Jun de 2014

Ano IV - Número XXIX

 

 

CONVIDADO DO MÊS

ADILVO MAZZINI

 

 Adilvo Mazzini

CURRÍCULO

Naturalidade: Rio do Sul – Santa Catarina
Residência: Dourados- MS - Brasil
Possui título de cidadania douradense. Faz parte do grupo de Regentes Corais do Movimento Coral Brasileiro
Escolaridade: 3º grau – Letras (atual UFGD- 1ª turma – 1º aluno matric
Música: - foi violinista (10 anos) e trompista (saxhorn) (12 anos)
- Cursos, tendo como base o canto coral: nos mais diversos locais do país, com professores renomados, nacionais e do exterior, num total de mais 1.300 horas
Atividades: - Magistério: - Rio Brilhante, MS, de 1966 a 1970; - Dourados, MS: 1971 a 1998
. Matérias: língua portuguesa, língua latina, francês, práticas agrícolas, educação física.
- Música: . Criador do Coral Guaraoby (centro Cultural Guaraboy), ex- Santa Cecília (1979)
. Regente do mesmo coral desde a fundação à atualidade
. Regente de corais em Caarapó, MS e Rio Brilhante, MS

. Discografia: Natal entre os Povos, Memória musical 30 anos, L’Inno Dei Tamanini, Hino do Cooperativismo
Atividades culturais: . Diretor de Cultura da então FUNCED: 1993-1996
. Coordenador e corresponsável pelas atividades da FUNARTE em Dourados por duas décadas (Projeto Villa-Lobos, Rede Nacional da Música, Projeto Pixinguinha (indiretamente), estudos Musicais.
. Jurado em dezenas de Festivais de Música
Atividades Literárias: RETALHOS DE MIM – poesias. Pela Academia sul-mato-grossense de Letras (livro solo) – 2004
POETAS DOURADOS – Coletânea – poesias -2004
ESTAÇÃO CATARINHA -0 O TREM PASSOU POR AQUI – Coletânea – crônicas (Blumenau – SC)
O BANCO DA VARANDA parceria com Maria de Fátima Freire de Sá (Belo Horizonte) – epistologia – 2012.

Adilvo Mazzini
 
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 RETALHOS DE MIM

 

 

A TEMPESTADE EM FÁTIMA VENUTTI
Por Adilvo Mazzini


A Menina do Trem perdeu-se na última curva, quando soou o Terceiro Apito. A encosta absorveu-o e, com ele, sua Menina, com suas lembranças, com seus sonhos, com sua graça de menina. E sua simplicidade. E seus gracejos. E seus trejeitos, como quem vê a vida em forma de brinquedo de roda. Tudo ficou para trás, depois da última curva. E do Terceiro Apito.
Ei-la agora numa mesa de bar. Duas taças de bom vinho num banho de luar. Confidências. Sorrisos. Gracejos. Toque de pele na pele. Gosto de salivas em fusão.
Quadro perfeito: Piazzola, luar, vinho e boa companhia.
Tudo, porém, não passa de ilusão. Revolve-lhe a alma um turbilhão de sentimentos.
Há uma célula no seu íntimo, abrindo segredos, exigindo verdades, gritando desejos...
Talvez esteja na hora de partir e tornar-se plural. Profunda verdade. Verdade plural. Com desejos aos gritos! A busca da própria identidade!
Uma TEMPESTADE passou e passeou por ela. Revolveu-a em todos os sentidos. Desnudou-a de vez de tanta veste que, talvez - apenas talvez - a travestisse. Atirou-se definitivamente “na correnteza do rio, de encontro ao sal do mar”. Definitiva a correnteza? Permanente o sal do mar? Questionável. “Amanhã, nova tempestade se formará. Ansioso, cá estou para banhar-me. Outra vez”.
O próprio poeta o diz. Se houver amanhã - e haverá - pode bem ser que outras tempestades se façam necessárias. Até que a nudez se faça efetivamente veste definitiva.
“TEMPESTADE é a preocupação do poeta com o seu tempo e com os valores sociais que diariamente são colocados à prova, num roda-moinho de sentimentos e expressões culturais.” (sic).
A TEMPESTADE a abrir todos os poros do seu ser, inundando cada esquina de rua com o seu suor que rola sôfrego pelas sarjetas de uma sociedade afundada em pontos de interrogação.
TEMPESTADE é poesia de tons escuros, tintas fortes. E amantes insaciáveis. O uso dos pincéis mantém coerência impressionante. Talvez reflexos do seu próprio eu, inconformado e ávido na busca do próprio encontro.
Pode bem ser que outros poetas também sintam a necessidade de revolverem suas vísceras. E ficarem totalmente nus. Numa postura de quem quer e precisa sentir na carne a TEMPESTADE que vocifera ao seu redor.
“Há que se ter discernimento para saber esperar pelo fim da tempestade ou, para senti-la profunda e intensamente encharcando nossa alma. Deixem os guarda-chuvas fechados” (sic).
E sintam a TEPESTADE em sua voracidade.

