Junho de 2017

Ano VII - Número XLVII

Suplemento Junino

 
 

L.S.Santos

 
 

NOITES DE SÃO JOÃO
(ou poesia em prosa)
L.S.Santos

Ah, Torquato...
bebada de ti
embriagada por ti
Choro
choro lagrimas em pencas
como bananas douradas
a escapar de mim.

Como você
saudades tenho da criança
que um dia fui
das pipas que empinava sem culpa
das bolinhas de gude jogadas em chão de terra batida

Ali onde os esgotos corriam disfarçados de riachos claros
eram os olhos de menina que só querim ver rios
e vislumbrar beleza.

Saudade daquela garota magricela que sabia não ser amada
mas que aguardava anciosa pelas noites de São João
quando haviam doces de sobra, música e danças de encher os olhos
e o coração se aquecia com as fogueiras que
enfileiradas na porta das casas
lhe fazia esquecer
a falta de tudo
presente nos outros dias.

Aquela era uma rua pobre
onde a ausencia
era presença garantida
mas para aquela menina
o melhor alimento era o sonho
sonho gestado em cama dura
de colchão improvisado pela pobreza
onde os ratos faziam ninho dividindo
sem pedir licença
as noites de frio ou calor.

Mas foi também lá
que ela sonhou em um dia poder
ser...
sem tantas faltas
todas aquelas faltas
que ficavam escondidas
provisoriamente esquecidas
nas noites estreladas e frias
da festa de São João
quando a elgria era tão farta...
Para onde foi toda aquela alegria?!
Que coraçoes ela agora habita?!

L.S.Santos
São Paulo - Brasil

 
 

 

Luciana do Rocio Mallon

 
 

LENDA DA CIGANA DA FESTA JUNINA
Por Luciana do Rocio Mallon


Há anos atrás existia uma cigana adolescente chamada Junita.
Um certo dia Dolores, sua avó, fez uma saia rodada de retalhos, que pareciam várias bandeiras coloridas de Festa Junina e fez um ritual para consagrar esta roupa aos antepassados ciganos. Depois entregou a peça à neta que ficou maravilhada.
Após isto, a caravana partiu para Portugal e chegou numa aldeia, onde naquela noite se realizaria uma Festa Junina.
Logo Sálvia, mãe de Junita, avisou:
- Haverá uma festa naquela vila. Mas, por favor não vá.
A menina não deu bola. Então, quando todos estavam dormindo no acampamento, a adolescente vestiu sua saia nova e foi para o evento.
Lá havia coisas típicas de festas juninas: doces, quadrilhas, correio-elegante, e, principalmente, uma enorme e alta fogueira.
De repente, uma mulher avisou em voz alta:
- Quem conseguir pular esta enorme fogueira, ganhará este lindo colar de ouro que está no meu pescoço!
Ninguém teve coragem de topar o desafio. Porém, a cigana ficou tão encantada com o colar que exclamou:
- Eu aceito!
Assim, quando esta donzela foi saltar, seu corpo caiu dentro da fogueira e Juanita morreu.
O demônio apareceu para o seu espírito e disse:
- Você irá para o inferno!
- Afinal, arriscou-se sem necessidade.
Porém, de repente, apareceram São João, Santo Pedro, Santo Antônio e falaram:
- Desista, Diabo!
- Como esta jovem morreu durante uma Festa Junina iremos salvá-la do Inferno.
- Mas, garota, você terá uma missão: sua alma será responsável por cuidar para que não exista nenhum acidente em Festas Juninas.
Junita aceitou a proposta.
Anos se passaram e numa aldeia, existia uma menina chamada Laura, que sonhava em participar de um concurso de sinhazinha da Festa Junina de sua escola. Então, ela começou a chorar.
De repente, Junita surgiu na sua frente.
Laura perguntou:
- Quem é você ?
A entidade falou:
- Sou a cigana Junita e estou aqui para realizar o seu pedido de Festa Junina.
A menina explicou:
- Realmente, eu queria participar do concurso de sinhazinha do evento da minha escola, o problema é que não tenho roupa...
Naquele instante, a cigana tirou sua saia rodada, de retalhos que formavam bandeiras de festas juninas, e disse:
- Por favor, use esta saia. Pois, com esta peça você ganhará a competição.
Após estas palavras, Junita evaporou-se. Já Laura obedeceu à entidade, participou do concurso e venceu.
A cigana Junita é uma entidade que deve ser invocada quando a pessoa deseja realizar uma Festa Junina, para que nada de ruim aconteça neste evento. Esta moça gosta de oferendas como: saias coloridas e bijuterias.

Luciana do Rocio Mallon
Curitiba - Paraná - Brasil

 
 

 

Luciene Freitas

 
 

NUMA NOITE DE SÃO JOÃO
Por Luciene Freitas


A claridade da lua fazia distinguir quase tudo o que havia ali no terreiro da frente. A fogueira, no centro, ajudava a aquecer ainda mais o calor humano. A pobreza material era presente, mas havia a riqueza de almas que fazia milionárias aquelas criaturas.
Os velhos olhavam a fogueira agradecidos por tudo o que adquiriram com o trabalho árduo. Cada fagulha representava um ideal perdido no passado. Os sonhos subiam com a fumaça numa tristeza controlada. Observavam a filha solteira, os netos.
A moça não casara, desiludiu-se com o amor não correspondido na juventude. Acalentara a ilusão por muitos anos, ele não veio. O amor foi pra longe sem dar notícias. Envelheceu entristecida, dedicou-se aos pais, aos sobrinhos, ao trabalho.
As crianças, felizes, gozavam do aconchego familiar. O avô recolheu um tição da fogueira para que se iniciasse a queima de fogos.
- É melhor subir na pedra, assim a chuvinha escorrerá por inteiro.
Fartos das deliciosas comidas de milho que a avó e a tia fizeram queimavam os fogos num alvoroço.
Não havia nenhum sinal de necessidade naquelas crianças. Tinham tudo resumido, em abundanciar apenas o carinho da família.
Três gerações viviam aquele momento, cada um a sua maneira.
A lua deixava as figuras iluminadas, com ligeiras cintilações do brilho do fogo, sombras iluminadas se moviam na escuridão da noite. Almas fluorescentes habitavam aquele pedaço de chão.
As plantas que rodeavam a casa, escuras. Só os vagalumes embelezavam a escuridão. O gigantesco pé de plumérias destacava-se por suas flores brancas, tais almas puras comungando a luz da lua.
Exceto os fogos de artifício tudo era real. O homem primitivo, novamente, em volta do fogo usufruindo dos seus benefícios.
Além do tagarelar das crianças os sons que ouviam vinham dos animais noturnos e da madeira verde a estalar no fogo.
O vento passeava entre as figuras, movia as chamas da fogueira e assobiava chamando outros ventos de longe.
E foi assim que ele levou pelo tempo aquela cena, de uma noite de São João. Conta-se que em noites de lua, onde houver uma cabana, almas singelas, ouvidos sensíveis escutam vestígios daquele quadro.

Luciene Freitas
Vitória de Santo Antão - Pernambuco - Brasil

 
 

 

 

 

 

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