Abr de 2014

Ano IV - Número XXVIII

 

 

CONVIDADO DO MÊS

Rejane Machado de Freitas Castro

 Nome Literário: Rejane Machado

Resumo Biográfico

 Rejane Machado

Nasceu no Rio de Janeiro, RJ, aliás na época D.F.
Formação: Escola Primária Evangelina Duarte Batista; Escola Técnica Nacional; Colégio Pedro II;
10 Cursos Psico-Pedagógicos- MEC
Licenciatura Português/Literaturas-;Faculdade de Letras da UFRJ-
Mestrado em Literatura Brasileira- UFF
Doutorado: Linguística e Filologia Românica - UFRJ
Atualização em Literaturas: UFRJ
História da Arte ( ouvinte) Fundação Gulbenkian- Lisboa
Percorreu praticamente todos os estágios do magistério; conhece boa parte do mundo
Colaborou em vários jornais literários, exercendo Crítica literária.
Tem 10 livros publicados, entre Romances, Contos, Crônicas, Ensaios e literatura para a Infância. Atualmente dedica-se à Crítica Literária, e continua a escrever.

Tem dois ensaios para publicar brevemente, livros infantis 1 livro de Artigos críticos.
Estuda Música e Canto em Coral erudito
Ama à música clássica e à poesia tradicional; gosta de cozinhar, cuidar da família, ler, escrever longas cartas, fazer trabalhos manuais e caminhadas; ama bichos, flores, gente sincera e simples, preserva o hábito de alegres reuniões familiares;
Não gosta de televisão, nem de Carnaval, não usa maquiagem e não pinta o cabelo.
É espiritualista e acredita na Esperança e na sobrevivência dos valores morais, e principalmente no poder transformador da Arte.
 
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A FRUTA DENTRO DA CASCA
Oleg Almeida e sua Antologia Cosmopolita

por Rejane Machado

 

 

O homem que veio do frio ataca outra vez. No bom sentido, desafiando-nos com uma amostra do seu talento que muito cedo se revelou. Incluindo o seu despertar para este mundo submerso e complexo. Novos poemas indevassáveis, à primeira vista. Uma Antologia, o que pressupõe seleção de páginas diversas, no assunto ou no tempo da sua composição. Mas é sempre o mesmo poeta sensível, em cujos versos se percebe uma carga intensa de lirismo. Hiperbóreo, sempre, Ashverus caminhante de muitos caminhos, de muitas paisagens, carrega consigo ainda um excesso de conteúdo de que precisa livrar-se, distribuindo-o em belíssimos quanto estranhos comunicados poéticos. Não nos parece que se esgote tão cedo, esta fonte generosa. Ele ainda tem muito a nos revelar. Um certo desespero atravessa este ar glacial com que procura se defender do inexplicável peso da vida. A realidade o agride e o desconforto não o pode calar.

Sua poesia tem muitas formas. E o sentido? Ao compasso do pensamento, formando um clima- será assim tão simples? Haverá linearidade? Vejamos. É necessário percorrer detidamente estes fragmentos que compõem a sua tão precoce Antologia. Precocidade que atribuímos, com certa estranheza, a quem tanto tem, ainda, a dizer: é apenas um jovem, amadurecido pelas experiências fortes.

Para despistar localiza sua posição: circunstâncias normais de lugar habitado, vida pululando ao redor, a chuva (leit-motiv) e o frio, uma antiga música de obsoleto realejo provocando particular angústia, movimento e vida-- conversando as pessoas se entendem;- e então decide partir- enfrentar a lembrança do passado onde encontrará o amigo, sempre observado pelos que já não estão, condicionados pela chuva que molha a roupa e a alma.

Num primeiro olhar, esta especial Antologia (de si mesmo?) expressa sentimentos en train de libéracion. Como viver com esse acúmulo que quase o sufoca? Mas essa poesia tem diversas camadas. Uma imediata, exterior, que se mostra através da significação denotativa de palavras escolhidas e suas combinações semânticas; enganadora, porque imediatamente se percebe outra, mais profunda, que detém, esta sim, o sentido verdadeiro que não se desvenda à primeira vista. Escamoteável, sob disfarce coerente, jaz, submersa, sob o peso das palavras expressivas. Nada gratuito. É preciso certa habilidade e prática para penetrar os labirintos e descobrir aquele território comprometido adivinhado ali, onde as imagens se descortinam, medrosas, ocultando o signo do vero significado. Neste novo desvelar-se procuramos em vão uma pista que nos leve até ele. Como? Se a poesia é a única via, e ela tem tantas formas? E quantos sentidos? O pensamento se esvazia, pois a linguagem humana é inábil para traduzir estes expedientes de que ele se serve para escapar ao nosso olho crítico.

