Ago de 2014

Ano IV - Número XXX

 

 

O ANDARILHO
Por Adilvo Mazzini

 

Adilvo Mazzini

Esse andarilho, que já me foi posto de passagem há algum tempo, pode muito bem ser símbolo de cada um de nós, que carregamos, na essência, o estigma da perene busca do encontro – ou reencontro – conosco mesmos.
No primeiro instante, ou por pouca atenção, ou por falta de tempo mesmo, não lhe dei o devido atento e os seus passos podem ter-se perdido algures. Quem sabe num beco qualquer. Ou numa ruela sem saída. Quem sabe até em grande avenida, confundindo-se com a multidão.
O andarilho - qualquer um de nós! - tem como certa uma mensagem certa. Como andarilho que é, não lhe importam as poucas roupas, nem mesmo o hipotético sapato. Ou o cabelo em desalinho. Tão pouco sua barba revolta.
Às costas, um saco surrado, repleto de quinquilharias, seu único tesouro. Nos bolsos, apenas a esperança, feita certeza de todos os sonhos.
Que sonhos?

Os sonhos de andarilho são os sonhos de chegar a lugar algum. Lugar fixo, para ele, seria sinônimo de morte. Não mais seria andarilho
Quando isto acontecer - se acontecer - deixará de ser mira de olhares incrédulos, de bocas de pouco caso, de pensamentos de palavras não ditas, mas alfinetadas em cada parte de um corpo esquálido.
E deixará, então, de ser protótipo de persistência e de buscas que só ele conhece. Deixará de ser vitrine de um esvaziamento que o torna incomensuravelmente grande. Tão grande, que grande parte dos olhares que o tentam esfacelar não consegue nele enxergar, senão parcelas de um todo perdido na imensidão de um mundo que só a ele pertence.

- Ó andarilho, em trôpegos e cambaleantes passos, olhar perdido em horizonte qualquer, traças a indelével sina de quem, nada tendo, tudo tem; de quem, embora desnudo, veste-se da veste talar dos sacerdotes; de quem, ainda que pisando o seco chão, deixa traçados seus pés na calçada da fama; de quem, estando calado, clama em voz clara e determinada o discurso dos eloquentes; de quem, ainda que inculto, possui a sabedoria dos sábios.
As páginas de tua vida, andarilho, não assentadas em papel convencional; ficam grafadas ao longo das estradas, abertas aos incautos, como alerta. No teu despojamento, a grande lição que nos dás; na tua insistência, a tenacidade que nos apontas; nos teus rumos sem norte, a busca do norte de cada um. Em cada lágrima do teu rosto marcado em sulcos, a assertiva de que lágrimas regam a secura da alma.
Vai, andarilho! Vai! A tua vida é inteiramente tua! Única! Inconfundível! Particularmente delineada. Vai! Não pares jamais! Vai!

TEXTO ELABORADO A PARTIR DE UM E-MAIL INTITULADO O ANDARILHO

Adilvo Mazzini
Dourados - MS - Brasil

 

TRIBUNAL EUROPEU DOS DIREITOS HUMANOS CONTRA O USO DA BURCA
Aprovada a proibição do véu de corpo inteiro na França

Por António Justo


A burca (e a Nicabe = véu que cobre o rosto da mulher e só revela os olhos: frequente nos países da Península Arábica,) foi proibida, na França, em 17 de julho de 2010, pela Lei nº 524. A lei proíbe o uso de “vestuário concebido para esconder o rosto”. Violações à lei são puníveis com uma multa de 150 €.
O tribunal Europeu em Strasbourg, num julgamento oficial vinculativo para toda a Europa, confirmou, a 1.07.2014, a proibição do uso do véu que cobre o rosto da mulher em público. Na justificação do julgamento, o tribunal argumentou que a proibição não é discriminadora, não é contrária à protecção da vida privada e nem tão-pouco contra a liberdade de opinião e de religião.
Contra a lei francesa tinha processado uma muçulmana alegando que a burca era expressão da sua convicção religiosa e ninguém a obrigava a usá-la. O governo francês avalia o número de muçulmanas, que são afetadas pela proibição, em 2000.
A burca cobre todo o corpo da mulher, até o rosto e os olhos, tendo uma rede para poder ver através dela; é usada por mulheres do Irão, Afeganistão e do Paquistão. Ela é um símbolo dos Talibans (movimento islâmico terrorista) que pretende impor a lei islâmica. Estas forças encontram-se muito activas entre emigrantes, na África e especialmente na Nigéria, Síria e Iraque.

António Justo

Na Alemanha, dado não se ver propriamente o uso da burka em público, não há lei contra o seu uso; alguns estados federados apenas se limitam a proibir o uso do véu (lenço) no serviço público.
 

A origem da burca


O traje islâmico tem a sua origem num culto à divindade Astarte (1), deusa do amor, da fertilidade e da sexualidade, na antiga Mesopotâmia (Fenícia).
Em homenagem à deusa do amor físico, todas as mulheres, sem exceção, tinham de se prostituir num determinado dia ano, nos bosques sagrados em redor do templo da deusa.
Para cumprirem o preceito divino sem serem reconhecidas, as mulheres de alta sociedade acostumaram-se, no dia da festa, a usar um longo véu em proteção da sua identidade.
Com base nessa origem histórica, Mustapha Kemal Atatürk, fundador da moderna Turquia (1923 – 1938), no quadro das profundas e revolucionárias reformas políticas, económica e culturais, que introduziu no país, desejoso de acabar de uma por todas com a burka, serviu-se de uma brilhante astúcia para calar a boca dos fundamentalistas da época.
Pôs definitivamente um fim à burka na Turquia com uma simples lei que determinava o seguinte:
«Com efeito imediato, todas as mulheres turcas têm o direito de se vestirem como quiserem, no entanto todas as prostitutas devem usar a burka».
É interessante que a Bíblia também faz referência à imoralidade do rei Salomão que pecou contra o seu Deus ao prestar culto à deusa Astarte (1 Reis 11,5). Os egípcios, mais tarde, deram-lhe o nome de Isis, e os gregos de Afrodite e Hera.
A cobardia do homem encobre o rosto da mulher
Como se verifica do descrito, observa-se uma constante histórica: o homem consegue que a mulher sirva as suas necessidades e se mantenha submissa a ponto de renunciar a ter um rosto individual. Inteligentemente com esta regulamentação do vestuário, o homem não vê a sua presa exposta à concorrência doutros homens e consegue assim poupar a luta da concorrência com o próprio género com que se solidariza. Assim a mulher torna-se o objecto fraco do indivíduo e do grupo masculino e como tal legitimador da repressão do género feminino, considerado prevaricador e como tal com necessidade de ser protegido através do vestuário. A fraqueza do homem consegue assim inverter os termos e defender consequente e solidariamente os interesses do género masculino. Esta é a lógica do poder e, segundo ele, quem pode manda.
 

(1) Astarte (ʻštrt) era uma deusa amorosa, bela, fecunda e maternal. Nela se prestava culto à natureza, à vida e à fertilidade, bem como à exaltação do amor e dos prazeres carnais.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e pedagogo
Alemanha
www.antonio-justo.eu