Agosto de 2017

Ano VII - Número XLVIII

 
 
 
 

Merlin Magiko

 
 

VOZES DE DAR-ES-SALAAM
Merlin Magiko

Voz gerada pela dor,
Ventre da nossa África fértil,
Expressar de beleza, amor,
Árvore do renascer primaveril (...)

Que não sejam apenas lembradas em Julho 31,
Vossas lutas pelos direitos de igualdade,
Vossas conquistas pela liberdade,
Desse continente que vos acolhe (...)

Vossos gemidos vibraram feito tambores,
Vocês não são sexo frágil,
Mas sim a fortaleza desse continente,
A espécie da nossa raridade,
Vossas curvas com vaidade(s),
Escultura da nossa ancestralidade,

Vosso nobre sorriso, marfim...
E a essência dessa melamina que fortifica,
Vós sois África...
De encantos e seus mistérios (...)

Onde tudo começou....
O mosaico da humanidade...
Enaltecida como Wangari Maathai,
Vós sois o silêncio que na noite caí...
Sinto-vos forte nas linhas de Nadine Gordimer,
Oh linda bela africana mulher (...)

Malaika em notas de Miriam Makeba...
Trilhai vossos caminhos,sem medo dos sonhos...
Para deixar saudade como Cesária Évora...
Vós sois o sonho em plena aurora...

Nzinga na pele de uma guerreira...
A voz de África é a vossa história...
Raízes fortes como Kimpa Vita

Bravas mulheres de glórias (...)
Moldem as lágrimas, transforme-as(nas) em triunfos...
Persistam e emancipem as vossas conquistas

Não limitem-se apenas à maternidade,
Busquem o conhecimento, o equilíbrio
Não desesperem-se na fraqueza (...)
Inspirem-se com profundidade,
Tenham sempre certeza,
Vocês, já nasceram guerreiras (...)

Feliz dia da mulher Africana (...)

Merlin Magiko
Luanda - Angola
https://www.facebook.com/Merlin-Magiko-Writer-1504917999766915/
Blog: http://palavrazsoltaz.blogspot.com/

DANIEL ZINGA MIGUEL CHAVES. Natural de Luanda (Angola),escreve com o pseudónimo literário de Daniel Miguelavez ou Merlin Magiko. Participação na Antologia "Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus 2013", em 2014. Antologia "O Melhor de Poesias Encantas", em 2014 na Colectânea de Poesias "À Flor da Alma", participação na Antologia "Talento Poético“ Janeiro de 2015 em São Paulo. Menção honrosa com o conto “Sapix, o príncipe“ na categoria internacional de autores do V CONCURSO INTERNACIONAL DE CONTOS VICENTE CARDOSO, realizado pela Prefeitura Municipal de Santa Rosa, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, em conjunto com a Associação Santa-rosense de Escritores (ASES-RS) no Brasil em 2015. Vencedor do VI e VII CONCURSO LITERÁRIO INTERNACIONAL PRÊMIO BURITI 2015 e 2016, na categoria de Poesia Internacional, organizado pela Jornalista, escritora e ativista cultural, Rita Bernadete Sampaio Velosa.
Participação do IX Concurso Literário Internacional "Angel Ganivet “ realizado pela Associação dos Amigos (APA) em Helsínquia 2015.
Participação da Colectânea “UM LITRO DE LÁGRIMAS”, realizada pela Pastelaria Studios em 2015.
Participação na Antologia realizada pela Castelo Literário e a editora PenDragon, 2015
Participação na Antologia “ Poesía en Action “ realizado pelo Movimento de poeta do Mundo”, da Bolivia 2016.

 
 
 
 
 

Mhario Lincoln

 
 

PRÉ-LÚDICO
Mhario Lincoln

E as pessoas que amei?
Passaram? Findaram?
Talvez, não!
De cada uma, guardo o brado,
O perfume, o agrado.
De outras, ficam 'os quês',
ficam as dúvidas, os porquês.
E mais adiante,
na curva da estrada,
as pedras rolam e reencontram
um pedaço, que seja, partindo.
Onde, 'cadê'?
Embutido numa saudade,
que ainda persiste na dúvida.
E a velha réplica vai se repetindo:
- Foi bom pra você?

Mhario Lincoln
Curitiba - Brasil
www.mhariolincolndobrasil.com
www.acervum.com.br

Mhario Lincoln é jornalista, poeta e presidente da Academia Poética Brasileira.Editor-sênior da Revista Poética Brasileira e do Suplemento Nacional de Literatura e Artes, ACERVUM. Embaixador da Paz/Brasil.
Tem dois livros de Direito, dois livros de poesia, um de reportagem-romance e um romance épico no prelo, chamado "O Maria Celeste".
É maranhense de origem, mas mora atualmente em Curitiba-Paraná.

