Jun de 2014

Ano IV - Número XXIX

 

 

ORIGEM DO PORTUGUÊS E DO GALEGO

A Língua portuguesa é Irmã gémea do Galego

Por António Justo

António Justo

A Academia Brasileira de Letras fez um levantamento sobre a língua portuguesa e verificou que esta tem atualmente cerca de 356 mil unidades lexicais.
A grande riqueza do português provém na sua maioria do latim e do grego e das línguas das tribos ibéricas: galaicos, lusitanos (marcas de origem indo-europeia e miscigenação com os celtas, anterior às invasões romanas), etc. e dos invasores germânicos do séc. V (cerca de 600 palavras de origem germânica) e dos ocupantes mouros (berberes e árabes do séc. VIII que enriqueceram o português com cerca de 600 até mil palavras); com os Descobrimentos o português continuou-se a enriquecer integrando palavras dos novos povos no seu léxico; actualmente a preponderância da cultura anglo-saxónica favorece a integração de palavras inglesas. De notar que o português não só recebeu palavras das culturas com que contactou mas também deixou crioulos e palavras noutras línguas (O japonês também tem cerca de 600 palavras de origem portuguesa).

O galaico-português era o idioma falado nas regiões de Portugal e da Galiza, no Reino de Leão, que devido à divisão política do mesmo espaço geográfico, posteriormente começou a diversificar-se nas línguas portuguesa e galega. A partir do séc. XII a literatura apoderou-se do galaico-português de modo, a o português se diferenciar no século XVI da língua galega, sua irmã gémea.
A língua portuguesa é a evolução do latim que, como língua veicular literária e cultural, se expressava de duas formas: a maneira de falar intelectual (erudita) e a popular; assim, na formação do Português, encontramos a forma clássica - a língua do Lácio falada até uma certa altura e depois mantida pelos eclesiásticos, poetas e prosadores, como veículo da cultura intelectual e por outro lado a forma do latim vulgar que era falada pelo povo e que abandonada a si mesma se ia modificando mais e mais, com um certo acompanhamento do linguajar erudito. O mesmo se dá hoje: distingue-se a maneira de expressar de uma pessoa sem grande formação e uma pessoa formada. Os próprios escritores latinos, que utilizavam a forma clássica, referem também o falar do latim vulgar do povo; os escritores romanos referem-se ao falar do povo com os termos "sermo vulgaris", "cotidianus", "plebeius", "rusticus", etc.
Estas divergências encontram-se ainda hoje nas formas populares e de escrita de qualquer língua a nível fonético, morfológico e por vezes até sintático. A população não consumidora de “alta cultura” usa menos palavras para se exprimir metendo por vezes numa só palavra outros sentidos ou conotações, enquanto a pessoa mais culta recorre, para tal efeito, a maior diferenciação e consequentemente a uma maior gama de palavras.
No território que hoje constitui Portugal e Espanha, já se falavam várias línguas, antes dos invasores latinos chegarem. Entre elas a mais falda era a céltica. O Vasco conseguiu resistir ao latim.
De resto, pelos fins do séc. IV a língua vulgar falada por toda a península era a forma vulgar do latim, o "romanço". Com as invasões dos alanos, suevos e godos e depois dos árabes, o romanço foi enriquecido com palavras novas dos falares dos invasores. A língua, naqueles tempos abandonada a si mesma, sem disciplina gramatical que lhe desse formato evolutivo, decaiu modificando-se segundo as regiões, pois já não havia a administração romana para lhe dar sustentabilidade nem uma regulamentação da língua, a nível suprarregional. Entre os falares surgiu o galego-português que se modificou algo, devido à independência de Portugal alcançada por D. Afonso Henriques e à obrigação do uso do português então “arcaico” ordenado por D. Dinis para os documentos escritos em vez do latim. Assim, temos hoje o idioma português e o galego; a maior diferenciação do galego deu-se a partir do séc. XVI. Embora se possa provar a existência do galego-português no séc. VII (e o português proto-histórico – um latim bárbaro) só a partir do séc. XII surgem textos completos em português notando-se então a influência da literatura sobre ele.
Numa missão civilizadora, os trovadores que cultivavam a poesia e a música por gosto, contribuíram muito como estabilizadores e fomentadores da língua. Ao irem de castelo em castelo espalhavam também ideais e a dignidade da mulher. Os segréis faziam da arte de trovar uma profissão. Os jograis tocavam vários instrumentos e cantavam versos alheios (artistas da boémia). Muito do legado antigo encontra-se nos Cancioneiros Primitivos.
O lirismo galego-português é do mais genuíno e documenta-se como uma poesia de romaria a Santiago de Compostela e nas romarias aos santos. Segundo Celso Ferreira da Cunha deve “considerar-se como obra de síntese de diversas influências, sobretudo da poesia popular e da poesia latino-eclesiástica”. Tinha duas correntes poéticas: a cantiga de amor que denuncia influência estrangeira, e a cantiga de amigo de caracter popular tradicional. Esta é a primeira manifestação genuína do lirismo peninsular.
Um documento importante do português Arcaico é o Testamento de D. Afonso II (1214) que começa assim:” En nome de Deus. Eu rei Don Afonso, pela gracia de Deus, rei de Portugal, sendo sano e saluo, temete o dia da mia morte, a saúde de mia alma e a proe de mia molier, raina Dona Orraca, e de meus filios e de meus uasssalos…”
No português histórico temos a fase arcaica do séc. XII, XIII e XIV (as terminações arcaicas em “om” deram origem às terminações modernas em “ão” e “am”); segue-se a fase de transição do séc. XV e finalmente a fase moderna, com início no séc. XVI até hoje. No séc. XIV e XV introduziram-se na língua muitas palavras do latim erudito e do grego; o séc. XV foi muito profícuo em mestres da língua (Garcia de Resende, Fernão Lopes, Eanes de Zurara, Rui de Pina, Frei João Alves); a língua passa a ter o seu eixo já não em Santiago de Compostela mas em Lisboa; o séc. XVI produziu grandes mestres da língua como Gil Vicente, João de Barros, António Ferreira, mas o maior de todos eles, o grande mestre do português moderno foi Luís de Camões com “Os Lusíadas”. Camões é um grande entre os maiores da literatura mundial, como afirmava já o grande Friedrich von Schiller, grande poeta, filósofo e historiador alemão que trocaria a sua obra pela glória dos Lusíadas de Camões.
No séc. XVI dá-se a grande diferenciação do português em relação ao galego.

