Abril de 2017

Ano VII - Número XLVl

 

 

Mara Narciso

 
 

ESSA MANIA DE PASSADO QUE ESSA TAL DE INTERNET TRAZ
Por Mara Narciso


Foi em 1973 que eu estudei para o vestibular da Faculdade de Medicina do Norte de Minas, hoje Unimontes. Ficava amarrada nos estudos durante 16 horas por dia, com breves intervalos. Pela manhã, terceiro ano científico no Colégio São José, com mergulhos na Química Orgânica, da qual não errava nada. Muita Biologia, Português e teoria de Física. Matemática é um problema, então me desdobrava nas outras. À tarde, estudava com Ieda Rabelo e Cristina Rebello em minha casa, um apartamento singelo na Avenida Santos Dumont. Fazíamos deveres, pesquisas e estudávamos o conteúdo da aula daquele e do próximo dia. Nas provas ficávamos ainda mais concentradas. À noite, fazia revisões do primeiro e segundo anos. A tarefa atravessou o ano inteiro. No meu alheamento, não vi Carnaval, Semana Santa, Natal, Réveillon, rádio nem TV.
Na virada do ano, meus pais foram com minha irmã a Niterói. Eu fiquei. Na hora do foguetório, estava só em casa, com um livro na mão, olhando a cidade pela janela. No dia 9 de janeiro começaram as provas. Para passar era preciso viver uma imersão completa. O que era notícia acontecia lá fora, e a gente tinha breves flashes.
De Niterói, meu pai, Alcides Alves da Cruz trouxe duas fitas mini cassete. Cada uma trazia 45 minutos de música, num sistema facilmente deteriorável, e de difícil reprodução, pois eram fitas frágeis, que se deslocavam da carretilha e entravam no sistema de reprodução do som. O engasgo fazia tudo parar, sendo preciso desligar, puxar a bucha de dentro da máquina, e torcer para que voltasse a reproduzir som. Desta vez, meu pai inovou em relação ao seu gosto musical. Ele, que só ouvia Roberto Carlos no carro, trouxe Raul Seixas (Krig-Ha Bandolo) e Secos & Molhados, ambos revolucionários.
Foram discos tão marcantes (LP – Long Play), que tornaram seus cantores eternos, imortalizados pela grandeza do que fizeram. Corriam os Anos de Chumbo, a fase mais dura do sistema ditatorial do Brasil de então, que durou 21 anos e, pelos números oficiais desapareceu com 434 brasileiros contrários ao regime e a perda de liberdade política e de opinião. O General que ocupava o poder era Emílio Garrastazzu Médici.
Ser opositor ou amigo de opositores ao governo era ameaçador, assim como ter em casa ou portar material de coloração esquerdista, então chamado subversivo, eram risco de vida. Havia a música de protesto e a censura, que picotava tudo, suprimia versos, borrava fotos, metia a tesoura nos filmes. Todos os tipos de opressão estavam a postos, cortando, podando, calando, amputando, torturando e matando. Tudo era proibido, e os jovens, de um modo geral, pouco afeitos a se calar, mesmo com mordaça, eram presos, especialmente jornalistas, artistas, cantores e compositores. Muitos fugiram para o exílio.
Diante desses acontecimentos, ouvir Secos & Molhados, com João Ricardo (compositor e criador do grupo), Ney Matogrosso e Gerson Conrad era uma dádiva, uma festa, mesmo que o protesto deles tenha sido dissimulado, até por esperteza. Falavam de sangue latino, fadas, pirilampos e rosa de Hiroshima. Musicaram poemas de Vinícius de Morais e Fernando Pessoa. O mais incrível do grupo eram a postura e extravagância da maquiagem e da vestimenta (ou seminudez) do seu crooner Ney Matogrosso, que cantava com voz fina afinadíssima, e dançava com um requebro bamboleante de inacreditáveis sensualidade e ousadia. Por isso mesmo, a apresentação tinha um efeito incendiário.
No perfil do Facebook do meu recém-descoberto tio Reginaldo Pereira Soares encontrei um vídeo dos Secos e Molhados, de 1973, no dia 4 de abril à meia noite. Compartilhei embasbacada a música “Sangue Latino” numa performance explosiva de talento e audácia. Ainda que a gravação feita em estúdio da Rede Tupi tenha qualidade sofrível, recebeu mais de 300 mil visualizações em 4 dias, e agora está em 1.785.097.
Disputas internas acabaram com o grupo e Ney Matogrosso mantém brilhante carreira solo. A sua imagem andrógina fez meu afilhado Rodrigo Marques, na época, uma criança pequena, dizer: essa moça se parece com um rapaz. Vê-los e ouvi-los hoje – 44 anos depois, ainda deixa o espectador estupefato com a atualidade, qualidade dos arranjos, voz e especialmente a cegueira da censura que não conseguiu fazer a leitura adequada do que viam, ou como disse meu amigo Guilherme Souza, “ficaram em estado de choque pela ousadia e não sabiam como enquadrá-los”. Então, escapou do corte, para o nosso deleite.