Temos que partir, certamente, das unidades frasais que nos desvendam um caminho tortuoso onde iniciar esta jornada em busca da verdadeira intenção do poeta que constrói e utiliza seus esconderijos. Desde uma inocente mesa de bar onde um homem evoca suas lembranças até uma escura furna onde preserva suas emoções. Seu amigo já não está ali; deixou somente sua aura e o reflexo de sua personalidade, uma forte impressão de momentos que partilharam- desde a brincadeira de se passarem por “dois gringos desocupados”, e por isso o brinde aos que igualmente já não estão: Gardel, Borges, Alfonsina, perplexos, dentro da sua esfera metafísica.

Neste novo livro, realizada a catarse, seria um novo homem, cheio de vida, pronto para o instante que virá. O encontro marcado há tanto tempo naquele bar em Buenos Aires, dois amigos y una botella de viño, e demais referências locais de calles famosas e música típica, fazem o assunto deste primeiro poema. Mas uma pergunta se impõe: a poesia requer assunto? Não lhe basta a ela e ao poeta a conjugação de um desejo forte de transmitir um momento único de beleza, uma necessidade de expressão, talvez um tenaz imperativo? Como expressar este momento de emoção profunda, transcendente?

Esse encontro que não se deu, marcado “a las cinco em punto de la tarde,” vigiado por “olhares empedernidos” de ilustres figuras, a exibir todas as impossibilidades, como era de se esperar, não lhe pacifica o coração, muito menos ameniza a saudade. - Porque o amigo jamais será encontrado. É necessário “mapear as plagas de onde não se retorna”. Ele avisara que não é possível livrar-se da infância, enquanto o nosso poeta que não é limitado por empecilhos, espera em vão, observado por seres que também já habitam o Hades. A poesia poderia ultrapassar os limites da sua especificidade e pressupor uma história? Deixar entrever no ar um resquício de episódio acontecido ou por acontecer; - um drama, como motivação à sua resistência? Não, decerto, mas ela consubstancia seus significados e o pensamento criador é território tão livre como os limites da própria ação, jamais contido por fronteiras. Ensaiando uma busca, o poeta inserido no clima do encontro que não se deu, realiza suas lucubrações questionadoras que tentam desesperadamente apreender um tempo já enquadrado num espaço transcendente, portanto, não mais passível de acontecimentos, talvez só se permitindo ser observado através da vitrine sob “uma chuva gélida e tristonha” que reflete o seu estado de espírito.

Consequência e recompensa: a afirmação do ser em estado de vigília poética. Que de nada necessita, senão desta sensibilidade que lhe permitirá o devaneio sem perigo de alienar-se, desfrutar de um direito dos reis! Voltar ao mundo e inserir-se numa realidade palpável. Concessão que lhe é feita a partir da perfeita noção do seu destino livre de posses, embora possuindo o mundo inteiro representado por (apenas)” “um grão de lirismo” que extravasará no direito que o amor lhe concede de dirigir-se à amada, que em troca, ingratamente, só demonstrará indiferença à sua devoção.

Ele transita do estado de sonho para a concretude do momento de intensa vida e nisso talvez esteja a maior habilidade deste poeta estranho: o circunstancial e o transcendente observados nas imagens comuns. A capacidade de concretização do ideal.
A chuva a enlamear, a esfriar, os dedos cruzados, as mãos que se tocam, ávidas de doação. Os contrários convivem; sabe-se que qualquer sofrimento há de se recolher, a vida é feita de altos e baixos, mas aí é que reside o encanto do que não se espera, e nem se pense no momento mau, simplesmente, viva-se. O amigo que não volta- estará presente na ciência que permite utilizar-se de vários planos temporais.