 
 
 
 
 

Michael de Lima Canova

 
 

CINE RÁDIO
Por Michael de Lima Canova (Estevão Mendonça de Albuquerque)


Cristiano pesquisava na internet:
— Seção de Cine Rádio grátis em São Paulo. Hoje a noite. Hum, diferente.
O jovem estudante de artes plásticas se dirige ao Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro. Pergunta ao bilheteiro:
— Eu não consegui ver na internet os títulos das seções. Na verdade não tinha quase nenhuma informação. Nem por aqui, não vi nenhum cartaz nem nada. Como que é o negócio aqui?
— O senhor retira o ingresso e entra num corredor que tem seis salas salas. Lá, o senhor escolhe em qual entrar. Em cada sala, uma sessão de cine rádio diferente vai acontecer. Cada poltrona tem um fone que o espectador pode usar. No próprio fio do fone tem um dispositivo com os botões que inicia, para, adianta ou retrocede o áudio. É como uma sessão de radionovela. Igual a antigamente sabe? Só que com um capítulo só.
— Entendi. Mas se eu não gostar da história? Posso trocar de sala?
— Pode sim.
— Hum. Diferente. Mas não vai tumultuar lá não?
— Não por que é quantidade limitada. Entregamos até cem ingressos. São seis salas exibindo suas respectivas histórias. Cada sala, cabem no máximo, cem pessoas. Se são seis salas, terão mais ou menos, 15 pessoas por sala. Não vai ter tumulto não. Pode ficar tranquilo.
— Bom. Vamo lá então né. Afirma Cristiano em tom de desconfiança.
Para se acessar ao corredor de cinema, o rapaz desce uma escadaria e entra por uma grande porta entregando o ingresso a um homem.
— Nossa. Reformaram aqui. Não era tão grande. Razoa o jovem em pensamento enquanto caminhava pelo corredor escuro e carpetado.
Haviam três portas em cada lado deste. Estas davam acesso às respectivas salas. Cristiano entra pela primeira porta à sua esquerda. Não havia ninguém no aconchegante recinto que estava a meia luz. Cristiano desce um pouco a arquibancada a fim de encontrar uma poltrona mais centralizada, sem bem que a posição desta não interferisse em nada, visto que, como o bilheteiro informara, cada poltrona tinha seu respectivo fone. Em baixo estava situado uma, não tão grande, tela de cinema da qual nenhuma imagem se projetava. O pouco de luz que havia no recinto, se apaga restando um único e tímido facho luminescente refletido na tela. Cristiano apanha o fone e dá início ao áudio. Uma voz grave começa a narrar algo:
Pela manhã, Sílvia Miranda se levanta e desce para cozinha ainda bocejante e arrastando sua chinela pelo chão.
— Bom dia Carlos.
— Bom dia. Cadê o Gustavo? Já tá na hora dele ir pra escola.
— Eu vou chamar ele. Achei que ele já tivesse acordado. Responde Sílvia colocando um pouco de café em sua caneca.
— Pode deixar que eu chamo. Toma seu café. Prontifica-se Carlos.
Este passa pela sala, cujas lâmpadas ainda não foram acesas. Uma rala luz, advinda da janela que é tampada por uma cortina, se insinua para o interior deste cômodo. Carlos passa ligeiro alcançando as escadas. Avança para o quarto de seu filho que está escorreitamente ajeitado. A cama com os lençóis esticados e sobrepostos com aparente esmero. Cada brinquedo e objeto perfeitamente posicionado em seu lugar. Este volta à cozinha.
— O Gustavo não tá lá não. Fala Carlos a Sílvia.
— Sério? Pergunta esta bocejando longamente.
— Sério.
Ambos ficam em silêncio tomando café em suas xícaras. Carlos toma a palavra:
— Você dormiu bem?
— Não. Alguma coisa me fez mal ontem. De madrugada fui no banheiro um monte de vezes.
— Só se for o restaurante que a gente foi ontem. Eu também não passei muito bem de noite não. Não cheguei a ir no banheiro, mas minha barriga doeu a noite toda. Acho que foi a comida de lá. Conjectura Carlos.
— Foi esse restaurante sim. Você comeu bacalhau lá né? Interroga Sílvia.
— Comi. Comi sim. Responde prontamente ele balançando a cabeça em tom afirmativo.
— Você percebeu que ele tava um pouco estranho? Sugere Sílvia.
— Percebi. Ele tava estranho sim. Nunca mais a gente vai lá. Come pra depois passar mal.
— “Gastamo” a maior nota naquela merda. Pode deixar que mais tarde dou uma passada lá e vou conversar com o gerente. Onde já se viu? Vender comida estragada pros clientes? Tenho que resolver uns negócios na loja hoje, mas depois do almoço passo lá. Se não der pra passar depois do almoça, vou lá de noite.
— Tá acontecendo algum problema no seu trabalho? Interpela Carlos.
— É a atendente nova. Já é o segundo dia que da falta no caixa dela. Não é falta grande, mas duas vezes seguidas… Tenho que ver o que tá acontecendo. Além disso ela é muito parada, não aborda as clientes do jeito certo. Ela tem que ser mais simpática entende? Não é assim não. Pra trabalhar com vendas, a pessoa tem que ser mais simpática.