(8 de abril de 2017)

Mara Narciso
Montes Claros - Brasil
http://www.jornaloportunidades.com/montesclaros/colunas/maranarciso/
http://www.geraisnews.com.br/colunistas/coluna-de-mara-narciso.html
http://www.dm.com.br/
http://www.minaslivre.net/site/


Mara Narciso é mineira de Montes Claros, sendo médica endocrinologista há mais de 35 anos. Antes dos oito anos ganhou dois concursos literários. Na adolescência escreveu um diário durante quatro anos. Aos poucos passou a escrever crônicas, aceitando o incentivo dos amigos. Como seu filho é portador de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção de Hiperatividade, escreveu em 2004 o livro “Segurando a Hiperatividade” contando a história dele. A repercussão foi boa, dando-lhe a oportunidade de fazer palestras sobre o tema. Disseram que o livro tinha linguagem jornalística. Devido a isso, foi estudar Jornalismo, formando-se em julho de 2010. Desde então atua nas duas áreas, trabalhando como médica em seu consultório e publicando crônicas em vários sites e blogs além de jornais online (Jornal Oportunidades) impressos (Jornal de Notícias, Diário da Manhã de Goiânia). Também fez por dois anos matérias jornalísticas para a revista Plataforma, de distribuição gratuita na empresa de ônibus Transnorte. Escreve textos exclusivos sobre saúde na coluna “Sem Excessos e Com Saúde” para o Jornal Virtual Gerais News.

 
 

 

Marcelo de Oliveira Souza

 
 

DESCOBRIMENTO DO BRASIL
Por Marcelo de Oliveira Souza,IWA


Oficialmente no dia 22 de abril de 1500 foi decretada a data de Descobrimento do Brasil, outros dizem que o país não foi descoberto, foi invadido.
Fora dessa polêmica encontramos um país cheio de belezas e diversas tradições culturais, de dimensões continentais, contudo com uma união cultural e linguística muito grande.
Essa união muitas vezes atrapalha, pois aqui não é somente um país, é um “continente”, tudo no Brasil é grande, grandes Estados, grandes cidades, enormes problemas.
Não temos terremoto, maremoto, furacão, mas a violência e a corrupção é pior que todas essas catástrofes naturais, pois elas são cíclicas, a corrupção parece ser endêmica, que impõe as injustiças sociais, que por sua vez os seus governantes - trajados de uma falsa compaixão - pegam parte do orçamento da Nação para criar projetos de benefícios sociais, possibilitando uma maior dependência de uma parte das camadas mais sensíveis da sociedade, que por sua vez ficam “aprisionadas” pelas migalhas que o governo proporciona.
Essas migalhas que as pessoas recebem as acomodaram, nossos mandatários não se interessam em capacitar essas pessoas, simplesmente é bom livrar-se do problema, soltando algum “cala-boca”.
Nosso país é visto como o celeiro da corrupção, do jeitinho, da violência, das drogas, a propaganda negativa lá fora devasta a nossa imagem mais do que os piores furacões devastam frágeis países.
O povo brasileiro em sua maioria, não foi acostumado a lutar pelos seus direitos, eles acham que o bem comum não é dele, desde que não os afete não tem problemas, assim, pequenas coisas que poderiam ser resolvidas viram grandes problemas no futuro.
Em muitos Estados o sistema de saúde não existe, a educação está em frangalhos, a violência aumenta, os direitos são cerceados constantemente.
Obras de engenharia que serviriam para durar décadas, não demoram meses, matando pessoas e no final não existe uma punição exemplar.
Inúmeras investigações de Lava-jato, Valeiroduto, Construção de Arenas, Correios, Petrobrás, Arenas para Copa do Mundo e muitas outras, são iniciadas e no final não dá em nada. – Para mim prisão domiciliar não é nada! -
O nosso lindo país de um futuro promissor, virou uma eterna agonia, as pessoas têm medo de sair de casa, agora têm medo de ficar em casa, de entrar na sua garagem para voltar ao encarceramento noturno, o povo têm medo de tudo, porém a maioria fica esperando ver o que acontece, pois a crise não chegou aos seus lares, se chegou está esperando alguém resolver.
Nesse país o dia de Tiradentes é lembrado como feriado, muitas pessoas não sabem nem o porquê , o dia do índio é comemorado com criancinhas seminuas nas ruas, índio não é só isso; entretanto o pior é que o Descobrimento do Brasil, nem é lembrado.
Tudo isso faz com que os brasileiros se desiludam com o nosso país, uns conseguem sair para ter uma vida melhor, outros esperam sentados para ver se melhora e outra pequena parte sonha, para ver se um dia tudo isso muda e tentam Descobrir realmente o Brasil.