E são tão bonitos estes versos, dentro de seu mistério, desfilando momentos de êxtase amoroso, numa cerimônia antiga e delicada sob forma de cadência e ritmo e assonâncias ocasionais, revelando trato na escolha consciente de palavras, no artesanato cuidadoso que é apanágio de uma escritura sofisticada.

É preciso descascar estas estruturas para chegar à fruta protegida por tão rugosas escarpas. Porque esta poesia não se mostra, como constatamos, à primeira vista. O poeta defende-se quanto pode, protegido por metáforas ousadas a dar conta do elemento fantástico que atravessa o texto como uma afiada navalha a antecipar a tragédia. Tragédia que está diluída no ar, cerne das músicas” milongueras” que se espalham nos ares bons da cidade ao Sul. Não, entretanto, livre de um certo ar de mistério ao lidar com o fantástico, e não há como não curtir a doçura de um outono suave e manso, doce, entretanto atravessado pela rudeza da vida em convulsões sociais, ciclopes a galopar nas nuvens, os deuses sempre pacientes à espreita. Ninguém será poupado.

Poesia é imagem e ele nos descerra o outono que torna lindas as folhas, a mais bela estação do ano, que possui uma luz diáfana e torna dourados os parques numa gradação de cores quentes e o mais singular espetáculo da Natureza, folhas vermelhas, macias ao pisar, espalhadas ´pelo vento que oferece como mais encantador aspecto as árvores, que se tornam inesquecíveis pela beleza que explode em cores. O poeta observa, atento, mas para sua musa a visão não é a mesma- ela olhará pela janela e aborrecida ficará desgostosa e triste com a poesia do abandono que lhe comunica à alma a visão da realidade. O que para um é um espetáculo plástico de beleza ímpar para outro(a) pode ser uma paisagem aborrecível, tediosa- folhas douradas X céus cinzentos; a temperatura fria do seu coração X orgulho do súdito que prefere esperar por dias melhores, de vez que somente uma pobre ave, a asa ferida, se “anicha na cornija escorregável”. E sua persistência falha na tentativa de dobrar sua musa na expectativa do futuro que logo será presente! - a conclusão é que a palavra não vale nada perante o jogo denso da natureza pois “tudo ainda está por vir”- (a volta do objeto amado?)- um clímax de solidão extrema. Ele transita do sonho para o concreto dos momentos de intensa vida circunstancial das imagens plasmadas- o horror bíblico do inferno é apresentado em terríveis pinceladas. Mas o poeta precisa surfar acima de todas as estâncias, preservando-se para coisas mais altas, evitando o risco de se “atolar em banalidades”. É surpreendido, então, pelo surgimento de um elemento estranho que faz uma estranha previsão que se concretizará, enigmática e definitiva, fazendo o contraponto à beleza. O mundo em si é terrificante- a angústia e a impotência, marcas do ser vivo a conviver com o clímax do amor e a banalidade do fato corriqueiro- tudo é registrado em linguagem poética que só deveria expressar o encanto das coisas eternas.

O clímax é sempre original, nunca repetível quando há a afinidade que torna os amantes únicos e fazem combinar a eternidade do tempo e a criação do mundo num momento único. Menos propício ao romântico interlúdio, o sentimento pode explodir tanto numa tarde clara como numa noite infernal quando as potências celestes assombram, ameaçam com a feroz intempérie,- e a mão delicada procura a proteção da mão mais forte que lhe dará segurança e conforto, embora a proximidade desencadeie a fúria insana do sentimento a exigir pacificação. Necessária a voz que diz estou contigo, nada temas,- qualquer circunstância existencial ou mesmo temporal nos instantes de medo e/ou insegurança que o crescimento traz e que a maternidade controlará, breve, colado na pele, no hálito e no pensamento mostrando sempre a devoção dos que verdadeiramente amam. É a eternização de um momento de intimidade desencadeando uma expectativa desgostosa de final de sonho. Usufruir da vida já que não podemos mudá-la na sua dinâmica intranqüila, com acontecimentos extremos, violentos na maioria; dias que já amanhecem vermelhos, com “anjos tocando trombetas/ anunciando o Armagedon”... A solução talvez seja, à maneira da conclusão de Manuel Bandeira, diante de uma situação insolúvel: tocar um tango argentino.

