Abril de 2017

Ano VII - Número XLVl

 

 

Gabriel Teodoro Fernandes

 
 

POSSIDO, ERGO SUM
Gabriel Teodoro Fernandes

Esta cidade descomunal tem certo quê de magia,
Estando aqui, sinto-me como se vivesse alhures,
Como se habitasse outra megalópole qualquer.
Aqui, tudo é improvável:
A multidão que envolve como um deserto,
O céu plúmbeo e opaco, as noites de estrelas baças.
Divido meus pensamentos entre os ruídos ásperos da rua
E a fragilidade do meu sono.

Esta cidade mágica tem certo quê de atonia.
Estando aqui, sinto-me como se parasse de viver,
Como se desistisse inelutavelmente de sonhar.
Aqui, compreendi que Deus já não vive,
Sufocado sob o rumor incessante dos automóveis,
Asfixiado no acre da atmosfera doente,
Morto sob apressados passos trôpegos de seres inconscientes.

Esta cidade inânime tem certo quê de agonia,
Estando aqui, sinto como se a percebesse ofegar,
Como se a pressentisse medrar lenta e inexoravelmente.
Aqui, vejo-a exsolver suas pústulas sobre a natureza que a cinge.
Desde que Deus sucumbiu, abdiquei das respostas fáceis e falsas.
Vi esvaziarem-se meus embornais de verdades absolutas
Onde, tolo, enfurnava minhas crenças incontestáveis.

Esta cidade agonizante tem certo quê de sombria,
Estando aqui, sinto a beleza martirizada nos grotescos espigões de concreto,
A sensibilidade pisoteada pela cupidez insana do homo economicus.
Aqui, por onde se passa, vê-se a esperança derruída,
A consciência imolada no Índex de publicações místicas, escatológicas,
A razão abatida pela insolência do mercantilismo descabido...
Possido, ergo sum.

Esta cidade triste, porém, tem, ainda certo quê de poesia,
Estando aqui, sinto a Natureza resistir nas improbabilidades absolutas
Do concreto abrasivo, das sarjetas imundas, das paredes rotas.
Aqui, a beleza anosa afronta as modernidades funcionais de aço e vidro,
Os sabiás ainda cantam, nas tipuanas centenárias, a saudade da mata intocada
E, ludibriados pelos faróis intermitentes dos automóveis,
Os galos anunciam sonoros amanheceres extemporâneos.

Esta cidade poética tem certo quê de infinitude.
Estando aqui, sinto sua azáfama e luzes igualarem noites e dias.
Aqui, suas possibilidades infindas, seus habitantes dessemelhantes,
Colorem minha mente com sonhos de visões da eternidade.
As folhas do meu outono caem sobre as calçadas desgastadas,
Mas minhas pegadas não ferem as ruelas estreitas do passado,
Calcam meus passos curiosos a ladeira íngreme que leva ao amanhã.

Esta cidade infinita tem certo quê de epifania,
Estando aqui, sinto os olhos devassadores de sua ubiquidade opressiva,
Sua onisciência inibente nas câmeras que povoam edifícios e ruas.
Aqui, é melhor não questionar, melhor não pensar,
Melhor não abandonar a alheação conveniente das seitas.
Entre as brumas do inverno que antevejo,
Meus olhos enxergam escarpas ensolaradas, céus azuis...
Talvez respostas às minhas indagações.

Não há lugar confortável fora da estrada larga e enganosa das religiões.
Entre a loucura consentida da fé que idiotiza
E o mergulho na escuridão das incertezas seculares,
Escolhi os riscos da indagação curiosa, da série interminável de “por quês”
Que há milênios desafia a arrogância intelectual do Homem.
Não há respostas na Ciência, a Filosofia, inerme, sucumbe...
Tudo flui. Tudo é incerto e escorregadio.

Minha cidade aglomera a solidão de seres díspares em multidões incontáveis.
Debalde. Milhões de seres solitários não fazem uma insolidão.
Não há lenitivo para nossa solitude cósmica.
Aqui, um sorriso brinca na minha face à percepção de nossa contingência.
Somos apenas o lampejo de um átimo da eternidade.
Somos apenas um viajante eventual numa noite escura,
noite de perguntas irrespondíveis, de incertezas perpétuas.

