Abril de 2017

Ano VII - Número XLVl

 

 

Elói Fonseca

 
 

A SEDUÇÃO DO PALHAÇO
Elói Fonseca

Noite fria de julho. Amanhã inciam-se as aulas.
Lábios trêmulos com fumaça na boca, o rapaz
tão sozinho abraça o casaco.

Passos vagos no andar de andarilho, pisoteia o
tapete de ouro dos ipês amarelos da praça.
E, na travessia da área baldia do lado, o moço
na areia estendida com ímpeto enterra o calçado.

Agora a escuridão é rainha e na ansiedade mastiga
o moço à saliva. Quando de repente mas não tão
de repente, o homem de preto e do canhão o som
forte esquarteja a mulher após um sussurro no rosto
da vítima da faca de ponta. Os gritos se abrem.

Os anjos têm sexo no azul e no rosa cintilam as asas
nas nuvens de tábua das cordas erguidas.
Já os homens têm plexo no globo da morte e no arco
de fogo engolem a fumaça da pipoca sem sal nas
tochas acesas do picadeiro em cores.

Termina o espetáculo e as dançarinas de rumba sob
o trovão da chuva de prata reverenciam o palhaço na
entrega da flor à moça bonita de olhos de mel.

Na porta do circo já de luz apagada e multidão dispersada.
"Que é de Maria?"
"Pai, ela fugiu com o palhaço".

Novamente na praça, o moço sozinho acende o cigarro
na vereda escura com uma estrela a chorar pela fuga da lua.

Elói Fonseca
São Paulo - Brasil

 
 

 

Emanuel Medeiros Vieira

 
 

HOMEM DIANTE DO MAR
Emanuel Medeiros Vieira

Homem diante do mar
(instância interrogativa).
Precária caravela.
E finita: a vida

Trapiche:
o homem só contempla
(desembarcado).

No estatuto da memória:
ele se interroga, nunca mais a ação.

No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço.
Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço.

(Mátria: sou apenas um homem diante do mar.)

Desterro: instante convertido em sempre.

O homem desembarcado só pode viver de memória: diante do mar.

Emanuel Medeiros Vieira
Brasília - DF - Brasil


Emanuel Medeiros Vieira - Nascido em 1945, em Florianópolis, Santa Catarina, BRASIL.
Tem 23 livros publicados. É detentor de prêmios nacionais e internacionais.
Sua obra foi tema de Dissertação de Mestrado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em 1995.
Foi elogiado, entre outros, por Carlos Drummond de Andrade, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, Carlos Appel,João Gilberto Noll e Anderson Braga Horta
.

 

 

Érica Azevedo

 
 

DESAJUSTE
Érica Azevedo

Uma borboleta intrusiva
insiste
entrar no casulo.

O experimento do mundo
fora demasiado doloroso.
(Confraria Poética Feminina, Penalux, 2016)

Érica Azevedo
Santo Estevão - Bahia - Brasil
http://ericazevedo.blogspot.com.br/


Érica Azevedo é graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mesma instituição em que se especializou em Estudos Literários e defendeu o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural. Publicou seu primeiro livro, Vida em poesias (Edições MAC/ Feira de Santana), em 2002. Participou da coletânea Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (Escrituras, 2011) e Confraria Poética Feminina (Penalux, 2016). Finalista do II concurso literário do servidor do estado da Bahia (2015). Integrante da plataforma do Mapa da Palavra (http://mapadapalavra.ba.gov.br/erica-azevedo/). Edita o blog Outros Diálogos (ericazevedo.blogspot.com).Seu livro mais recente é Outros Eus (Kalango, 2013).

 

 

Ernesto Moamba

 
 

MOÇA(MBIQUE)
Ernesto Moamba

Terra de mistérios e dores
Pátria de shongane, Xirilo e Mondlane
Terra da cacana e mandande
E do aroma da xima no carvão.

Moça(mbique)
Berço sagrado da Josina
Terra amarga, Mãezinha!
Onde o povo ronca pelo perdão divino.

Moça(mbique)
Terra de ouro e mineral
Patria amada
Dos que ousaram a lutar
País fardado de recursos minerais

Moça(mbique)
terra revestida de carvão
Patria libertada na escravidão
Terra de Chissano e Baltazar
Onde o povo dorme e nunca avança

Moça(mbique)
Terra de guerras
Que sempre devastam
País de sofrimento
Que seus misterios nunca desvenda
Terra fugitiva, dorminhoco...
Que nunca regressa.
MOÇA(MBIQUE)
Ernesto Moamba

Terra adormecido no berço
Patria condenado a prisão perpetua.
Moça dos olhos agrilhoadas de prata
Onde o Mbique espelha a desgraça,
Dos filhos da África,
Mentalmente usados e feitos escravos.