Sílvia toma mais um gole de café enquanto Carlos já colocava seu paletó.
— Já vou indo. Despede-se Carlos.
— E o Gustavo? Intervém Sílvia.
— Já falei. Ele não ta no quarto. Tenho que ir.
— Pode ir então. Eu também tô de saída. Depois a gente vê isso.
Antes de Carlos pegar sua bolsa e sair, ouve-se um alarido advindo de muito distante.
— Tá ouvindo isso? Pergunta Sílvia em desespero.
Carlos caminha de um lado para outro tentando identificar de onde era a zoada, mas é Sílvia quem identifica o lugar e exclama:
— Tá vindo lá de fora. Faz apontando pra janela.
Eles descortinam a ventana da sala permitindo que uma acinzentada iluminação de inverno entrasse.
— Olha aquilo! Brada novamente Sílvia.
Carlos emudece e Sílvia, sem tirar os olhos da larga rua de condomínio, cutuca-o e permanece a exclamar:
— O que é isso!? Carlos. Me fala o que é isso!
Neste instante, o marido de Sílvia, substitui sua mudez por uma áspera fala:
— Eu vou saber o que é isso? Bom... Saber, a gente sabe. Dá pra ver o que é. Mas não dá pra entender nada.
Era uma multidão, um mar de crianças que tomavam as largas e bem cuidadas ruas. Gritavam, de forma inindentificável, palavras de ordem com suas agudas e joviais vozes. Neste instante, tanto Carlos quanto Sílvia, estão alapados juntos à janela com os olhos arregalados. Sílvia tem a ponta do dedo mindinho de sua mão direita levado à boca.
A multidão se divide em vários grupos. Cada ajuntamento, que continha muitas centenas de crianças, se direciona para uma respectiva residência. Carlos e Sílvia percebem que uma grande porção de crianças avança pelo jardim da frente. Alguns destes guris percebem a presença do casal na janela e avisam uns aos outros pilhando-se ainda mais.
— Esses moleques estão doidos. Vamo Chamar a polícia! Esbraveja Sílvia já correndo, junto com Carlos, para o segundo andar.
— A porta tá trancada mas não vai demorar muito pra eles conseguirem abrir. Chama logo a polícia. Intervém Carlos esbaforido enquanto subia a escada.
Como cães amedrontados, Carlos e Sílvia, trancam também a porta do quarto e Sílvia liga pra polícia.
— Alô. Vem logo pra cá! Tem uma multidão de crianças atacando as casas! Manda uma viatura logo! Eles são muitos! Exclama Sílvia tremendo e falando alto pois o alarido havia tornado qualquer conversa uma tarefa quase impraticável.
— Calma dona. A gente já recebeu várias ligações. É a Rua das camélias né?
— É sim. Por favor. Eles estão doidos. Eu vi na cara deles! Eles estão transtornados moço.
— A gente já enviou algumas viaturas pra aí. Eles estão chegando. Se acalma.
— Apressa aí moço.
— Estamos fazendo o possível. Mantenha a calma.
As crianças quebram os vidros de todas as janelas da residência de Sílvia e Carlos forçando a passagem. Alguns se ferem nos pedaços cortantes que permaneceram nos batentes. Elas despencam umas por sobre as outras e se cortam ainda mais com os vidros que estavam no chão. As que vinham logo atrás, pisam por sobre as que estão caídas e avançam pelos cômodos da casa. As caídas demoram para conseguirem se levantar pois a quantidade de crianças que vem passando por cima delas é muito elevada. Todas vão se apinhando e tentando subir pela estreita escada.
Sílvia olha pela janela do quarto. Os guris que invadiram a casa da frente gritavam comemorando. — Olha aquilo Carlos. Olha só. O que eles estão segurando?
— Não consigo ver direito.
— Meu Deus! É a cabeça da mulher que mora lá. Como ela se chama mesmo? É Vera né?
— É. Responde Carlos pasmado.
Sílvia treme e chora ao ver a chocante cena. A gurizada gritava feliz e levantava a cabeça da mulher pra cima como um troféu. Depois começaram a passar a cabeça de mão em mão.
— Eles vão fazer isso comigo. Afirma Sílvia passando as mãos por sua garganta.
— Comigo também.
— Reage homem. Seu banana! Seu bosta!
— Reagir como? Tem muito mais deles do que a gente.
— A gente tem que fazer alguma coisa. Você tem que fazer alguma coisa. Se meche!
A forma colérica de Sílvia impele Carlos que passa a se sentir capaz de fazer algo. Não poderia morrer ali sem agir. Ao menos lutariam.
— A gente vai ter que pular pela janela. Fala Carlos tentando assumir algum papel de liderança.
Ambos olham lá embaixo e o medo de quebrarem as pernas, ou mesmo de morrerem com a queda, lhes sobrevêm. Neste momento ouvem-se batidas na porta. Eram as crianças que já haviam alcançado-a. Na casa da frente, a cabeça de Vera ainda é usada como troféu e seu corpo é pisoteado em pleno quintal frontal daquela casa.
— Olha aquela merda. É a cabeça do Murilo. Chama a atenção Carlos passando as mãos em seu pescoço.