Constituir-se-ão matéria poética a observação de pessoas que gastam o tempo com coisas de somenos?- a vida cinzenta de seres amorfos cumprindo rituais de vida exterior, o tédio dos servidores, a mesmice das coisas que não mudam; e uma mulher vulgar o bastante para atrair olhares fesceninos, são flagrantes que intrigam o pensamento de quem deveria estar ainda entregue aos seus jogos infantis...

Balada da minha infância é um romance construído em redondilha maior, apropriado à recitação, dotado de ritmo e métrica regulares. Avalia-se a perda da descontração a que não é possível entregar-se. Em seguimento, um curioso exercício construído em versos de dez e de sete sílabas demonstrando a mestria de quem domina a arte do versejar tradicional, cuja temática é a insurgência contra os regimes políticos a dispor dos destinos humanos- participação de um jovem nos problemas do mundo do seu tempo, afinal de todos os tempos- o papel da poesia social.

Nessa mesma temática O soneto solar é um interessante exercício em décimas e septílias que reflete sobre a precariedade e insensatez dos regimes políticos que dispõem sobre a trajetória das criaturas.

Segue com o curioso “ladra d`almas”: o voyeur curioso a observar um casal que pratica o antiquíssimo ritual do relacionamento amoroso; tentativa de conhecerem-se em profundidade, ameaçados pela fúria de uma chuva que ainda mais os distancia de si mesmos, ao aproximá-los. A chuva é imagem recorrente nestes exercícios poéticos, poemas da juventude que sinalizam tão precocemente a maturidade do pensamento, fato incomum nos tempos em que pairamos, ao mesmo tempo que exprimem dúvidas e preocupações sobre a permanência da poesia em face do poder e focalizam a precariedade da vida e da liberdade de ser. Vivo fosse Cícero, clamaria: Ó tempora! Ó mores! Calímaco, Asclepíades, Sótades, Apolônio,- o que vindes fazer, oh mentes privilegiadas, nestes poemas de um quase menino que há pouco deixou seus brinquedos abandonados a um canto e ousa questionar os limites do poder, do alcance da palavra e a glória do reconhecimento do mérito?!

Palestra de botequim -um romance onde ocorrem consonâncias fônicas representando expectativas de poeta precoce, ponderando o futuro da escrita. E belo poema é este: A noite, amada, não vai acabar tão cedo. Exibindo uma admirável técnica, Oleg escreve em francês, o Apólogo sobre um mendigo, a inclusão de um elemento real da vida a fazer parte do elenco de preocupações de quem desejaria mudar o mundo.

Estes Ciber poemas são obras da primeira juventude. Mas já reveladoras da segurança e de todas as qualidades que se confirmariam no quase menino. Ele se entrega ao julgamento do leitor e seus amigos tiveram liberdade para se expressar. Como poderia viver, pergunta, sem a sinceridade dos amigos? E elenca uma série de questionamentos a demonstrar sua conscientização:

- Como o amor se implantou no mundo? O mundo é mais interessante, quando se crê, não importa a qualidade da fantasia a nos iludir; realizar o amor faz olvidar por um momento a terrível profecia que se realizará: a sombra da morte pairando, alertando para a realidade contundente: memento homo... tornando frágil e incerta toda a alegria que poderia provocar a união perfeita sob o signo de Eros, que diante deste imponderável perde seu mistério e seu encanto.

A habilidade de lidar com várias estâncias poéticas é demonstrada nestes poemas escritos em francês, e reveladoramente sua língua materna surge. Afirmando sua individualidade preservada, apesar de todas as vivências necessárias ao exercício da introspecção a que se dedica. Surge com a força criativa da verdade que está dentro dele. Com toda beleza e originalidade do alfabeto cirílico utilizado, o que estabelece uma ponte em que se isola, pela impossibilidade que não nos permite a travessia. Generoso e doador, ele o traduz, deseja nossa participação certamente, mas adivinhamos nele- terreno pessoal, ressonâncias inesperadas e inalcançáveis que se espalharão por essa longa reflexão que seria, segundo suas próprias palavras, “sua biografia lírica”...

