Jun de 2014

Ano IV - Número XXIX

 

 

A FONTE DA JUVENTUDE: OS ENFURNADOS
Por Renã Leite Pontes

Renã Leite Pontes

Em missão catequista, passando pelas terras dos enfurnados, um sacerdote branco perdeu um saco plástico amarrado pela boca, com alguns pertences dentro: um plástico de qualidade, destes transparentes e reforçados, de guardar farinha.
Horas depois, através do serviço de contraespionagem, o achado foi entregue ao xamã da tribo com status de sagrado, uma vez que caíra das vestes de um homem consagrado.
O chefe dos sacerdotes recebeu o achado, com mística postura. No cair da noite, aos costumes, ateou fogo no conteúdo da oferenda sagrada, para torná-la mais absorvível pelo espírito da floresta, preservando, no entanto, seu interessantíssimo invólucro.
A partir daí, todos os dias, ao nascer do sol, o curador forrava a testa com o saco plástico, depois invocava, com a fronte na terra, o poder e proteção das suas divindades. Deu certo! A cada dia o poder do sacerdote aumentava e a tribo prosperava em fartura e em saúde. Por isso, houvesse chuva ou sol, o ritual era cumprido, até que, um dia, o sacerdote ajoelhou-se para rezar. Rezou durante todo o dia, o outro dia... e não parou mais.
Conforme a tradição, todos os poucos pertences do curandeiro foram quebrados e destruídos na fogueira, menos o saco plástico – porque era obra divina.

Em ato público, o saco plástico foi passado ao primogênito do Xamã morto, que lhe sucedeu de ofício, garantindo a continuidade das curas, prognósticos e - dos rituais matinais de invocação benfazeja.
Um dia, durante um ritual, o jovem-sacerdote transformou-se em um jaguar imortal; possibilidade esta, documentada em antigos pergaminhos, pelo próprio Chilam Balam de Chumayel. Os varões mais longevos da tribo testemunharam a ocorrência da imortalidade do índio que, então, desapareceu.
A partir daí, no tempo, todos na tribo passaram a nutrir grande veneração pelo saco plástico, imputando-lhe o poder da imortalidade; porque, apesar do uso diário, no decorrer dos anos, o mesmo não se destruiu, não envelheceu, somente amarrotou.
 

CRUZEIRO
Em memória de Platão do Acre
Por Renã Leite Pontes


Pairando acima das constelações
da nossa vertical magistratura,
ligado ao povo, sem fazer figura;
eis nobre exemplo para as gerações.

Ainda em sendo um jovem advogado,
a ditadura em plena ebulição;
fez frente a luta em prol do cidadão.
este é, quem sabe, o seu maior legado.

Ligado aos pobres e aos povos seringueiros,
às letras, ao clero e aos cargos cimeiros,
urdiu uma invulgar biografia.

Negou guarda ao poder, por um decênio.
teu nobre exemplo, de homérico gênio,
por nada neste mundo eu perderia.

 

A PESTE
Por Renã Leite Pontes


Fronte a Judia, desaguando em dique,
a velha Quinari de antigamente,
de casebres de palha, em paus-a-pique,
cobria os sonhos meus e a minha gente

Laboriosa, lembro direitinho,
lá, todo filho tinha o seu ofício.
ninguém sentava à beira do caminho,
dando sorte ao azar, curtindo o vício.

Éramos brancos, negros e alguns “nipos”,
jovens e velhos de diversos tipos,
todos, cumprindo o seu dever, contentes.

Mas, a peste assolou a nossa vida,
moléstia para nós desconhecida:
não há trabalhos para as novas gentes!

Renã Leite Pontes é Escritor, Acadêmico e Poeta. Escreve para diversos jornais, e tem vários livros publicados. Atua na área de educação, em Rio Branco-AC, Brasil.
Rio Branco, Acre, Brazil
http://canticosdoacre.blogspot.com/
http://comexcelenciaemeducacao.blogspot.com/

 

