Abr de 2014

Ano IV - Número XXVIII

 

 

O BENZEDOR DE COBRAS
por Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta 

Sebastião das Cobras. Tião das Cobras. Tião Cobreiro não — não gostava. Arredio, fechado, misterioso, ninguém nunca soube como vivia, exceto que andarilhava, sem hora diurna ou noturna, por matas e escampos, por vales e montes. Morava apartado. Nunca o viram trabalhar, comprar, pedir, cozinhar, comer... De sua chaminé não subia fumaça; sua janela —única— não se abria jamais.
Chamado, não se fazia de difícil. Comprometia-se a retirar todas as cobras do local infestado, qualquer que fosse; desde, impunha apenas, que um lugar delimitado: quintal de casa, jardim público, terreiro de fazenda... Não concordaria em expulsar suas amadas cobrinhas do Planeta, nem para muito longe de seus passos andejos. Ah, sim, outra condição, rigorosa: não fazer o interessado violência contra elas.
O povo dizia que era bruxo, feiticeiro, adivinho, que tinha parte com o Demo. As beatas, persignando-se à simples menção do seu nome, diziam-no o próprio Capeta.
Não cobrava pelo serviço.
O povo o procurava e o cercava, quando o sabia em função, a curiosidade vencendo até os escrúpulos e o medo de carolas e de crianças.

Por isso, na sede da Fazenda Bonita, próxima da entrada do arraial, no dia anunciado por Seu Quincas da Mata como o da exorcização de seu pedaço de terra, já bem cedinho um povaréu ia se chegando, se acotovelando, parolando, assuntando.
Quincas tomara suas cautelas. Tinha longa experiência dessas concentrações de gente ociosa. Eram fatal oportunidade para namoricos e ciumadas, mexericos e politicalha, de repente brigas e mortes. “Facada e tiro não havemos de ter”, dizia. “Quem vier pode ir se achegando, que é bem-vindo. Cachaça e de-comer não faltam. Mas os instrumentos ficam na porteira, com o Tonhão.” E ficavam mesmo, que o sorriso lunar do fiel Tonhão, um preto dobrado em altura e largura, não enganava ninguém.
Tudo era um piquenique buliçoso, quando um peão gritou, fitando a estrada:
— Evém vindo!
Cessou a latomia, à aproximação encantada do Das Cobras. Tião pisava manso e mal falava. Com acenos de mão e de cabeça afastava e reunia a gentada, dispunha os grupos de modo a deixarem livres os trilhos.
A turba o apreciava embasbacada: baixinho, franzino, seco, a pele de uma cor negra bronzeada, indecisa entre o afro e o índio, bigodinho de caboclo, pachorra de capiau, súbito uma cantoria de cantador do sertão.
Tião convoca as cobras, grave e suave, conversa com elas, exorta-as a sair de suas tocas e moitas, explica-lhes por que lá não devem ficar — pro mor dessa gente boa que não faz mal a vivente. Às vezes estende os braços, com as mãos espalmadas, impostas em bênção.
A gentama, silenciosa, ouvia. E Tião esganiçava uma espantosa canção:
 

Cascavel cascavilheira
guizozinhos de papel
caravela em mar de poeira
vem brincar de passa-anel.


Um frio percorria as espinhas quando, às notas e às palavras da serpentina trova, monotonamente repetidas, os primeiros ofídios emergiam dos tufos de capim, deslizando em esses de uma dança do ventre sinistramente voluptuosa, no rumo do benzedor.
Tião, sem mudar de tom, cantareja outra quadrinha, avultando o contraste entre a voz rústica e os versos misteriosamente distantes do entendimento geral:
 

Jararaca trombeteira
dançarina de cordel
vem gingando marinheira
com teus oitos de arganel.


E à medida que repete a ladainha sui generis, aos olhos dos circunstantes transidos, o largo da fazenda se transforma num serpentário fantástico. O mundo a pulular de seres rastejantes que passam, ignorando-os, pelos homens, mulheres e crianças hirtos, hipnotizados! Rente às pernas das mulheres, ao alcance das pedradas dos meninos, sob os olhos dos marmanjos, escorregando no silêncio gelatinoso e imóvel, as serpes vão passando e detendo-se, como em anfiteatro, defronte ao benzedor, cabecinhas nutantes, línguas vibráteis, escutando-lhe a prédica.
O ritual prossegue, para cada família uma trova, uma canção:
 

Urutu mana cruzeira
cruz na testa de revel
vem alumiar esta feira
com tua estrela fiel.


Para a delicadeza das corais, varia um tanto a cantilena:
 

Vem corola coralina
coral linda de rubi
de topázio e turmalina
calor como nunca vi
colar de fogo e nebrina
vem colear por aqui.