— Vamo ter que pular logo. Reage Sílvia se adiantando.
Não havia muito o que escolher. Se ficassem, seriam pegos pelas crianças que já estavam à porta. Se pulassem, se machucariam. Ainda que isso não ocorresse, estariam bem a vista de uma gurizada que ainda estava debandada pela rua.
— Eu vou pular. Afirma Sílvia passando pela frente de Carlos.
É isso que ela faz e Carlos vai logo em seguida. Ambos caem desjeitosos no chão. Algumas crianças da rua os vêm e correm na direção destes chamando os outros. Sílvia sente muita dor no tornozelo e não consegue mais correr. Carlos apenas rala as mãos e tenta puxar esta para a garagem.
— Vamo. Vamo logo. Vamo pegar o carro! Determinava Carlos enquanto puxava Sílvia.
Esta procurava bravamente apertar o passo, mas seu manquejar a impedia de ser mais ligeira. Enquanto isso, as crianças já bufavam em suas nucas. O casal chega ao portão e Carlos, em pânico, tentava posicionar a chave para abri-lo. Em pouquíssimos instantes, os garotos chegam ao pobre casal. Os primeiros pirralhos a alcançarem-nos foram afastados com cutucadas e empurrões de ambos. Mas logo, a força da juvenil multidão superou os quatro braços adultos de Carlos e Sílvia. Esta última, esbraveja e se retorce tentando se desvencilhar das mãos sujas dos pequenos. Não era possível, pois os pivetes que haviam adentrado na residência a pouco, já haviam retornado e somavam forças para segurar os dois que são levados para sala em meio a grande balbúrdia.
Carlos e Sílvia são deitados com as fuças viradas para o teto no meio da sala, enquanto a gurizada apertava as mãos e os pés destes. Em meio a isso, um rapaz com aproximadamente dezessete anos de idade, surge como um chefe cacique andando de um lado a outro. Olhava fixamente para os miseráveis adultos. O rapaz esta de chinelos, calça moletom azul-escuro bem surrada, camisa branca encardida e vincada. Um outro garoto, esse bem mais novo, também aparece ao lado deste primeiro. É Gustavo, filho de Carlos e Sílvia, que observa com um olhar inocente, mas não menos perverso. Gustavo está bem vestido com sua juvenil calça jeans e camisa manga longa vermelha.
— Filho! O que ta acontecendo? Me ajuda! Grita Sílvia.
— Tapa a boca dessa daí. Ordena o rapaz mais velho, que com apenas dezessete primaveras, parecia um sargento maduro e experimentado.
— Rapaz. Como você se chama? Pense bem. Não vai fazer nenhuma besteira. Filho. Gustavo. Fala com ele. Fala com a gente. Solicita Carlos em angústia.
— Fecha a boca desse aí também. Meu nome é o Mateus. Mas isso é o de menos aqui. Redargue este.
Uma das crianças logo atende a ordenança de Mateus e tapa a boca de Carlos.
— Eles vão sacrificar suas vidas em troca de uma criança inocente que foi dada para estranhos não é Gustavo?
O garoto faz que sim com a cabeça. Sílvia se contorce toda pelo chão tentando responder algo. Mateus pega uma faca grande e fala aumentando o tom de sua voz gradativamente:
— Pra vingar a vida de uma menina inocente entregue pra estranhos. Pra vingar a vida de outros filhos mais novos largados nas mãos de desconhecidos. Gustavo, acaba logo com essa sua raiva. Faz o que você tem vontade. Faz justiça.
O menino não tinha expressão alguma em sua face. De maneira fria e focada, ele toma a faca das mãos de Mateus e se ajoelha no peito de Sílvia. Esta tentava gritar, mas era impedida pois ainda tinha a boca tapada. Gustavo crava a afiada faca no pescoço desta que serpenteia em agonia. Outros guris ajudam a segurar a mulher. O menino perpassa, com dificuldade, todo o pescoço da mulher. O sangue era golfado pelas mãos e rosto de Gustavo que parece não se importar com o lamaçal avermelhado. Em pouco tempo a cabeça de Sílvia está pendurada pelos cabelos nas mãos do garoto. Os dois olhos abertos, se bem que um estava quase vedado. A boca aberta com a ponta da língua um tanto pra fora.
Carlos percebe que não terá misericórdia e tenta se desvencilhar das mãos joviais que o seguravam. Os garotos que seguravam Sílvia, se vão direto em direção a Carlos no intuito de ajudar a deter este que, certamente, oferecia mais resistência diante da possibilidade de morrer. Gustavo, com o rosto salpicado do sangue de sua mãe, se posiciona em cima de seu pai. Este, se desespera e tenta dizer algo.
A polícia vinha chegando...
Cristiano, sentindo-se turbado, se remexe em sua poltrona. Esta sensação, vez ou outra, lhe inundava quando assistia algum filme, lia algum livro, ouvia alguma história, ou mesmo, quando presenciava alguma situação envolvendo crime, injustiça ou injustiça. Cristiano se turbara, e ao mesmo tempo, estava apreciando o que vinha ouvindo.