Minha cidade divina tem certo quê de anomia,
É um salmo que louva a convergência das realizações humanas,
O humano desejo incontrolável de domínio sobre a desordem natural.
Aqui, o Homem arremeda o Criador, criando o seu próprio caos.
Melhor ignorar o salmo que ressoa nos ares ácidos da minha cidade.
A ciência me oprime como uma âncora inútil sobre o convés.
Preciso lançá-la ao mar. Preciso lançar-me ao mar...

A despeito de tudo, na minha cidade infinita
Talvez reste ainda um quê de esperança.

Gabriel Teodoro Fernandes
São Paulo - Brasil


Gabriel Teodoro Fernandes nasceu em São Paulo, na Vila Mariana, na manhã ensolarada e fria de uma terça-feira, em 23 de maio de 1950, para a alegria de Dona Onófria e de Seu Eduardo.
Economista, professor universitário, fez carreira profissional como Consultor Econômico em uma das maiores holdings financeiras privadas do país.
Leitor voraz, em especial, de obras clássicas, filosofia, ensaios, poemas e biografias de grandes personalidades. Em paralelo à sua atividade profissional, dedicou-se também à literatura, à poesia e à música. Autor de contos e crônicas e de poemas, alguns publicados em antologias poéticas e revistas culturais, intensificou nos últimos anos sua produção literária, passando a escrever ensaios e críticas sociais e políticas.
Músico amador desde a infância, tem realizado apresentações em casas de jazz, auditórios, teatros e reuniões sociais como saxofonista de diversos grupos musicais.

 
 

 

Gilberto Nogueira de Oliveira

 
 

PERCEPÇÃO
Gilberto Nogueira de Oliveira

Percebi que na vida nova
Os mamíferos mudaram
As aves já migraram
Os cães usam as casas
Os sem tetos usam a marquise
Ou então os viadutos
As crianças dormem em dutos
As vacas são matrizes
Em pastos de pequeno porte
Isso se tiver sorte
De ter um dono rico
Os gatos usam varandas
Os pássaros usam gaiolas
Os pequenos não tem escolas
Vivem a cuidar das criações
Que amanhã serão mercadorias
Numa festa aí qualquer
Sem capim nem malmequer

Terra seca e poeira
Infância já perdida
Num mundo já sem saída
Para alegrar o fazendeiro
Que fica com o dinheiro
Para na cidade gastar
E o boi na fazenda a pastar
Esperando a sua hora
Do sacrifício do agora
E a galinha no terreiro
Gerando pintos e dinheiro
E os ovos com gemas coradas
São as mais valorizadas
Para o mercado hostil
Nesse imenso Brasil
Alimentar o seu dono
Que também tem um patrono
Que lhe cobra os impostos

A coruja já não vive
No interior de sua toca
O arado já desloca
Para o capim crescer
Então fica a disputa
Da antiguidade nessa luta
Para ver quem vai vencer.

Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré - Bahia - Brasil

 

 

Gilda Pinheiro de Campos

 
 

MEU AMOR
Gilda Pinheiro de Campos

Ah meu amor,
não imaginas como é grande o meu amor por você
nem a saudade e a tristeza da dor da ausencia tua...
Nem poesia, música ou o silencio das madrugadas
aliviam essa agonia que sinto e que nada cura...

Vejo passarem os dias, meses , o tempo me vencendo e eu
nada fazendo para arrancar esta dor que dilacera meu coração...
Pensando bem, nem quero porque é o que ainda me liga a você
e me tem ainda com esperança de voltar a te encontrar...

Às vezes me desespero com a tristeza
e a saudade que me acompanham dia e noite
me pego distraida olhando o horizonte em busca de algo,
algum sinal de que ainda posso acreditar na sua volta
Mas o dia termina, a noite chega e eu aqui sem você...

Registrado no Recanto das Letras - Código do texto:T2432701

Gilda Pinheiro de Campos
Rio de Janeiro - Brasil

 

 

Gislaine Canales

 
 

ENTRAR NO CÉU SONHANDO
(Glosando José Lucas de Barros)
Gislaine Canales

 

MOTE:

Sei que, deste mundo lindo,
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.
 


GLOSA:

Sei que, deste mundo lindo,
o meu tempo está escasso,
mas continuo sorrindo...
Sou feliz, por onde passo.

