Fev de 2014

Ano IV - Número XXVII

 

 

CONVIDADO DO MÊS

 Urariano Mota

 Urariano Mota

Resumo Biográfico


Escritor e jornalista, natural de Água Fria, subúrbio do Recife, desde 1950.
Os seus dois últimos romances “Soledad no Recife” e “O filho renegado de Deus”têm recebido boa aceitação da crítica e do público. “Soledad no Recife”, pela Boitempo, recria os últimos dias de Soledad Barrett, a mulher do cabo Anselmo, que o agente infiltrado entregou para a morte no Recife em 1973.
Já em “O filho renegado de Deus”, pela Bertrand Brasil, o escritor refaz a formação da infância no Recife dos pobres, dos moradores de beco, em subúrbios periféricos. O jornal Rascunho publicou recentemente critica sobre ele.
Urariano Mota é colunista do Direto da Redação e do Vermelho.

 

 

 

 

O MENINO E SUA NAMORADA *
Por Urariano Mota


Dona Maria, no seu natural, a tudo observava. Via os apelos do coração refletidos no rosto do filho, que a filha de dona Lúcia nele deitavam. E, no entanto, não se mostrava como pessoa que tivesse olhos de observação. Assim como os atores que aparentam nada fazer de extraordinário quando representam, tão naturais, simples e antiestrelas; assim como os artistas cujo talento se dá e cresce à revelia, à margem de qualquer ostentação, dona Maria observava a tudo no beco em permanente obscuridade. Isso longe estava de ela se esconder atrás de portas ou fingir nada ver com o rosto virado para outro lado da cena. A sua invisibilidade vinha de um manto espesso de preconceito que a encobria. Baixinha, gorda, ex-cobradora de ônibus em um tempo em que isso era o mesmo que uma desqualificação, depois e sempre doméstica, como poderia alguém percebê-la como arguta observadora? Aquilo que mais de um trabalhador já notou, quando exerce uma profissão considerada insignificante, e por isso aos olhos de todos desaparece, em dona Maria tinha existência. Vestida em roupa larga de algodão, com as cores esmaecidas do lar, vale dizer, de único padrão roxa ou cinza pelo que deixava na lembrança, ela era um todo descaso: pés descalços na porta da casinha, cabelos sem cuidado algum, a própria insignificância da mulher doméstica em 1957 e 1958. Mulher sem inteligência, pensava-se, pensavam-na. Hosana, Maria, era uma saudação longínqua e absurda, sequer sonhada por ela. E no entanto, hosana, Maria, hosana, mulher, Jimeralto a recuperava.
O seu filho a recordaria sempre com os olhos da compreensão muda, melhor dizendo, da compreensão sem palavras, quando ela lhe passava as mãos nos cabelos, nos instantes para ele desassossegados, ou de funda depressão, pois há também uma hora de tristeza que invade e pega os meninos, uma hora de desesperança em que os meninos querem chorar e, até mesmo como meninos, sentem vergonha de chorar, porque seria trair um abalo tão íntimo, mais vexatório que a nudez em meio de toda a gente. Havia por vezes uma hora assim para ele, na altura dos seus 7 anos, e muitas vezes depois, quando já não possuía aquelas mãos de afeto mudo, assim dito porque eram só afeto substância sem palavras. Somente nos anos de maturidade, como no encontro da amiga de infância no cemitério, mais velha que ele, só então ele pôde ver e remontar aqueles instantes de observação de dona Maria, quando ela alisava os seus cabelos, depois do banho, em tardes em que Selma, a vizinha por quem era apaixonado, não o olhava. A menina que para ele era namorada não se definia em muitas tardes, antes daquele beijo furtivo à hora do angelus. Ele a buscava de banho tomado, com a camisa passada a ferro de brasa, penteado com os cabelos repartidos, como se dizia, uma forma de pentear que era um laço com o útero da mãe, porque mais tarde lhe disseram que cabelo de homem se penteava para trás, nunca de lado, porque penteado assim em uma risca ao canto mais parecia forma de menino frágil, nos braços protetores da mamãezinha. Então ele, com o cabelo repartido, esticava o olhar até uma porta duas casinhas adiante, e Selma não aparecia. Então ele, de tanto esperar, sentava-se na entrada da casinha dele, na esperança de que saísse a menina de olhos verdes que em seu natural, com só a posse de sua natureza, fazia-o encolher-se nas pernas com um frio no pênis, mas com o peito muito agitado, em desnorteio, enquanto gaguejava as frases mais desconexas e inverossímeis. Risíveis, ele diria, ao passar as mãos sobre os cabelos brancos 55 anos adiante:
- Tu gosta de café? (Mas ele não tinha café para lhe oferecer) E de cachorro, tu gosta? (Mas Xandu, a sua cachorra, já havia morrido. ) Lá na frente do mercado tem um boneco que fala. ( Isso com os olhos bem arregalados, como o anúncio da primeira maravilha do mundo. O que era certo, porque esse boneco permaneceria até a sua maturidade como a primeira maravilha do mundo.)