— Gosto dessa merda. Pensa abrindo um continente sorriso. Eu sou um lixo mesmo... Será que é tão ruim assim sentir prazer nisso? Qual o problema? Não é real mesmo. Se não é real não tem porcaria nenhuma de problema. Mas esse prazer que sinto me enche o saco. Avalia Cristiano.
O fato é que o rapaz, já não suportava mais sentir gozo nestas coisas. E era exatamente esse o problema: Sentia gozo e este sentimento lhe proporcionava culpa. Ele se levanta enquanto o narrador ainda está a relatar que a polícia chegava com as viaturas. Por um instante, Cristiano se detém e cogita permanecer, quer ouvir o resto. Quer saber de mais gente a sofrer e, principalmente, morrer. Mas a ira que sentia por si mesmo era maior. Isto o impele a arrancar o fone de seus ouvidos.
Apesar da densa escuridão, era possível subir de degrau em degrau graças a rala iluminação advinda do feixe projetado na tela. Avança até o corredor que permanece como antes: desolado. Entra na sala logo a frente que é exatamente igual a que estava. Põe os fones, aperta o botão que dá início a um áudio e ouve uma voz dizer assim:
Estabilidade. Quem não quer isso. Quem não quer a garantia absoluta de que nada vai mudar, nada vai ser diferente, nada vai oscilar. Bom… Tem aqueles que querem mudanças. Querem aventura, novidade. Mas não no meio da família de Evandro. Todos ali buscavam segurança. Não se importava com muitos teres. Melhor uma garantida inópia do que uma divícia hipotética. Melhor o pouco não fazendo nada, do que alguma coisa fazendo muito. Para eles, o pouco garantido era melhor do que qualquer risco.
Evandro entrou para o emprego de seus sonhos. Assumiu o cargo do pai aposentado numa repartição pública. Poderia ter sua família e suas poucas posses sem dor de cabeça. Ainda não havia se casado, mas logo isso mudaria. Afinal, estava no emprego dos sonhos. Bem. Não era perfeito. Afinal, nada é perfeito. Mas em comparação com seus amigos, Evandro era rei. Em terra de miseráveis, quem tem um chinelo velho pra calçar, é senhor. Tinha garantido, todo fim de mês, seu salarinho. Poderia comprar sua casinha, seu carrinho, tomar sua cervejinha, e viver sua vidinha, pois agora, receberia seu ordenado, religiosamente até o fim de sua existênciazinha. Poderia ser demitido sim, mas isso era muito, muito, muito difícil de ocorrer, quase impossível. Só se ele avacalhasse muito. O que jamais faria. Ele não era estúpido de perder uma dádiva como essa.
Tempos depois de assumir seu maravilhoso posto, Evandro, sem mesmo saber por que, seguia diariamente uma moça pelas antigas, escuras e vampirescas ruas da Sé. Não entendia o que o movia em direção a alguma pessoa totalmente desconhecida. Algo obscuro pairava em seus pensamentos. Como ele poderia seguir alguém sem nenhuma causa aparente? Enquanto caminhava atrás da morena moça, procurava se camuflar no meio do povaréu que passava.
— Será que sou um estuprador? Um tipo de doido que segue gente sem motivo? Pensava Evandro.
Ele queria, sem propósito reconhecível, olhar no rosto da jovem, ainda que esta atitude estivesse no campo do total desatino. A moça fez o mesmo caminho de sempre e entrou no mesmo prédio residencial. Evandro se recosta na suja parede ao lado de uma padaria e passa as mãos no rosto. Procurava entender por que estava, pela quinta vez, naquela picaresca situação.
Observa que, de dentro da padaria, um dos balconistas o fitava. Procurando passar a ideia de que nada de anômalo havia ocorrido, Evandro recobra sua postura ereta e volta a caminhar.
No dia seguinte, em seu trabalho, nada de diferente. Sobe as escadas do prédio que ficava no centro velho de São Paulo. Passa pela recepcionista, que permanecia como antes: Uma grande lagarta esverdeada. Atravessa os cubículos ocupados pelos, já conhecidos, funcionários insetos e vai para seu posto.
— Evandro. Você tá atrasado de novo. Esbraveja o chefe de Evandro surpreendendo-o.
— Desculpa. Responde sinteticamente este.
— O que aconteceu? Pergunta Sérgio oscilando sutilmente suas asquerosas asinhas de barata.
— O ônibus atrasou.
— Você sabe que não posso te mandar embora só por isso. Mas hoje, vou ter que descontar esses dez minutos de atraso em seu salário. Vou ter que fazer isso sempre a partir de hoje. Você vai acabar se prejudicando no final do mês.
— É justo. Pode descontar..
— Você sabe que não gosto de fazer isso. Mas sou obrigado. Você tem se atrasado todo dia.
— Ok. Reage prontamente Evandro.
O aspecto amarronzado e brilhoso de Sérgio faz Evandro sentir-se enojado. Por isso evitava qualquer confronto ou arrasto na prosa. Apenas balança afirmativamente a cabeça a fim de que a barata humana saísse de sua frente. Seu chefe volta para sua sala deixando Evandro com suas pilhas de papéis e processos relacionados à companhia pública de saneamento básico.