Moça(mbique)
Patria de Alberto chipande
Berço de Eduardo Mondlane
Terra derramada de sangue

Moça(mbique)
Terra Mãe,
Que me negaste o amparo
Patria amada de Lourenço Marques
Onde dorme mares de lágrimas
Por onde embarca barcos e navios

Moça(mbique)
Terra da Fátima, do António e Maria
Filhos da África,
E de todo mundo, Maezinha
Patria de causas imundas
Nação de meninos da rua

Moça(mbique)
Patria de vovó Mbondzela
País maravilhosa e bela
Onde conheci rumores de guerra.

Moça(mbique)
Terra de wazimbo e Mingas
Patria de Alberto Chitsondzo
Grandes astros,
Da musica moçambicana.
Terra que vesti a capulana
Patria que bebe do sangue jorrada
No corpo de tambores e guitarras
Com as suas palmas,
Estremecidas, Madala.

Moça(mbique)
Terra onde nascemos
Patria amada,
Onde pretendo morrer.

Ernesto Moamba
Maputo - Moçambique


Ernesto António Moamba(Ernesto Moamba), conhecido também como Filho da África, nasceu a 04 de Agosto de 1994, em Moçambique-Cidade de Maputo. Concluiu o seu nível pré-universitario em 2014, hoje formado em contabilidade Geral Básica e Educação Financeira. Poeta e escritor moçambicano, iniciou com apresentação dos seus trabalhos literário(poesias, contos e crônicas) nas Escolas e mais tarde resolve divulga- los em redes sociais jornais e revistas culturais nacionais e estrangeiras. O poeta sublinha ter participado de cinco Antologias (nacionais e internacionais) nomeadamente: " O mundo dos sonhadores, Corpo Negro, Um brinde a poesia, Desafio e Fúria de Viver, com participaçao de 4 países lusófonas ( Moçambique,Angola, Brasil e Portugal). È membro fundador da AMCL-Academia Mundial de Cultura e Literatura ocupando a cadeira-21,com patrono Cruz e Souza. Representa em Moçambique o Departamento comercial do consórcio da Fundação Noemia Bonelli(Brasilia). 2016, lança e publica pela Editora do Carmo o livro de poesia intitulado "Liberta-te Mãe África".

 È membro do grupo intercambio dos escritores da lingua Portuguesa e Presidente do grupo Lusofonidades-Divulgando literatas lusófonas.

 

 

Esmael de Pina Teixeira ( ESMAY)

 
 

O MEIO AMBIENTE
Esmael de Pina Teixeira - Pseudónimo: ESMAY

O meio que me envolve é uma tristeza
vendo os homens degradando a natureza
d’uma forma grotesca e aberrante
deixando a alma picante e sufocante.
É triste cruzar as ruas das cidades
dando de cara com lixos e atrocidades
que contaminam o ar que nos dá vida
nesse torvelinho de geração perdida.
Na terra já não se vê o verde das plantas
que faz da nossa região o abrigo das santas!
Já não temos o oxigénio que nos fazem respirar
nem aragem de vento que nos fazem suspirar!
No mar já não há brisas que nos fazem suspirar d’amor
nem ondas capazes de nos livrar desse maldito odor
que faz dos homens um demónio vivo sobre a terra
fazendo da natureza um verdadeiro campo de guerra.
O sol já não quer brilhar no azul do céu
deixando as nossas almas no mausoléu
sobre as terras secas desse pobre ilhéu
onde não há nada para servir de pitéu.

Esmael de Pina Teixeira - Pseudónimo: ESMAY
Terra-Branca/Praia/Cabo Verde


Esmael de Pina Teixeira (ESMAY), nasceu em Cidade de São Filipe, ilha do Fogo, Cabo Verde, aos 5 de Fevereiro de 1993.
Filho de Pais humildes, cresceu com um forte sentido social, académico e literário.Com formação académica na área de Ciência Política e Administração Pública.Um apaixonado autêntico pela literatura, boas músicas, teatro e fotografias.
Demostra ser um jovem apaixonado pelo seu País e principalmente pela ilha do FOGO que o viu nascer e crescer, e diga com frequência que a única coisa que o move é o fazer; fazer o melhor que pode e sabe, pelo seu País e pela sua ilha. Do mesmo modo, afirma categoricamente, que ama fervorosamente a sua terra natal… Para ele, a Salina (uma pequena praia da sua aldeia), com a sua majestática baia, é o útero de onde nasceu e o Vulcão (montanha olímpica e aguçadura da ilha do Fogo), ponto mais alto da ilha, é o farol, é a luz que lhe mostrou o companheiro da jornada e de onde, mais perto do céu, conseguiu alargar os seus horizontes escrevendo, observando e contemplando os episódios ou as imagens que a natureza prodigamente lhe oferece.