Out de 2013

Ano IV - Número XXV

 

 

EDITORIAL

REFLEXÕES SOBRE A EISFLUÊNCIAS EM SEU QUARTO ANIVERSÁRIO
Marco Bastos

Marco Bastos

Senti-me honrado e agradeço ao Victor Jerônimo pelo convite para redigir um texto que falasse sobre os quatro anos de nossa Revista eisFluências. Sou profundo admirador do excelente trabalho cultural realizado pela equipe que a dirige e edita: Victor Jerônimo, Mercedes Pordeus, Carmo Vasconcelos, e mais recentemente Henrique Ramalho; um grupo de quatro a seis membros do Conselho de Redação onde participo desde o primeiro número, editado em outubro de 2009; uma feliz reunião de bons Correspondentes ligando-nos à Alemanha, Argentina, Bielorrússia, Cabo Verde, e Espanha; uma plêiade de Colaboradores, poetas e escritores dos mais criteriosos e inspirados que encantam os milhares de leitores a cada edição bimestral com seus textos redigidos em Português ou Espanhol.

É de se ressaltar a coerência da equipe na abordagem múltipla e diversificada dos assuntos voltados aos aspectos culturais, sociais, políticos, históricos, religiosos, espirituais e estéticos, sempre de forma culta e elevada, em conformidade com suas vocações. Seria exaustivo e impraticável enumerar os temas abordados e cada um dos autores. Então penso em algumas questões que considero importante trazer ao nível de consciência:
O que é a eisFluências, o que disponibiliza, quais suas competências?