Após uma hora de trabalho, Evandro começa a pensar na moça que ele perseguia a uma semana. Pensa em seus cabelos negros levemente ondulados sambando por suas frágeis costas.
— Vou acabar com isso de uma vez. Pelo menos tenho que falar com ela e entender o que tá acontecendo. Pensava.
No final do expediente, todos os grandes insetos anafados saem de seus respectivos postos andando vagarosamente. Evandro se apressa para chegar rapidamente em seu apartamento. Pretende se banhar, se trocar e se livrar daquele ar pesado advindo da repartição em que trabalhava.
Chega em sua kitnet enquanto ainda é dia. Quer alcançar a tempo a moça que, nesta última semana, não se atrasou sequer um minuto em seu percurso. Coloca sua melhor roupa após um atilado banho. Sai do metrô saltando na Praça da Sé. Evandro jamais havia conseguido fitar frontalmente a jovem que sempre surgia repentinamente em meio à noturna multidão paulistana. Mas hoje seria diferente. Olharia no fundo de seus olhos e lhe dirigiria a palavra. Saberia de uma vez por todas por que ela, e somente ela, havia o magnetizado.
Lá vinha ela pontualmente às dezenove horas. Intrusos andarilhos perpassam constantemente pela frente da moça não permitindo a visualização plena de sua face. Ainda assim, Evandro sabe que se tratava da tal moça, simplesmente por que algo lhe dizia isto. Ele a segue desviando-se dos indivíduos que cruzam seu caminho. Não consegue alcançá-la logo de início. Nem mesmo ele sabe se não a alcança por que é impedido pela multidão ou por que não tem coragem. Continua em seu encalço visualizando-a de longe. Ela já se aproximava de seu apartamento e Evandro não poderia perder essa oportunidade. Quando a moça ia entrando pela porta do prédio, Evandro se adianta esbarrando num cidadão qualquer. Consegue, com esforço, tocar em seu ombro. A assustada jovem se vira para ele, ao mesmo tempo em que se esquiva. Uma luz emanava da cabeça da moça obrigando Evandro a proteger suas vistas com as mãos. Isso, entretanto, não o impedia de ver os detalhes do rosto dela. Ela é, para Evandro, a criatura mais formosa que este já havia deitado os olhos. Queixo fino e pele morena reluzente de tanto vigor feminil. Negras madeixas brilhosas, onduladas e repartidas ao meio. Cílios espessos. Olhos vivos e bem delineados.
— Com licença moça. Qual é seu nome? Questiona este ainda com as mãos protegendo os olhos.
— O que você quer? Interroga suspeitosa.
— Nada de mais... Quero te conhecer. Responde Evandro tartamudeando por sentir um evidente constrangimento.
— Sai de perto de mim.
— Calma. Num assusta não. Intervém ele ainda escudando suas vistas com uma das mãos e mostrando a palma da outra em sinal de avença.
— Licença. Vou entrar.
— Espera. Deixa eu te explicar. Evandro pensa um instante e decide ser franco. Eu venho te seguindo, nem sei porque, mas gostaria de saber.
— Olha moço. Se você não me deixar em paz eu vou gritar.
— Eu consigo ver essa luz que você tem. De perto dá pra ver. O que é isso?
Ela emudece por alguns instantes demonstrando não estar mais se esquivando e fala assim:
— Ninguém nunca me falou disso que tenho.
— É mesmo? Eu sou o primeiro?
— É sim. Quem é você? Quer dizer. Qual seu nome?
— Evandro. Muito prazer. Faz estendendo a mão.
— Manoela. Responde estendendo, por sua vez a sua.
Ambos ficam calados por um instante. Manoela fala arrumando seu cabelo atrás da orelha:
— Então você vê a minha luz né. Quer entrar. Sugere Manoela.
— Se não for incômodo.
— Vamos.
No apartamento, Evandro abandona o acanho, e lhe dirige a palavra:
— Olha moça. Eu sei que tá tudo muito esquisito. Mas, como posso explicar? Você tem alguma coisa diferente. Não é cantada não. Não falo da sua aparência. Bom.. Não falo só disso. Você é bonita também. Mas eu to falando de outra coisa.
Manoela está sóbria. Assentada em seu sofá com as pernas juntas procura responder anulando a falta de jeito de Evandro.
— Eu entendo. Mas eu tô surpresa. Você é a primeira pessoa que vê isso. O que exatamente você consegue enxergar?
— É como se você tivesse uma lanterna na cabeça. Mas não dá pra ver a lanterna. Só a luz. No começo ela incomodava um pouco as minhas vistas, mas agora não. Me acostumei com ela.
Manoela balança a cabeça afirmativamente como se o rapaz tivesse dito o que ela queria ouvir.
— É isso mesmo. Não sei o que é isso. Desde que me conheço por gente vejo isso no espelho. No começo tinha vergonha. Falava isso pros meus pais quando eu era pequena. Eles diziam pra eu não ficar falando essas coisas, se não eu ia parecer doida. Aí eu nunca mais falei disso pra ninguém. Mas eu não sei o que é.