Marcelo de Oliveira Souza, IWA
Salvador - Bahia - Brasil
http://marceloescritor2.blogspot.com


Marcelo de Oliveira Souza: Natural do Rio de Janeiro, formado na Universidade Católica do Salvador. Pós-graduado pela Faculdade Visconde de Cairu com convênio com a APLB/UNEB;Ganhador do Prêmio Personalidade Notável 2014 em Itabira MG ; Membro da União Baiana de Escritores; da Academia de Letras de Teófilo Otoni MG; da Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências RJ; da confraria de Artistas e Poetas pela Paz – CAPPAZ; da Associação Poetas Del Mundo; do Clube dos Escritores Piracicaba SP; Da IWA International Writers & Artists EUA; participa de vários concursos de poesias, contos, publicações em jornais e revistas estaduais, nacionais e internacionais sempre conseguindo ser evidenciado pelos seus trabalhos louváveis; colunista do Jornal da Cidade, Debates Culturais, Usina de Letras, entre outros. Organizador do Concurso Literário Anual POESIAS SEM FRONTEIRAS e Prêmio Literário Escritor Marcelo de Oliveira Souza

 

 

Marcia Valéria Lira Santana

 
 

SONETO PARA ENTRE TER-TE
Marcia Valéria Lira Santana

Poetar-te pela vida,
Fez-me ser o que não havia.
Vai no som, a história de um dia,
Vem no tom, o que não agonia.

Tens comigo sonhos e fervores,
Tenho contigo muitos amores.
Pois se não são os meus temores,
Penso e clamo, vida plena, muitas cores.

Pois viver-te é saber-te inteiro.
Que amanhã o amor-companheiro,
Seja alegre, contente e faceiro.

E por ver-te, rever-te e sonhar-te
Quero nascer-te todos os dias
Sempre com muita harmonia, mas com caos pra poesia.

Marcia Valéria Lira Santana
Aracaju - Sergipe - Brasil
odivinoprofano.blogspot.com.br


Marcia Valéria Lira Santana, mulher, mãe e avó, Professora de Biologia, ex Secretária de Educação dos estados de Sergipe e Alagoas, Secretária Municipal de Educação de Aracaju, também se atreve a ser escritora, artesã e ceramista. Como boa fiandeira, trança seu tempo com o que lhe dá prazer e alegria.

 

 

Márcio Catunda

 
 


BAUDELAIRE, CORAÇÃO ABISSAL
Em honra ao dia 9 de abril, data de aniversário de nascimento de Charles Baudelaire,
esta homenagem:
Por Márcio Catunda