É uma reunião de pessoas competentes, que se comunica bem com o seu público, e tem bom conceito literário. A Revista tem poder de difusão relativamente amplo, e atua em vários países de língua portuguesa. Pretende ser agente e veículo de interação e de desenvolvimento cultural. Com vocação para a poesia e para a prosa; dá voz a vários e bons autores que se direcionam para assuntos relacionados ao âmbito sócio-político-cultural.
Tem capacidade de motivar e mobilizar bons escritores que se sentem prestigiados ao terem seus textos publicados pelo puro exercício do ofício ou pelo ganho de conceito literário diante dos pares e de parte da sociedade que se interessa por literatura. A Revista tem domínio sobre técnicas gráficas e edita em formato esteticamente apropriado. Sabe veicular através da internet. Tem capacidade para exercer a crítica literária e seleciona bem os textos que publica. É uma revista "culta" que discerne bem e seletivamente os temas importantes da cultura e da sociedade. Congrega vários membros e colaboradores que atuam promovendo e avaliando trabalhos literários por meio de concursos, antologias, palestras, publicações, em suas atividades rotineiras não ligadas à Revista.
Em que contexto e ambiente a Revista atua?
Edita cem exemplares impressos em papel, destinados aos órgãos de registro de autoria (Biblioteca Nacional, Brasil), centros de estudos, universidades, e câmaras institucionais de cultura.
Através de e-mails alcança primariamente largo público e abrange extensa área geográfica. Por e-mail é reenviada espontaneamente por seus leitores que também a divulgam em seus blogs e grupos literários virtuais. Com idêntica, maior ou menor qualidade literária há outras revistas do gênero em um mundo inundado por literatura, boa e má, após o advento da Internet.
Há uma miríade de motivações e formas para a realização dos trabalhos literários no ambiente virtual: blogs especializados, segmentados por assuntos, por escola ou por estilo; grupos de poesias, contos, crônicas, trovas; editores de antologias; grandes e pequenos sites literários que se sustentam na literatura, mas que funcionam como sites de relacionamento social e de ajuda mútua; sites-vitrine para a promoção de autores ou de grupos; porta-vozes de instituições religiosas; grupos com manifesta ou velada motivação político-ideológica que se vestem como literários; surgem sites, grupos e blogs operando no ambiente virtual que são associados a interesses da indústria de edição de livros; etc.
É de se notar que sites imensos, com milhões de associados no mundo todo, criados como negócio rentável, avaliados em bilhões de moedas, e não por motivação literária, oferecem meios que permitem a formação de grupos, fechados ou não, e que funcionam, muitas vezes como Revistas ou sites literários. Valendo-se da plasticidade e da flexibilidade dos softwares, os usuários formatam seus espaços conforme seus interesses – são postados artigos, poesias, crônicas, contos, comentários e crítica, além de estarem disponíveis recursos de multimídia e de salas de comunicação audiovisual (chats). Tais sites têm conseguido esvaziar grupos literários tradicionais, bem estruturadas academias virtuais de letras, pela migração de escritores que voltam a se reunir com seus pares mais afins. A liberdade de postagem, e a resposta em tempo real são fortes atrativos para a captação de membros associados.
Como se manter e prosperar em tal ambiente?
A fluidez, efemeridade e velocidade com que tudo acontece, conforme descrevi acima, trazem em seu bojo os pontos fracos a serem solucionados para a manutenção e sobrevivência de uma revista virtual. Primeiro, pensar-se em manutenção e permanência onde tudo é renovação e dissolução, construção e desconstrução, já se constitui por si só num desafio significativo.
Dentre os “pontos fracos” destaco:
Saturação: A multidão que aflui aos meios virtuais de divulgação, em sua grande maioria é de escritores amadores, na fase inicial de suas atividades. De uma forma geral, a qualidade dos textos deixa a desejar, e quer nas formas e nos temas, é muito repetitiva. Ao escreverem um poema, o divulgam em tantos quantos forem os sites em que o escritor atua e que normalmente não são poucos. Há tendência ao beletrismo predominando a forma em detrimento das ideias e dos conteúdos. No mundo atual o tempo é um dos recursos mais escassos e os leitores se sobrecarregam na expectativa de encontrarem textos que os satisfaçam. Ao lado disso há a não disposição de praticar a crítica literária construtiva, negando-se a pedagogia do Vygotsky que prevê o desenvolvimento intermediado como forma de construção do conhecimento... Há a formação de grupos de sustentação em que se dá a troca de comentários meramente elogiosos e isso dificulta o desenvolvimento dos autores.
A Revista literária que tiver autores capazes de cativar o público pela qualidade dos seus textos tende a permanecer. A Revista eisFluências posiciona-se bem com relação a esse aspecto.
Internet meio e fim: Os atrativos e a ludicidade da Internet conduzem a que se considere distorcidamente que as atividades praticadas no ambiente virtual se completem por si sós. Paradoxalmente, a facilidade de comunicação leva ao isolamento e à imobilização, como também à consciência e à mobilização. As pessoas relacionam-se com uma imensa quantidade de pessoas com as quais não têm vínculos sociais. Conversa-se com o “amigo” no outro lado do mundo e não se conhece o vizinho e nem se sabe o que ele faz. A vivência social é uma das mais importantes fontes de inspiração e de alimentação das ideias. A Internet deve complementar, mas não substituir essa vivência. A arte imita a vida. Em um mundo que apresenta problemas complexos a literatura não pode se desgarrar da realidade. Acontecem desabamentos, inundações, catástrofes nucleares, consagração de colheitas, guerras, safras inteiras perdidas, festas cívicas, congestionamento crônico das vias de trânsito, etc. e a literatura que nos chega em alguns sites nos traz os mesmos poemas intimistas, como se somente hoje todos se dessem conta de seus próprios sentimentos. As pessoas passam a “vivenciar” situações difíceis acontecendo em áreas distantes e sobre as quais não há como atuarem. Alegram-se com a notícia dos fatos bons, sem, no entanto, saberem de quem é a alegria. E o mundo se transforma em um mundo de palavras, cumprimentos, desabafos, abaixo-assinados, petições de ongs que se especializaram em mapear as mazelas do mundo e a gerar documentos com milhares e milhões de assinaturas. Há meia hora regozijei-me com a beleza da queima de fogos do réveillon carioca. Agora redijo inconformado e solidário em resposta a um grupo de suecos que protesta veementemente contra a usina atômica de Fukushima. Em seguida adiciono ao meu nome no perfil Guarany Kaiowá e vou dormir mais tranquilo ou mais inquieto a depender do que mais me impactou nesse mundo das notícias. A mídia eletrônica se fortalece pela inoperância e cooptação da mídia tradicional televisada que se subordinou aos interesses de governos ou de grupos econômicos, mas não somente por isso – fortalece-se pela modernidade e por permitir a participação direta dos usuários na construção das notícias.
No entanto, nem tudo pode estar ao sabor da aleatoriedade dos fatos e da velocidade dos acontecimentos. É necessário que haja pontos de referência e de apoio. Nisso reside a importância que uma revista como a eisFluências pode ter.
A sinergia e a catálise.
Vários grupos culturais vêm percebendo a necessidade de atuarem no âmbito do mundo “real”. Ao lado da atuação literária virtual criam grupos de estudos e de produção artística. Desenvolvem atividades integradoras com a sociedade: saraus, apresentações artísticas, recitais, edição de antologias, realização de palestras, etc..
As revistas tais quais a eisFluências têm à sua disposição um enorme potencial cultural e intelectual capaz de contribuir para o êxito desses empreendimentos. Podem atuar incentivando e interligando grupos voltados para a literatura que busquem a divulgação dos seus textos via revistas, mas que também e necessariamente atuem concomitantemente no meio social e cultural de suas Cidades.
As Revistas eletrônicas credenciariam alguns grupos de literatura em áreas geográficas com as quais lhes interessasse interagir. A função desses grupos seria de intensificação e de propagação da cultura; dinamização das relações socioculturais no âmbito de Cidades; elevação da qualidade da literatura produzida nas áreas de atuação dos Grupos.
Para o credenciamento dos Grupos, as Revistas estabeleceriam algumas condições: Relação do Grupo com uma Faculdade de Letras local; Apresentação de um programa de atuação com cronograma para realização de recitais e de palestras abertas à sociedade local; Participação em eventos cívicos e culturais em datas a serem resguardadas; Escolha de um escritor já falecido como patrono.
As Revistas ofereceriam aos Grupos: Assessoramento para a estruturação de atividades e para o funcionamento dos Grupos; Orientação cultural; Meios para o Intercâmbio entre Grupos de diferentes Regiões; Espaço para publicação de obras do Grupo recomendadas pelo Conselho que cito a seguir.
Para esse programa, as Revistas criariam um Conselho de Interação e de Orientação e cada Grupo contaria com seu orientador.
Seria uma atividade de catalisação em busca da sinergia, e para os grupos que aderissem, seria a disponibilização de competência que só é alcançada num largo espaço de tempo. As revistas estabeleceriam a ponte entre o mundo dos eventos de algumas sociedades, através da literatura. Seria realizada a difusão de uma cultura para as demais culturas de regiões diferentes de forma eficaz e bem organizada.

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mais leve que o ar  

é sim, é sim,

também queria ver zeppelin

pra ficar assim, assim...

Marco Bastos

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