Nenhuma culpa pesava sobre os ombros de Cristiano. Isso por que não podia ser acusado de sádico pois não estava diante de algo que envolvesse qualquer tipo de morticínio do qual ele apreciava. Entretanto e, ainda assim, o jovem estudante almejava sangue, morte e pessoas implorando por suas vidas. Estava ouvindo algo que não lhe agradava. E isso, ao menos, não lhe gerava culpa momentaneamente. Contudo, nutria expectativa por algo tenebroso, e justamente essa expectativa o incomodava por saber que, se realizada, sentiria o peso de algo fétido em seus ombros. Decide esperar um pouco mais para ver até onde a narrativa iria. Opta por suportar a agonia que é estar tranquilo e inquieto ao mesmo tempo. A história prossegue em seus ouvidos em meio a aconchegante escuridão da sala.
— Além da sua luz, que eu só consegui ver quando te olhei de frente, tem outra coisa. Eu ficava te seguindo sem saber por que. Não é papo de tarado não. Mas, sei lá, eu tinha a necessidade de te seguir. E nem sei por que eu tô aqui agora.
Manoela não mais apresenta sua feição sóbria. Parecia ter alguma coisa em mente. Procurava uma melhor forma de se posicionar no sofá.
— Olha. Eu não te contei tudo. Vem aqui comigo. Pede Manoela se levantando.
Pela mão, ela o conduz delicadamente a uma sala. Fecha a porta e ambos ficam num pequeno cômodo escuro. Manoela liga um abajur de cúpula vermelha que transmite uma parca luz. O aposento tinha um sofá todo colorido assim como o tapete. Nas quatro paredes haviam gravuras em tons de rosa, lilás e roxo. Eram grandes desenhos de mulheres nuas tendo relação sexual umas com as outras. Havia um criado-mudo de madeira pintado de preto. Em cima deste, uns papéis com desenhos, inúmeros lápis e canetas, todos, das mais variadas colorações.
Manoela tira sua camisa e seu sutiã deixando a mostra seus duros e proporcionais seios. Evandro agarra a fina cintura da moça e a beija. Chupa os bicos de seus seios que eram espetados e robustos. Ela o contém:
— Espera um pouquinho aí. Vou pegar uma bebidinha pra gente.
Manoela volta com dois copos rasos e uma garrafa de vidro contendo uma bebida avermelhada. Ambos bebem enquanto se beijam. Manoela derrama um pouco da bebida nos seios e Evandro lambe e sorve do líquido que extravasava por sua barriga.
Este começa a se sentir estranho, apesar de estar cada vez mais excitado. Como que num abrir e fechar de olhos, de forma repentina, apareciam e desapareciam pessoas no quarto observando os dois. Estas estão trajadas com um capuz preto. Evandro não se importa e arranca violentamente as calças de Manoela. Estava como que em outra dimensão. As pessoas que surgiam esporadicamente não mais desapareciam e formavam um círculo em volta do abrasado casal. Manoela o beija, o lambe e lhe dá pequenas mordiscadas. Passa a mordê-lo com mais ímpeto. Evandro não sente dor alguma, pelo contrário, fica mais estimulado a adentrar à moça. As pessoas permanecem rodeando a ambos de braços cruzados. Manoela morde cada vez mais forte, no entanto, Evandro tem seu corpo como que anestesiado.
A cópula se inicia com o rapaz por cima dela. Manoela o morde violentamente arrancando um pedaço de seu ombro. Ela mastiga e engole sua carne, feito um cão esfomeado com o focinho atolado no comedouro. A jovem, que já apresentava os lábios maquiados com um, batom vermelho borrado, tem sua boca ainda mais rubente com o espesso sangue que de lá vertia. Evandro sente apenas um leve e lascivo ardor. Manoela morde o outro lado do ombro tirando-lhe mais um pedaço. Este, ela ingere quase que sem mascar. A parte superior do corpo do rapaz, a boca de Manoela e o tapete ficam enlameados de sangue.
Evandro não se importa com nada, quer apenas continuar penetrando a moça. Uma das sinistras pessoas encapuzadas que lá estavam, entrega para Manoela uma adaga dourada toda entalhada. Evandro vê a jovem mover o objeto em sua direção, mas, por estar como que entorpecido, não esboça reação alguma. Ela crava a adaga em seu pescoço ocasionando um interminável esguicho avermelhado. O jovem permanece sem sentir nada e mantém, como um robô humanoide nu, seu movimento de antes. Ambos estão lavados de sangue, principalmente Manoela, que tem seu rosto todo coberto pelo espesso líquido. O rapaz, começa a perder capacidade de movimento por estar fraco. Ela o empurra de lado e se posiciona em cima deste que começa a virar os olhos e estrebuchar. Manoela evita tocar nos cabelos com os dedos por estarem banhados em sangue. Por isso ajeita, com o punho, suas madeixas que invadiam suas vistas. As pessoas de capuz preto começam a entoar uma sinistra canção fúnebre. A jovem toma a mão do rapaz e morde seu indicador com violência arrancando-o...
