foi assimilando a realidade: Mais de trinta anos haviam se passado desde a última vez que a vira.
Década de setenta. Brasil tricampeão. O povo nas ruas. Lágrimas, abraços. Todos irmãos. E lá estava ela, morena, nariz empinado na arrogância de quem sabe o que quer. Não era nada mais que bonitinha, mas tinha alguma coisa que a tornava única. Talvez fosse a sua maneira de olhar, dentro dos olhos, ou, quem sabe, a desenvoltura com que caminhava no meio da multidão de eufóricos e bêbados. Ninguém a tocava. Passarelas se abriam à sua frente, fechando-se logo depois de sua passagem. Era a irmã, ou a namorada de cada um, quem passava.
De repente o encontrão predestinado a juntá-los. Um sorriso, um toque de mão e a nítida percepção de que seriam um do outro.
Namoro intenso, quase passional, porém um curso, muito importante para a formação profissional dele, arrastou-o para o outro lado do Brasil. As últimas palavras dela, no aeroporto, foram: “Estamos nos perdendo”.
Um ano envolvido com estudos e noitadas na cidade hospedeira fizeram cessar a correspondência entre os dois. Achava que no seu retorno tudo seria como antes. Não foi. Ela havia casado. Morreu mil vezes até conseguir um encontro em lugar público com aquela que, agora ele sabia, era a mulher de sua vida.
Em poucas palavras, racional como sempre fora, ela eliminou qualquer esperança que pudesse haver. Ainda o amava e achava que esse amor seria para sempre. Casara com um primo e amigo que a apoiara em seu abandono e solidão. E finalizou: “Nasci para ser fiel e jamais trairei o meu marido, mesmo contigo”. Recusou a súplica de um último beijo e partiu sem olhar para trás.
O mundo e o tempo cauterizaram parte das feridas e eles viveram suas vidas possíveis, sem aquele grande amor desperdiçado.
Agora o jornal dava a notícia de que ela se fora, sem retorno. Acendeu mais um cigarro para justificar com a fumaça as lágrimas e se pôs a recordar como ela era bonitinha naquela Copa do Mundo de setenta.

(22 de outubro/2005 - CooJornal no 447)

Alberto Cohen - Advogado, poeta e escritor
Belém - PA - Brasil
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-048.htm