INFECTADA
Por Rô Mierling

Rô Mierling 

Ela tinha apenas 12 anos, vivia com a mãe e o padrasto. Era uma vida simples, no interior da cidade, colégio, casa, afazeres do lar, a vida de Laura era simples, mas feliz. Um dia sua mãe ficou doente, muito doente e não saia mais da cama, seu padrasto agora cuidava de tudo e ela cuidava da casa. Laura tinha medo de perder a mãe, era tudo que mais amava nesse mundo, a mãe foi piorando cada vez mais e morreu, o padrasto cuidou de tudo. Agora eram só eles dois: Laura e o padrasto.
Laura cresceu, já ia fazer 15 anos, queria uma festa, o padrasto disse que sim, ia trabalhar em horário extra e ia dar a ela a festa que ela tanto queria. No dia do seu aniversario tudo foi perfeito, maravilhoso, muitos amigos, presentes, Laura estava muito feliz.
A festa acabou, ficaram somente as sujeiras e restos de comida pelo chão. Laura começa a limpar e seu padrasto ajuda. Laura se sente feliz em seus recém-feitos quinze anos e se lança nos braços do padrasto dando um abraço forte e agradecendo a festa.
O padrasto retribui o abraço, aperta forte o corpo de Laura e sussurra em seu ouvido:
- Você bem que podia me agradecer de um jeito especial.
Ela se encolhe, tem nojo, vira as costas e corre para o quarto. O padrasto é um velho, magro, sujo.

Laura não tem chave para trancar a porta do quarto, retira sua roupa de festa, guarda, coloca uma camiseta e deita. Mas a porta do quarto abre e seu padrasto entra. Ela não tem coragem de gritar, ele deita em sua cama e lhe faz carinhos dizendo que a ama muito, ela fica em silêncio e não luta mais, era virgem.
Laura vai para a escola, tudo volta ao normal. Normal, menos as noites em que seu padrasto vem ao seu quarto lhe dizer o quanto a ama, ela sofre, chora, range os dentes, quer morrer.
O tempo passa, Laura cresce, casa, se forma, tem filhos, um menino de 10 anos e uma menina de 5 anos.
Hoje vive bem, em uma casa grande, casada com Jorge, dono de uma padaria, casamento sólido de mais de 15 anos. Nas festas de família, Laura evita ao máximo o padrasto, tentou em vão apagar da sua vida o tempo que morou com ele, quatro longos anos, mas hoje só ficou uma tênue lembrança ruim.
Enfim, hoje a vida é outra, Laura se formou em Pedagogia, é professora, respeitada na comunidade, na igreja, na vizinhança. Seus alunos a adoram, ela ensina Português, os pais de seus alunos a consideram a melhor professora da escola.
Ela ganha um prêmio na escola e na reunião da comunidade: professora do ano. Os traumas, o tempo ruim, as tristezas e lágrimas ficaram para trás, Laura é uma mulher realizada.
Laura tem 36 anos e todo dia segue sua rotina, casa, escola, sempre atenciosa com seus filhos e seu marido, tem dois cachorros e até com eles consegue tempo para um passeio.
Laura ama rotina, menos nas quintas-feiras, é claro.
Quinta ela não dá aula. Toda quinta ela altera seu dia para poder dar um passeio mais prolongado, ela sai de carro depois do almoço, filhos no colégio, vai até o mercado da esquina vira a direita e sobe a ladeira, dobra a direita de novo e numa casa verde ela estaciona o carro, desce do carro e dá uma batida suave na porta, a casa não tem muitos vizinhos, mesmo assim ela tenta tomar todo cuidado. Pedro abre a porta, ele tem 14 anos recém-feitos, alto para a idade, moreno, olhos azuis, cabelos fartos e jeito ainda de menino, corpo franzino e semblante tímido.
- Sua mãe está em casa Pedro? – pergunta Laura ao seu melhor aluno de Português, que hoje pelo visto faltou à aula.
- Não professora, ela saiu – ele responde.
Laura então começa a tirar a roupa e Pedro de olhos baixos se dirige para seu quarto, ela vai atrás já só de calcinhas.
- Vou te mostrar o quanto eu te amo Pedro, você vai gostar.

BIOGRAFIA
Rô Mierling, gaúcha, escritora, ghost writer, revisora literária, assessora editorial e pesquisadora acadêmica há mais de dez anos. Já revisou e colaborou na finalização de muitos livros, atualmente está lançando seu livro Contos e Crônicas do Absurdo e organizando a 1ª Antologia Amor e Morte. A autora dirige dois blogs literários, duas fans pages, participando ainda como produtora de conteúdo do site Divulga Escritor, Varal do Brasil, Recanto das Letras, Portal da Literatura e Arca Literária, filiada da REBRA.
Rô Mierling foi eleita como uma das cronistas premiadas pela Câmara Brasileira de Jovens Autores com o conto Desencontros.


Rô Mierling
Santa Catarina - Brasil
http://www.romierling.recantodasletras.com.br/

nomota.wordpress.com/