Com o desfile das corais completam-se o quadro e os amavios.
E assobiando e cantando, ante o poviléu suspenso, Tião sai, acompanhado de um cortejo aquadrilhado de trinta cobras taludas e multidão de cobrinhas, corais de cores galantes, cascavéis marcando o passo com chocalhos requebrantes, cobras várias, venenosas, sem veneno —estas na cola das outras, sem ser chamadas—, graciosas todas elas, coleando dançarinas, colubrina procissão, cobras-verdes, caninanas, cobras-d’água, jararacas dulcificadas, amáveis, sucurizinhas festivas...
À frente as urutus de estrela na testa.

 

Anderson Braga Horta
Brasilia - Brasil

Biografia: nasceu em Carangola (MG) a 17.11.1934. Fez o Ginásio em Goiânia (GO), e Manhumirim(MG); o Clássico em Leopoldina (MG); a Faculdade Nacional de Direito na Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1959). Encontra-se em Brasília desde 1960, onde fez o primeiro vestibular da UnB, onde iniciou o Curso de Letras Brasileiras. Foi Diretor Legislativo da Câmara dos Deputados, professor de Português, cofundador da Associação Nacional de Escritores, de que foi secretário-geral, do Clube de Poesia de Brasília e de seu sucessor, o Clube de Poesia e Crítica, de que foi presidente, e da Associação Profissional, depois Sindicato dos Escritores do Distrito Federal. É membro da Academia Brasiliense de Letras, de que foi 1.º-secretário, e da Academia de Letras do Brasil, de que foi 2.º-secretário. (de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anderson_Braga_Horta)
 

 

SOU EMIGRANTE COM ASAS DE ARRIBAÇÃO
Portugal minha Nau Catrineta no alvorar de uma Terra já sem Ninhos
Por António Justo

António da Cunha Duarte Justo 

O emigrante continua a ser um estranho de um outro planeta; é estranho onde entra e é estranho quando volta; passa a vida a viver na meia-luz de um sonho que não acorda. De essência enjeitada, seu lar é caminho, de passarinho sem-abrigo, a fazer ninho à borda da vida.

Há motivos para fugir, há razões pra se ir embora, há vontade pra bater a porta, e…, seguir a ânsia do sair do nada. Há sempre um momento e um repente pra fazer da esperança uma vela onde o presente se aquece e alumia, na tentativa, de dar à luz um futuro não humano mas digno. Este futuro, filho do sofrimento, embora gerado na mágoa da saudade, é afagado por mãos parteiras do sonho, mãos singelas e puras, de familiares e amigos que segredam promessas onde ecoa a voz da terra. Esta voz do coração, este zumbido no ouvido, não se cala e mais se sente, a celebrar, em cada emigrante, o desassossego das águas do Cabo na luta por transpor o Bojador, de uma vida, toda mar. Corri mundo a ver as suas luzes e nelas mais não vi que as sombras do velho Portugal! Agora que vivo, na penumbra de Portugal, onde o cheiro a povo não faz mal, sinto vontade de voltar pra dizer: acorda povo, volta ao arraial, liga tu as luzes e faz a festa…

De volta à terra, nos pátios e caminhos, as crianças já não brincam; neles só sentimentos desfraldam ao vento; meus desejos, com o pó se vão, levados em nuvens de pensamentos; no longe da terra, vejo ainda, bandos de passarinhos negros, voando a mágoa de um caminho errado e de uma terra já sem ninhos.
Dançarino, agora, na linha do horizonte, feito de enganos já sem filhos, tornei-me acrobata da insónia a acenar para a vida de desejos grávidos, a voar ainda no sol das asas, mas já sem terra onde poisar.
Na bagagem da recordação saltitam sonhos meninos de uma vida retalhada a brincar com a vontade. A vontade de ir e vir sem poisar!
Sou povo a voar, nas asas de Portugal, a subir e a descer, as nuvens do sentimento, no Natal e em Agosto. Portugal, dentro e fora, anda a dias, a regar a europa seca com lágrimas atlânticas.
Aquela parte do Portugal povo, não renegado, padece a outra parte que segue as pegadas duma europa rica, mas de futuro aleijado. Meu povo, o nevoeiro vai passar, ainda não é tarde para voltares à fonte e reencontrares o sentido do caminho que é nosso: as sendas de Portugal. Estás grávido de bem e de humanidade; aguenta um pouco as dores, para dares à luz o novo Portugal.
Portugal, és a nau Catrineta que ainda tem tanto que contar! O teu destino tem andado, sem timoneiro, nas mãos de gajeiros iluministas que profanaram a nau para viverem do nevoeiro de fora e do vermelho dos bordéis dos camarotes, sem saudade nem desejo de avistar praias de Portugal.
Em Portugal transborda o mundo. Daí o caracter migrante de um povo não humilde mas modesto, onde germina a esperança que o faz andar, a teimar a vida, dentro e fora, num ânsia de arar Portugal pra gerar fartura, para todos, regada com a chuva fértil do transcendente.
Portugal é a Nau Catrineta que vai arribar numa Terra bendita! Não te esqueças da tua missão; foi ela que te fez; a tua nau é pequena mas, como a gruta de Belém, tem a modéstia do viver e o fogo do amor, a aquecer todos os povos.

António da Cunha Duarte Justo
Alemanha
 www.antonio-justo.eu