Tenho sim, plena certeza,
vou sair, só não sei quando,
vou deixar esta beleza:
o mundo, que estou amando!

Dias e noites, vão indo,
e a morte ronda por perto...
Mas quero morrer dormindo,
morrerei feliz, por certo!

Vou dormir, tal qual criança,
mil sonhos acalentando,
não perderei a esperança...
Para entrar no céu sonhando.

Gislaine Canales
Porto Alegre - Brasil


Gislaine Canales nasceu em Herval - RS - BR - Cônsul de Poetas Do Mundo. Delegada do Portal CEN. Sócia Benemérita da UBT Nacional e Troféu Destaque 2008 na UBT São Paulo. Embaixadora Universal de SIPEA ibero-americana de Manuel Salvador Leyva Martínez, México. Nomeada como Coordenadora da UBT para os Estados Unidos da América e países de língua hispânica. Recebeu o título de Embaixadora da Trova em nível Internacional do Sr. Ronaldo Dunlop, Embaixador do Brasil na Rep. Dominicana e Claudio Garibaldy Martínez Segura. Presidente Honorária da OMT (Organización Mundial De Trovadores) da Presidente Fundadora Cristina Olivera Chávez-USA. Título de Trovadora Del Universo, de Cristina Oliveira Chávez- San António-Texas. Embajadora Internacional de la Trova , de la OMT, no Peru. Bacharel em Pedagogia e Licenciada em Didática. Poetisa, Trovadora, Glosadora, Pescadora, com o N º de registro 0300862-21. Pertence a várias Instituições Literárias do Brasil e Exterior. Participa de 45 Antologias Poéticas e dois Dicionários de Poetas. Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú - SC – Brasil- Cadeira 29. Acadêmica Fundadora da AVLLB - Academia Virtual de Letras Luso-Brasileira – Cadeira N º 006. Padroeira da AVSPE – Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores- Letras de Balneário, Sócia Correspondente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte - ATRN – Sócia Correspondente da Academia de Poesia de Curitiba/PA. (Publicou 36 Livros Virtuais e 26 livros Impressos)
Edita uma revista mensal, virtual, sobre Trovas há treze anos: a Trovamar.

 

 

Hazel de São Francisco

 
 

O SOBREVIVENTE
Por Hazel de São Francisco


Longo foi o tempo passado na Caverna, iluminada pelas chamas bruxuleantes da fogueira.
A chama acesa significava Vida, fazia a diferença entre a vida e a morte.
Reverenciada, alimentada diariamente por aquele pequeno grupo humano que vieram de algum lugar do passado e ali permaneciam por longo tempo.
O grupo passava horas dormitando ao redor do fogo. Não se aventuravam a ir longe da abertura da caverna por lhe faltar o senso de direção para perambular na mata densa, onde nem a luz do Sol conseguia entrar.
Certo dia premido pela necessidade do alimento, alguns resolveram sair rumo ao desconhecido. Assim o grupo tornou-se reduzido, pois os que partiram não mais retornavam.
Alguém crescera neste ambiente, não falava, pois a palavra falada tal como nos a conhecemos não existia. Mas os olhos e os ouvidos desenvolvidos fizeram dele um exímio caçador.
Alguém também teve um impulso de partir. Sair da escuridão da caverna ir a busca da Luz. Partiu para nunca mais voltar.
No longo caminho que se propôs a trilhar fora movido por uma força, que o incitava a caminhar, caminhar por este mundo sem fim.
Foi assim que decorrido um tempo, Alguém ao acordar sentiu uma sensação estranha, ao observar seu corpo nu, estava dourado de Sol.

Hazel de São Francisco
São Paulo -Brasil


Hazel de São Francisco: Professora de Educação Artística Habilitação Música.Nascida em Baurú. Reside em São Paulo -Brasil.
Artista Plástica. Acadêmica Correspondente Internacional -ALB seccional Suíça. Comendadora. Doutora Honoris Causa. Membro da N.A.L.A.L. -Lisboa.Press Award "Pensando a Educação". Press 'Diamonds of Arts and Education"-ABRASA. Confreira da Cultura -FALB/ FALAJ. Título de "Mestra Literária" -ABEPL. Filiada as seguintes Academias: REAL. ABEPL. ALB. AILAC "A Palavra Do Seculo 21" Premio Literarte"Melhores do Ano -2016".