Cruzando as pontes,
em direção aos cafés de Chatelêt.
Charles-Pierre Baudelaire imergia nas noites.
Deambulava, contemplando as nuvens do céu lívido de tédio.
Convertia os réprobos à confraria dos clarividentes,
Arauto das tavernas, saboreava êxtases vagabundos.
Num navio para Calcutá,
destinação a que o despachou
seu padrasto, oficial francês,
o dandy brigou de murros
com o marujo que maltratou, perversamente,
um albatroz, capturado pela tripulação.
Sentiu-se semelhante
à ave dos golfos amargos:
Pégaso que vence tempestades,
velejando em música;
Ícaro, enguiçado no pesadelo do mundo.
Recordando o âmbar de outros tempos,
na ilha Maurício, entreteve-se com os encantos
de uma dama crioula.
Fundou, com Gautier, Nerval e Balzac,
o marginal Clube dos “Haschichis”.
Com elixires inebriantes
e a lânguida vertigem dos violinos,
eludia o fardo do Tempo.
Sob o teto de bruma noturna,
sondava o vasto nada do passado.
Pio e seráfico,
escandindo versos longamente imaginados,
cantava os aspectos sórdidos da vida.
Dissipou os salários que o curador lhe entregava,
patrocinando suntuosas festas.
Tinha o gosto do luxo bizarro.
A família constituiu-se num conselho judicial
para tutelar-lhe os recursos.
Angustiado pela pressão dos credores,
enfermo de sífiles,
e deplorando o relacionamento com o padrasto,
tentou matar-se com uma facada nos peitos.
O ferimento ocasionou-lhe um desmaio.
Jeanne Duval, a musa haitiana, o socorreu.
À la sorcière au flanc d´ébène,
dedicou o poema Les Bijoux
e pagou seu tratamento,
quando ela padeceu os dias trôpegos da hemiplegia.
Pediu piedade a Satã e bendisse Deus,
pelo remédio de nossas impurezas.
Durante a insurreição contra Luis Felipe de Orleans,
pediu a gritos, entre as trincheiras,
o fuzilamento do general Aupick.
Entre as descargas dos fuzis,
desafiou a ditadura do sobrinho de Napoleão.
Hugo considerou sobrenaturais
aquelas flores espúrias
- em cada pétala um raio macabro –
pelas quais os censores
arrancaram do autor 300 francos de multa,
Submisso ao matriarcado de Caroline Aupick,
foi contemplar em Honfleur os espaços límpidos
e respirar os ventos marinhos,
longe dos miasmas mórbidos de Paris.
Impossível fugir da bandeira negra da angústia!
Aux ondulations de la rêvérie,
em paraísos de vagas deleitações morosas,
fez a iluminadora exegese das confissões de Quincey.
Predestinado ao exilado ofício da marginalidade,
poemas eróticos dedicou a Apollonie Sabatier,
“la Presidente”, Sibila délfica dos salões parisienses,
cortesã imperfeita,
cuja carne espiritual tinha o perfume dos Anjos,
e cujos olhos vestiam os poetas de um hábito de claridade.
Marie Daubun, de celestiais olhos, indolentes e pálidos,
ardentemente aplicada na cama,
mereceu primores,
como le Chant d’Automne, e Le Beau Navire.
Os acadêmicos não admitiram
um poeta maldito entre seus pares.
Um “biblio-nervoso” por excelência.
Baudelaire fez, em Bruxelas,
o panegírico de Gautier e Delacroix,
e, na volta, pernoitou na casa de Catulle Mendès,
onde lamentou a ausência de Nerval,
“espírito inteligente e lúcido”,
cuja profunda melancolia o suicídio apagara.
Soluçou e reiterou que o desditado amigo
nunca estivera louco.
Sentia-o, em recolhimento,
na triste voz de um fantasma chuvoso,
num canto pleno de fraternidade.
Fez da poesia uma disciplina de existência.
A dor era-lhe a única nobreza
que os infernos não empeçonhariam.
Esperava o diadema de pura luz
que cinge a efígie dos poetas.

Márcio Catunda
Fortaleza - Ceará - Brasil


Márcio Catunda, escritor e diplomata brasileiro, nasceu em Fortaleza, Ceará, em 22 de maio de 1957. É membro da Associação Nacional de Escritores de Brasília e do Pen Clube do Brasil, no Rio Janeiro. Sócio correspondente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo.
Foi Presidente do Clube dos Poetas Cearenses em 1975 e fundador do Grupo Siriará em 1981, ambos em Fortaleza. A partir de 1982, participou das reuniões do denominado “Sabadoyle”, no Rio de Janeiro, onde conheceu Carlos Drummond de Andrade, com quem manteve intercâmbio.
Trabalhou em Lima, Sófia, Genebra, São Domingos, Lisboa, Acra, Madri e Argel.
Escreve em diferentes periódicos brasileiros. Editou diversos livros de poesia, de prosa (alguns dos quais escritos diretamente no idioma espanhol) e discos de poemas musicados, em diferentes cidades, onde morou e trabalhou. Seu livro Escombros e Reconstruções recebeu o Prêmio Vinicius de Moraes, concedido pela Academia Carioca de Letras, ao melhor livro editado em 2012.

 

 

 

Mardilê Friedrich Fabre

 
 

UM TEMPO
Mardilê Friedrich Fabre

Quero um tempo sem tempo de girar,
Um tempo só meu, parado, de olhar,
Um tempo sem relógio, de preguiça,
De não refletir, vida mortiça.

Um tempo sem sonhos despedaçados,
Nem lágrimas, nem pesares, nem brados.
Um tempo em que sobrem noites vadias
De desejos vertidos em euforias.

Um tempo de movimentos eternos
Que manifestem sentimentos ternos.
Um tempo vestido de horas únicas
(Passe o vento sem arrancar-lhes as túnicas).

Um tempo de sol liberto do posto
Cujo brilho resplandeça transposto.
Um tempo que no meu silêncio soe,
Flua no coração e não destoe.

Mardilê Friedrich Fabre
São Leopoldo - RS - Brasil
http://fremitosdaalma.blogspot.com.br/