E o Outono caminha trazendo suas belas cores; o poeta fecha aquele recinto onde estão guardadas suas lembranças, mas agora sente-se bem melhor. Seus olhos nos fitam, a luz aparece neles, e o sentimos de volta ao nosso lado e à vida que o preservou de tantas ciladas, e podemos afirmar, lhe trará outras alegrias, outras sensações, embora seu destino esteja traçado- marcado por intensa sensibilidade, jamais poderá fugir de si mesmo.

A ele cabe carregar a bandeira da poesia. Desse antigo gênero ameaçado por mudanças, pelo tempo, pelas visões, por tentativas infelizes de originalidade, por tantos fatores que tentam em vão proclamar seu esgotamento, sua morte, e pior, sua inutilidade num mundo tão dominado por uma sofisticadíssima tecnologia, que tenta em vão igualar as pessoas. Como maçãs ou cerejas num cesto. Terão todas o mesmo gosto? Desprovidas das cascas não serão, por acaso, diferentes na textura, no sabor, na doçura?
É preciso prová-las uma a uma. E descobrir como na poesia de Oleg, a novidade, a frescura, o perfume do velho gênero que lhe revelou seus segredos. Não esqueçamos que este homem que veio do frio trouxe consigo a flauta de Orfeu. E poucos, na verdade, saberão tão bem extrair dela as notas mais harmoniosas, revelando – se é possível?!- uma realidade nova, de puro encanto poético aos nossos olhos cansados...

Rejane Machado
(crítica literária)

Oleg Almeida (Bielorrússia, 1971): poeta e tradutor, sócio da União Brasileira de Escritores (UBE/São Paulo), colaborador das mídias impressas e eletrônicas. Autor dos livros de poesia Memórias dum hiperbóreo (2008) e Quarta-feira de Cinzas e outros poemas (2011) e de numerosas traduções do russo (Diário do subsolo e O jogador de Fiódor Dostoiévski; Pequenas tragédias de Alexandr Púchkin; Canções alexandrinas de Mikhail Kuzmin) e do francês (Pequenos poemas em prosa de Charles Baudelaire; Os cantos de Bilítis de Pierre Louÿs).

Oleg Almeida
Brasília/DF, Brasil
www.olegalmeida.com

 

 