António da Cunha Duarte Justo
Alemanha
www.antonio.justo.eu

 

 

VERSOS PARA NOVA CACHAÇA
Por Carlos Lúcio Gontijo

Carlos Lúcio Gontijo 

A poesia é uma espécie de cerâmica que teço com as fibras do barro buscado em mim. Sou filho de pantaneira e trago no âmago muitos alagados a umedecer meu caminhar pelo chão duro desta vida.
Os olhos de minha mãe que partiu ainda repousam em mim, cuidando dos meus passos pelas barrancas dos araguaias que estão a mancheias por onde ando. Às vezes, padeço nas cheias e, outras vezes, sofro com o longo estio, ciente de que a existência é pavio dependente de minha própria chama.
Há dias em que baixo a guarda e perco o sentido desse meu digladiar contra as injustiças mundanas, pois tudo parece, repentinamente, em vão diante de tanto malfeitor cantando razão e poder material.
Nada me move com tamanha intensidade como a viração de um verso, que acolhe as velas de minha indignação quanto à maldade crescente, perpetrada por gente que se afastou do sentimento e rasgou a seda da ternura com a faca cega do desamor.
Fomos arruinados pela tese de nos descobrir olhando para nós mesmos, como se assim encontrássemos alguma paisagem nova no abismo da realidade daquilo que somos individualmente, em vez de nos completarmos com as qualidades dos que nos rodeiam no plano coletivo.

Há a propagação de uma busca inútil a exigir de nós o milagre egoísta de termos tudo em nós mesmos, como se estivéssemos caminhando rumo a uma moderna solidão, onde cada um de nós se contentaria consigo mesmo, numa definitiva construção do hedonismo desmedido, no qual todos proclamariam: “eu me basto!”
Aprendi com as águas dos pantanais que me habitam a contornar os problemas – as tais pedras do caminho – e, dessa forma, eu não me disponho a lutar contra o que não tem juízo e nunca terá, ou contra o que não tem vergonha e nunca terá. A solitária comunicação virtual me dá certeza plena de que, se a ignorância não venceu, ela está bem perto de conquistar a vitória sobre a razão e a inteligência.
Todavia, alguma coisa em mim é maior que a desesperança e me impulsiona a continuar, sem sequer pretender contabilizar seguidores. A meta é exclusivamente desaguar os alagados de minha poesia, antes que eu tenha um ataque “cardioversoscular” – uma doença proveniente de versos contidos.
Sábado passado, véspera do Dia das Mães (9 de maio de 2014), quando a insana vaidade de gente importante sem significado algum me incomodava, deparei-me com insólito e-mail de uma empresária (Arianne Silvério), enviado através de meu site, no qual a empreendedora me indagava sobre a possibilidade de eu fazer um poema para o lançamento de marca de nova cachaça: “Maria Andante”.
Aceitei o desafio e me pus a trabalhar nos versos, sob o pensamento de que a poesia é mesmo a minha cachaça e aquela surpreendente solicitação veio apenas para me confirmar o meu inebriado dom poético.
Pois bem, completamente entregue ao alambique festivo da criação, engenhei os versos moendo a doce cana das palavras. A produção agradou a empresária distante, que me remunerou, abriu espaço para o meu trabalho literário no site de sua empresa e grafará o poema MARIA ANDANTE na embalagem da cachaça: A vida pertence a quem a amargura rechaça/ Toma com alegria um gole de boa cachaça/ Envelhecida no carvalho de fama curtideira/ Onde por sete anos é guardada na madeira/ Para depois esquentar o peito do viajante/ Sonhando encontrar sua MARIA ANDANTE...

Carlos Lúcio Gontijo
www.carlosluciogontijo.jor.br