Dona Maria o observava sem que ele notasse tão amorosa pesquisa. Mas ele sentia a presença da mãe quando Selma não vinha, pois melhor para a realidade e pior para ele, Selma havia seguido rumo à avenida sem passar por sua porta, ou então saía como se não o visse, de queixinho levantado, na postura animal de domínio na savana, a rainha fêmea que não se dignava a olhar, para que o súdito compreendesse o mais alto desprezo. Em vez de um olhar duro, que para os corações em regime de afeto ainda é uma luz, um clarão, ela não o olhava, não o percebia, rejeitava-o, vale dizer, e o sentimento de rejeição era mais ofensa que um olhar duro, raivoso, porque da visão raivosa vinha ainda a dignidade de um olhar. Ela partia para outro, para outros, para outros meninos mais bonitos, de conversa de mais juízo, agradável, ou para meninos mais ricos, bem vestidos, de fino perfume como o dela, Jimeralto pensava. É claro, pensava sem essa desenvolta elucubração, mas somente com a percepção de que ele era preterido, ou pior, o preterido, deixado como entulho em sua porta, porque ela partia para nova corte, que não lhe faltava. Ele esticava os olhos para a menina Selma, que não o via nem o queria, ele pensava. Então aquela vontade de chorar e de correr para o banheiro e ali escondido chorar lhe vinha, e ele não corria logo para no seu íntimo se esconder, porque, desgraçado como todos carentes, ainda que tão cedo na idade, esperava que em algum momento ela voltasse. Quem sabe arrependida, quem sabe porque a ninguém havia encontrado, logo ela, a mais bonita menina em todo o mundo da Vila Alegria, ou quem sabe até, para maior delírio, com quem ela havia encontrado descobrira que por ninguém será amada como por aquele menino de dona Maria, sentado à sua espera na porta da mesma casinha. Porta de quarto em forma de casa. Mas, engano, dali onde ficava sentado ele ouvia os risos, os gritos selvagens dos meninos lá em frente do prédio, os ladros da horda, dos malditos bárbaros excitados, ouvia a voz dela, que ao falar silenciava a malta enlouquecida. Selma reinava, parecia reinar, porque os meninos só queriam mesmo esfregar as bimbinhas na barriga da menina, nas suas coxas, ela não sabia que os meninos não queriam Selma, queriam só a boceta de Selma, e mais perto da forma triângulo, a suprema pretendida, enquanto fungassem o seu pescoço, aspirando o perfume, que era um sexo de luxo. Ah, canalhas, faziam o que por direito devia ser só seu.
Então o menino se encolhia a ponto de pôs os joelhos sob o queixo, porque ouvia a voz de Selma também excitada a sorrir, maldita, canalha ela também, porque bastava que ela dissesse “afastem-se de mim, seus cachorros, a ninguém mais eu quero a não ser Jimeralto, que é o meu namorado, é dele o meu lindo rosto, são dele estes cabelos, este pescoço, estas coxas. Para trás, mundiça!”. Mas Selma, ela própria mundiça, sorria com a mundiça, enquanto ele, mundiça na espera, apenas era mundiça desprezada. Então ele a olhava de longe, olhava-a de cair cílios dos olhos, como se os cílios fossem derrubados pela força da angústia. Nesses momentos em que estava encolhido assim, a esperar pela única pessoa a lhe interessar na Avenida Beberibe, que era longa, só de objetos, carros, bicicleta, bonde e alarido de meninos na esquina do beco, de repente, dona Maria lhe chegava como um anjo, como se fosse uma aparição de ternura baixada, e lhe trazia uma associação sábia do amargo ao doce, da falta que dá o sentimento na gente e a satisfação da alma pelo mais primário, pois ela lhe tocava nos cabelos e lhe dava um magnífico lanche de pão com açúcar. Assim mesmo, um sanduíche de bolachão aberto com açúcar espalhado dentro, logo ela, que o corrigia sempre quando ele reclamava do café aguado, “o seu pai não é usineiro”. Sim, mas para matar a dor a mãe era dona de usina, uma usineira próspera, e pouco lhe importava que mais tarde o café fosse mais amargo.
- Tome, foi feitinho agora pra você.
Então o dia se tornava doce, como um derivativo da fuga e desprezo de Selma. Estranho, tão doce era o pão, tão bem feito e carinhoso era aquele pão, que mais parecia ser bom olhar para aquela avenida à espera do que naquela tarde nunca mais viria. Aquele sanduíche de improviso dos pobres, aquele beirute da vila alegria, era como um anúncio dos anos em que a fome de amor se transformaria em voracidade de sexo, em fome e sede à semelhança de pornografia, mas com a diferença grande de não conter mais a harmonia e remédio primeiro de lá da porta da casinha da vila alegria. Então os cílios não mais caíam. Então a lágrima era exilada, expulsa ou desviada pelo bolachão e o prazer do bolachão, que os outros miseráveis, por terem Selma, não podiam pedir nem um taco, um só pedaço, porque o pão era dele somente, com a maravilha do açúcar escuro.

*Do romance “O filho renegado de Deus”.

Urariano Mota
Recife - Brasil://urarianomota.wordpress.com/