SONHO OU REALIDADE
por Rejane Machado


Antes de apresentar o meu personagem quero explicar que não sei se estava em vigília, ou no pleno domínio da minha consciência. Sei que lia, embora o assunto não me encantasse a ponto de me abstrair do ambiente. Chovera pesadamente, e como sói acontecer, a temperatura estava muito agradável, tudo prenunciando um dia seguinte mais fresco do que os precedentes. A horas tardias da noite o silêncio ao meu redor foi levemente perturbado e sem reparar que a porta não fora aberta, ouço a saudação que nunca esperei ouvir: Excelentíssima Senhôra! Com sua licença?
-Meus caros confrades!
-Muito boas noites a todos!
A voz bem modulada não agredia, e não me trouxe aquela sensação de ter perturbada a ideal serenidade, muito menos invadida a minha privacidade. Sentara-me para ler, talvez há uma boa hora, quando a tempestade repentina de verão parecia amainar e uma brisa fresca entrava-me pela janela aberta para a noite. E sem mais nem menos vejo-me frente a um desconhecido. O livro caiu-me das mãos; gentilmente, ele o apanhou e me devolveu, não sem antes ler o título, vício de todos os leitores compulsivos. Por quê deixar de entendê-lo naquele gesto, se em seu lugar eu não procederia diferentemente? Devolvi-o, reação que pareceu agradá-lo bastante, pois o folheou calmamente, sinalizando com gestos a aprovação. Era uma edição novinha em folha, de O Cortiço. Examinou-o, folheou algumas páginas, leu pequenos trechos, sorriu e comentou: Como fazem belos os livros agora! Viva o progresso!
Reconheci-o de imediato. E não fiz comentário algum, tal era a surpresa que me tolhia todas as reações. Aproveitei para reparar bem na figura que me parecia um tanto descorada. Muito bem trajado à moda do século XIX, um verdadeiro dândi, vestia um terno escuro de casimira inglesa, camisa branca de peitilho engomado, colarinho alto e duro, um indispensável plastron, uma pérola espetada nele, chapéu de palhinha na mão fina e nervosa. Alourado, esbelto, elegante, longos bigodes, como era de uso naqueles longínquos dias, passava uma impressão de platitude.
Os confrades a quem ele se referia, e desejara “boas noites” deviam ser os retratos sérios dos meus antepassados, porque tirante a minha pessoa e o livro que tinha nas mãos, com os muitos personagens que respiravam entre suas páginas, mais ninguém havia naquela biblioteca. E agora tínhamos por companhia aquele amável intruso.
Desisti do livro, evidentemente, e procurei fechar a boca que se abrira sem que eu tomasse parte nesta ação que representava o meu espanto pela inusitada presença não causadora de algum eventual sentimento de medo, ao contrário. E tão logo me recuperei, a curiosidade de saber como e porquê estava ali, como viera singrando o Tempo – uma façanha e tanto! - dominaria todo e qualquer outro sentimento que pudesse toldar-me a compreensão. Preferi não pensar, deixá-lo falar, explicar-se. Sei bem que nem tudo é passível de entendimento, da razão lógica que preside a maioria dos fenômenos. Resta-nos aceitar sem questionar tudo aquilo que não penetramos. Donde viera ele? Homem de séculos passados, como e porque se apresentava guapo e desembaraçado, surgido do Nada, se ninguém solicitara sua presença?
Reconheci-o de imediato. O leve sotaque nordestino, o uso perfeito da língua, a educação esmerada não me enganaram. Ele, em carne e osso, tal qual se mostraria quando vivera.
- Permita-me apresentar-lhe os meus respeitos, minha distinta Senhôra! Sei que me reconheceu e sou muito agradecido à atenção que dispensa à minha obra - sua voz era clara, as palavras bem pronunciadas. E desconhecendo constrangimentos, desculpas, o que fosse que passasse pela minha cabeça, confirmou, apresentando-se formalmente:
- Aluísio de Azevedo às suas ordens, minha Senhôra, para a servir... - (insistia em pronunciar aquela vogal fechada - ô -que emprestava, confesso, um certo encanto à palavra tão corriqueira, enobrecendo-a sobremaneira).Beijou-me a mão, cavalheirescamente, curvando-se levemente. Apreciei com um gesto a elegância e a finura de pessoa educada, de gestos delicados, nunca isentos de respeito e reverência. Declinei também o meu nome, e acrescentei: sua admiradora desde os dez anos de idade...
- Pois é um gosto conhecê-la!
Falava devagar, enquanto atendia ao meu gesto que o convidava a sentar-se numa poltrona ao meu lado. Parecia saber que eu terminara um ensaio a seu respeito, e senti que isto lhe causara certa satisfação, apesar de que tantas pessoas mais capacitadas já escreveram sobre ele, - eu retruquei mentalmente.
- Mas não com a emoção com que a Senhôra trabalha! – surpreendeu-me a justificativa ao reconhecimento das minhas limitações, diante de uma pessoa com tantos méritos, sua resposta à pergunta que eu formulara mentalmente: como ele sabia das minhas atividades?