Cristiano se regozija com o que ouve e ao mesmo tempo se penaliza. Arranca o fone de seus ouvidos e, como um típico humano, procura inibir suas vontades. Ainda que permanecesse desejando ouvir aquelas histórias, se dirige a um banheiro que ficava no interior da sala onde estava. A luz do banheiro também era baixa e piscante. Evandro se olha no espelho fitando seu reflexo, que ora surgia, ora desaparecia, no acender e apagar intermitente das luzes.
— Não tem jeito mesmo. Não tem como vencer isso. Pensava Evandro enquanto molhava seu rosto e esfregava os olhos.
Cogitando voltar e ouvir o restante do áudio, ouve um barulho que vem de um dos mictórios. Quando abre a porta da divisória, eis que vê uma cena indecifrável ao seu intelecto. Havia uma criança de uns dois anos de idade se apoiando nas pernas de um homem que estava pendurado por uma corda. A criança não chorava, apenas segurava as pernas do homem tentando manter-se em pé.
Cristiano segura a criança no colo. Esta, estende seus bracinhos em direção ao homem morto e começa a chorar. O rapaz a recoloca onde estava. Com a intenção de pedir ajuda, ele se volta para a porta que estava fechada.
— Não lembro de ter fechado.
O rapaz puxa a maçaneta, mas a porta está trancada. Pressiona com mais força e não consegue abri-la. Dá umas pancadas com a mão a fim de fazer barulho e chamar a atenção.
— Ei! Abre aí! Abre! A porta tá trancada! Grita Cristiano. Ninguém responde.
— Tem uma criança e um cara morto aqui! Grita ainda mais alto o jovem que, em realidade, não via a hora de voltar a ouvir o áudio.
— Tem uma criança aqui e um defunto e eu pensando em ouvir aquela merda. Pensa ele enquanto tomava assento no chão gelado.
Alguns minutos se passam e Cristiano se levanta cheio de fôlego. Dá vários chutes com a sola do pé produzindo grande barulho. Chuta um tanto mais se cansando. Não conseguiria voltar ao áudio tão cedo. A criança começa a chorar e Cristiano se ira contra ela. A toma nos braços e a leva ao outro mictório.
— Você quer chorar!? Quero ver se vai chorar agora. Vocifera Cristiano à criança enquanto segura a mesma pelas pernas diante da descarga.
Cristiano, com os olhos arregalados e semblante desfigurado, pressiona a criança na água da privada. Esta se debate tentando se livrar daquela agonia. Era a primeira vez que o rapaz intentara contra a vida e alguém. Já não se reprime mais. Libera sua alma para sentir o prazer de ter o poder de decisão sobre a vida de alguém. Era como um deus. A criança ainda se debatia e Cristiano segura uma das pernas da criança com apenas uma mão. Com a outra, pressiona violentamente a cabeça da inocente criatura contra a água consumando o ato criminoso. O rapaz deixa o corpinho da vítima entalado de ponta cabeça.
Muita água havia sido extravasada da privada molhando a calça do rapaz. Este é tomado por uma sensação de extremo vazio. Seu coração aperta. Havia matado e havia tido muito gozo nisso. As luzes ainda piscantes do recinto começam a incomodá— lo sobremaneira. Se volta ao espelho, mas não consegue levantar sua cabeça e se fitar. Não sabe por que fizera isso.
— Criança chata. Agora não chora mais né? Matei sim. Mas por um bom motivo. Ia ficar sem pai mesmo. Foi melhor assim. Tive que fazer isso. Foi uma coisa boa. Resmunga o jovem tentando amenizar sua latente culpa.
Cristiano sente que apenas Deus lhe observava desapontado. Era como se não houvesse mais ninguém no mundo, apenas ele. Cristiano havia tirado a vida da última criatura existente na face da terra.
— O senhor tá aí me olhando né. Pois é. Olha só o que aconteceu. Por que você colocou culpa em mim? Por que me fez ter ira daquela criança? O senhor sabe o que faz né. Deve ter sido melhor assim.
Ele se achega ao defunto e, com dificuldade, consegue tirá— lo de lá derrubando o fétido saco sem vida ao chão. Faz um novo e caprichado nó na corda.
— É o destino. O senhor me trouxe aqui pra fazer isso com aquela criança e comigo mesmo.
Cristiano sobe na privada. Amarra, caprichosamente a corda em seu pescoço, e se atira violentamente.
— Que vida mais frágil que Deus criou. Consigo esmagar ela com a maior facilidade. Pensa Cristiano em agonia enquanto vê sua existência se esvair.

Fim…

Michael de Lima Canova - Pseudônimo: Estevão Mendonça de Albuquerque
Carapicuíba - São Paulo - Brasil

Nasci no dia 21/07/1987. Estou concluindo o curso de geografia em universidade federal. Atuo como professor. Conclui minha primeira novela: O insubstituível senhor besouro. Escrevi dois contos: Cine Rádio e Maranhão. Estou trabalhando em um romance: Festa fúnebre.