Comentários feitos sobre a obra TEMPESTADE, de Fátima Venutti – Blumenau - SC

 

D O  S O N H O  À  R E A L I D A D E
CRÔNICA
Por Adilvo Mazzini


Não sou daqui. Vim de outras paragens. Em chegando, porém, desempenhei funções educacionais, em outros locais.
Confesso que, até ao final de 1970, foram anos de verdadeiro aprendizado, uma vez que, jovem ainda, tinha tudo para aprender da vida.
Foi assim que, nos primeiros dias de 1971, cheguei em definitivo a esta terra, da qual, verdadeiramente, me enamorei e à qual pertenço hoje, por opção e por direito.
Dentre tantas coisas de que fiz parte, quer como agente, quer como participante, uma merece destaque: o trabalho realizado na área de canto coral – uma verdadeira paixão para mim.
Vivendo intensamente cada minuto, ficava extasiado com os horizontes largos, abertos, quase infinitos. Horizontes geográficos e horizontes da realização humana. Impressionavam-me sobremaneira os segundos, onde, praticamente, tudo estava por ser conquistado.
Dourados, uma cidade florescente, promessa de novos dias, recebia verdadeira avalanche de migrantes, aqui vindos à busca, quem sabe, do seu “el-dorado”. A descoberta das terras férteis e vastamente agricultáveis atraía, a cada dia, novos trabalhadores. O barba-de-bode foi sendo substituído por imensas lavouras de soja, trigo e outros produtos agrícolas. O boi e o cavalo, trocados por máquinas. O homem, acostumado à vida pacata das fazendas de criação de gado, começava a ter que mudar seus hábitos. A correria aos Bancos começava a tirar-lhe a tranquilidade, marca registrada de quem se acostumara a não ter preocupações maiores.
Desnecessário dizer-se que a vida da cidade também mudava. A vinda da energia elétrica permanente, substituindo os motores a diesel, a implantação do sistema de telefonia mais atualizado, a penetração da televisão, a criação de faculdades... foram produtos dessa efervescência.
Como eu sempre estive afeito às coisas ligadas à cultura, preocupava-me com esse aspecto. De nada adiantaria tudo crescer, se, paralelamente, o homem não crescesse como ser humano. De nada adiantariam prédios, asfalto, campos férteis, carros novos, se o mentor de tudo isso ficasse à margem do crescimento. A razão é simples: um povo não pode ser medido unicamente pela sua demonstração externa, senão por sua condição interior igualmente.
Com essa preocupação, não raras vezes saía pelas ruas da cidade, sonhando. Literalmente sonhando. Cada espaço vazio levava-me a arquitetar inúmeras maquetes culturais: sede do coral (que ajudei a criar e dirigia), salas de concerto, academias... teatro! Sonhos! Muitos sonhos!
Foi naquelas andanças que, por inúmeras vezes, parei, estático, nas imediações da Nosde Engenharia, na Avenida Presidente Vargas, saída para Itaporã. Via aquele imenso espaço vazio, com alguns equinos dele usufruindo.
Hoje, ao dizer o que digo, posso ser tachado de oportunista, de aproveitador de situações ou coisa parecida. Todavia, não tenho preocupação neste sentido, uma vez que não pretendo acrescentar inovações aos sonhos de então.
Ensimesmado, ali, onde está hoje o Parque dos Ipês, via perfeitamente, enorme, belo, soberano, o Teatro pelo qual Dourados ansiava.
No meu sonho via o seu formato externo, suas formas arquitetônicas, os seus jardins, o seu estacionamento... (este, no meu sonho, localizava-se na parte de cima, junto à Nosde). Via o seu interior: o palco enorme, funcional; a platéia repleta de pessoas ávidas e atentas; as dependências perfeitamente adequadas às necessidades... Enfim, um Teatro digno, arquitetado em meus sonhos.
Nunca pude imaginar algo diferente naquele lugar. E foi, para mim, um verdadeiro choque quando, há poucos anos, ali começaram-se as fundamentações de uma escola. Não que fosse contrário a isso. Mas não conseguia ver nada diferente, que Teatro.
Incrível! Passaram-se os anos. Mudaram-se administrações. Rumos novos foram percorridos...
Hoje, ao fazer exatamente o que fazia há tantos anos atrás, não sonho. Posso ver realidade. Uma realidade um tanto diferenciada dos sonhos de então. Mas uma realidade coincidente!
Lá está o grande jardim, muito florido, com seus ipês crescendo, com seu espaço sendo ocupado diuturnamente para um numero sem fim de atividades, belo, funcional, alegre.
Mais para cima, como querendo se projetar ainda mais para o alto, não o teatro-sonho, mas o teatro-realidade. A exemplo do sonho, o real é imponente, agiganta-se belo, toma formas... Aparentemente mais completo que o meu.
O Teatro! Quem diria! O meu sonho, hoje realidade, ocupando o quase exato lugar do da minha imaginação, arquitetado nos meus sonhos...
O Teatro! Palco e cenário de muitos. O Teatro! Sonho e realidade de quantos creem na verticalidade do crescimento humano! O Teatro! A mais bela flor do Parque dos Ipês! A flor mais importante! A flor-sonho de um sonhador que se orgulha de ter sonhado. A flor-sonho, transformada em realidade-flor dos Ipês!
Dourados assume um novo desafio. Chegar a ser “Cidade Educadora”, nos moldes a que propõem as exigências mundiais, é uma tarefa gigante. Requer de cada cidadão consciência plena, amadurecimento de posturas, crescimento em plenitude e vivência de cada momento na busca de uma educação cidadã cada vez mais abrangente.
Nisto entra o papel do Teatro. Entre tantos outros espaços existentes, ou que venham a existir, ocupa ele uma função fundamental na condução da construção de uma população consciente, culta, verdadeiramente agente no processo da educação global, pois que, do seu palco, brotam o alargamento de horizontes, o cultivo das flores dos jardins das ruas, a preocupação com a roupagem de cada metro de construção, mas, e, sobretudo, o avivamento do amor que deve brotar em cada coração douradense.
Dourados somente será uma “Cidade Educadora”, quando cada cidadão puder se sentir inteiramente integrado no contexto histórico, social e cultural em que estiver inserido.
Teatro Municipal! A flor-sonho, tornada realidade-flor dos Ipês! Um dos pontos de partida na arrancada, rumo à consecução de sua vocação de “Cidade Educadora”!

Adilvo Mazzini