-É muito generosa para com a minha pessoa...- ele continuou. De modo nenhum eu poderia concordar, muito pelo contrário, senti que precisava urgentemente ler de novo tudo o que escrevera sobre a sua importância de escritor, para então, sim, colocá-lo no lugar que merecia, devido ao grande valor demonstrado em toda sua obra. Sabia das dificuldades que enfrentara para exercer sua arte num tempo ingrato – e ele adivinhando meus escrúpulos me revelou “que todos os tempos são ingratos para os artistas”. Ninguém é reconhecido em sua época. Mal de que se queixam todos os que lidam com a Arte, seja ela de que natureza for. Mas até que não posso entreter queixas. Gozei de alguma consideração...
Concordei, mas parece-me que há certos tempos mais difíceis do que outros. Ou pessoas mais preparadas para certas circunstâncias. Mais decididas a entrar na luta,...
- Mais cínicos, minha Senhôra menos escrupulosos! – interrompeu-me: Sempre haverá os que se saem bem em meio aos temporais, não tenha dúvidas. E não pense que não lidei com certos sentimentos sobremaneira maléficos e desanimadores, demonstradores do espírito pequenino de pessoas que não admitem ser o mundo tão grande ... Relatou-me algumas das suas decepções, alguns percalços do seu caminho. A perseguição, causada pela inveja dos medíocres. Fui vítima de calúnias. Tive que fazer concessões...
E disto eu sabia. Registrei no meu estudo este contratempo de que ele soube defender-se, ajustando-se temporariamente às exigências da época, aguardando ocasião mais propícia para apresentação de uma obra que o satisfizesse, e mais do que satisfazer, que o representasse na sua ânsia de arte.
Fiquei pensando naquelas palavras sensatas. Realmente temos que ter paciência. E esperar a ocasião certa. Mas precisava aclarar certas dúvidas a respeito da sua trajetória.
Satisfazer alguma curiosidade que eu cultivava a seu respeito, e que ele, - e só ele seria capaz de esclarecer. Aos seus biógrafos sei que escapa muita coisa. Para começar, teria que deixar de lado certas cerimônias e fazê-lo sentir-se à vontade, coisa de que também eu me ressentia. Afinal a um estranho não se colocam certas questões. Comecei pelo princípio:
-Permitiria ele que nos tratássemos menos formalmente? Expressões tais como excelentíssima senhora e excesso de cerimônias incomodam-me: sabe que meu tempo é outro. Sua fisionomia pareceu fechar-se um pouco, mas eu tinha um argumento imbatível: sabia serem diversos nossos tempos, separados por mais de um século, certamente, mas no momento em que nos encontramos- neste agora, em que estamos frente a frente, eu tenho idade suficiente para ser sua mãe, ao tempo da escritura deste livro e você que foi um homem da sua contemporaneidade, tem que entender que também estou presa à minha...
Isto pareceu convencê-lo: Sim, a exce... - a Senhôra parece ter razão. Sem mais delongas interroguei-o: Você, Aluísio, algum dia se caracterizou, ou se sentiu um autor naturalista? Precisava aproveitar a oportunidade que ele me dava, de responder, de viva voz a essa questão, para mim tão controvertida. Seu rosto expressava uma reação divertida. O sorriso era de mofa. Eu bem sabia a resposta. O homem jamais será completamente livre. Principalmente se é artista profissional que necessita lutar pela sobrevivência, esse mesmo é que não se pertence. Deve fazer concessões ao gosto do Diretor do jornal, ao Diretor da Escola ou Faculdade, não pode se permitir independência. As leis do mercado sempre condicionaram o artista e decidiram sua trajetória. E como ficar fora da corrente em voga?
Como esperava, ele me respondeu: que não. Como a cara amiga concluiu- agradeci com um sorriso e um gesto de cabeça; e -ele continuou a frase interrompida:
-Sim, e como tão bem analisou-me, - seu ensaio ficou muito bem, sabia? Honra-me sobremaneira! - fui um homem do meu aqui e agora; antenado, como disse- aliás, gostei da palavra que é recente, pelo menos na sua conotação atual, porque antes, nossas antenas seriam, possivelmente, e figuradamente, a intuição das coisas. Digamos que eu era um ser atualizado. Todas as novidades que vinham de fora nos eram bem-vindas. Efeitos da moda, do último figurino de Paris. E não podíamos continuar a utilizar-nos dos nossos machados de pedra lascada! – descontraí-me de vez. Divertida comparação!
- Sabia que a vossa cidade era um centro de elegância? Para nós da província, a Côrte era o Shangrilá almejado por todos os seres dotados de alguma fantasia e ambição. A amiga destaca um episódio que me gratificou muito ser revelado.
- Qual- quis saber. E ele não se fez de rogado: um crítico da minha terra aconselhou-me “plantar batatas”, o que nos causou frouxos de riso em família. Jamais sofrera de soberba, mas também não podia aceitar uma tal espécie de menos-valia! Família cultivada nas letras e nos hábitos, nem por um momento este julgamento nos impressionou. Fazíamos uma espécie de “conselho de clã” em que os projetos eram discutidos- e aprovados. Só recusados alguns quando, pelo tema, avançado demais para o meio simples, ou por exagerar nas cores políticas, quem sabe descrever algum caráter no qual uma autoridade nele se reconhecesse,- era desaconselhado, em razão de sermos muito jovens ainda e o meio em que vivíamos, estreito bastante (ao dizer isto, sorria). De qualquer maneira não me afetou a opinião daquele sujeito de maus bofes. Antes dos vinte anos, porém, estávamos, Arthur e eu, estabelecidos na Capital e havia campo para qualquer loucura. Rimos juntos. Uma pergunta outra que se impunha fortemente era o problema estético: Que papel teria desempenhado na sua obra o Impressionismo, como estilo de época, não só na arte pictórica...
- Ah,- fez ele, esboçando um encantador sorriso- o impressionismo... Que concepção maravilhosa! Que estilo amável! Eu era realmente um pintor frustrado. Pudesse pintar aquelas águas multicoloridas, acariciadas por uma luz diáfana, e aquelas ninféias fluidas, somente esboçadas, de Monet, e aquela ponte, onde a nossa alma se postava a apreciar o final da tarde...Oh, que glória!
Pareceu entristecer-se com lembranças penosas, sabemos que dificuldades financeiras impediram que ele fosse estudar pintura a Paris, com os mestres franceses da época. Percebi que a conversa tomava um rumo um tanto melancólico. Vivificava reflexões nostálgicas que o haviam feito decidir-se pela escrita, onde poderia à vontade, exercer os seus postulados artísticos. Seu olhar vagava em mundos longínquos ao murmurar:
-Estilo incomparável de pintura! Não as coisas, mas a impressão das coisas...
Sofri crise de consciência. Que direito tinha de provocar-lhe pensamentos tristes, talvez avaliando sua vida e lamentando-se interiormente, acordando sentimentos de profunda nostagia? Resolvi trazê-lo ao momento presente, subjugando-o ao efeito das palavras provocadoras de mudança destruidora da alegria e leveza com que se anunciara meia hora antes. Responsável pelo spleen, obrigava-me a resgatá-lo das névoas que lhe cobriam o olhar. Ocorreu-me inquiri-lo sobre o seu estancar-se literário, quando ainda tão jovem, e após sucesso estrondoso com seus livros que se ajustavam à filosofia da época. Um bom álibi, mas a isto ele não quis –ou não soube responder. Em compensação sua fisionomia se abriu, e um leve sorriso aflorou, rejuvenescendo sua face meio pálida:
- Talvez que a literatura fosse uma ilusão temporária. Eu precisava dizer alguma coisa, registrar, a respeito de uma época, meu pensamento sobre doutrinas que faziam pensar, que traziam questionamentos ainda não abordados, abrir a discussão sobre casos possíveis, sobre motivações humanas aparentemente incompreensíveis. E uma vez apresentadas as questões, aberta a discussão, nada mais tinha a dizer. Quem sabe uma espécie de missão?!
O silêncio entre nós era um dado, poderia dizer, concreto. Mas deixei-o à vontade, o olhar perdido nas suas recordações. Voltou a falar, ao cabo de alguns instantes:
- Calei-me no tempo certo! Deixei a outros a experimentação de cousas aparentemente novas...
Fiquei matutando: esgotamento da inspiração? Desfastio da vida? Ânsia de novidades? Necessidade de aventura? Qual seria a verdadeira razão que o fizera aborrecer a literatura e abraçar a Diplomacia? Talvez procura de segurança econômica?
Concluí de mim para mim mesma: jamais o saberia. A voz firme e atenta pegou-me desprevenida, estivera mergulhada naquela pergunta que ficara no vazio da indefinição.
-E com sua licença – levantava-se, fazendo uma profunda mesura, - devo regressar agora, vão sendo horas. Desejava apenas agradecer-lhe pela sua bondade em trazer-me à beira dos questionamentos atuais, e parabenizá-la pelo esforço empreendido. Devo confessar-me encantado em conhecê-la, e agradecer-lhe por lembrar-se de minha humilde pessoa neste centenário de partida.
Levantou-se, curvou-se, o chapéu na mão. Fiquei sentindo durante muito tempo a sensação do roçar dos seus finos lábios na minha mão.
Suavemente, como surgira, desapareceu.
Abri os olhos e olhei o relógio que acabara de tocar duas badaladas. A chuva cessara, perfumes noturnos me deliciaram, um frescor muito agradável me envolvia e a janela aberta me revelou estrelas muito brilhantes num céu muito escuro.

Rejane Machado
(crítica literária)
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